Vida, morte e suicídio

Nós existimos e vivemos entre dois pontos: o nascer e o morrer.

Neste intervalo nós nos tornamos sem cessar até o ponto final.

Este pode surgir a qualquer momento, de diversos modos e independente da nossa vontade.

É inevitável. Nós vamos morrer e algumas pessoas lamentarão por isto. Farão um velório e nos enterrarão numa cova. Logo estas continuarão suas vidas, lamentando vez ou outra pela nossa ausência quando formos lembrados, principalmente em nossa data de aniversario e de falecimento. Estas pessoas também morrerão, e restará nossa cova e uma possível nova geração de familiares que, talvez, saibam nosso nome mas já não lamentarão a nossa ausência ou levarão flores a nossa cova. Em breve nossa cova será mais uma desconhecida entre outras e mesmo entre as novas gerações de nossa família nós já não seremos conhecidos, tão quanto em vida nós não conhecíamos milhares de antepassados nossos. Até que nossa cova deixará de existir, até que não restará sequer vestígio de que um dia nós pisamos nessa terra.

Todo esforço que em vida fizermos para ter status e poder, para massagear o próprio ego e vaidade, nos renderá, no fim, somente isto: o nada. E mesmo os heróis, os vilões, as figuras históricas e tidas como importantes e famosas, serão levados, em algum momento, a este estado irreversível; afinal a vida humana surgiu neste universo e provavelmente desaparecerá, e assim como um dia o universo existiu e funcionou sem nós, se isto ocorrer passará, novamente, a ser assim. Mas mesmo que não, qual seria o sentido de vivermos em prol de uma vaidade que não desfrutaremos por que estaremos mortos? Toda corrida em direção a ser visto, valorizado, exaltado e etc., movida pelo combustível da vaidade, ao cortar a fita da linha de chegada nos leva ao poço sem fim do esquecimento.

Na verdade, o que quer que seja que façamos por nós e para os outros, ou que façam por nós, resultará nisto.

Nascemos,e se nascemos morremos, mas deveras não podermos escolher nascer ou não, viver não é uma obrigação ou uma determinação natural e podemos escolher morrer.

Assim, sempre haverá uma alternativa a tudo nesta vida, tal é a não-vida. Cabe a cada um julgar até que ponto pode suportar, se vale ou não a pena estar vivendo e viver, e se não é hora de por fim a esta vã resistência.

Ocorre que na ordem do tempo, no intervalo entre nascer e morrer, primeiro nos habituamos a viver e só depois a pensar. Sendo assim, não só não escolhemos ser gerados e nascer, continuar vivendo também não. Isto (continuar vivendo) é sim um impulso da natureza reforçado por um costume que em si não toma a morte, ou melhor o suicídio, como alternativa. Mesmo depois de basicamente desenvolvida nossa capacidade consciente de reflexão e critica, a maioria das pessoas vive como uma obrigação em relação a qual não se há alternativas. Mas sequer pensam na vida e a reconhecem assim: só vivem. Este viver é nesse aspecto dogmático, por que nunca tendo havido reflexão e escolha, só há alienação construída pela natureza e o costume. Um dogma do qual se segue que “devemos viver a vida sob quaisquer circunstâncias”, sem ponderar se vale a pena suportar esta vida, a vivermos e tentarmos torná-la melhor, sem considerar que é possível confessar que suas dores são maiores que nossas forças e podemos retornar ao nada de onde viemos.

Diz Montaigne que “Marchamos todos para a morte; nosso destino agita-se na urna funerária; um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, o nome de cada um dali sairá e a barca fatal nos levará a todos ao eterno exílio” e que “o que deverá ocorrer fatalmente um dia pode acontecer hoje”. Mas apesar de ser inevitável a morte devemos esperar que ‘ela’ nos abata independente de nossa vontade?

Em nosso tempo se diz “devemos viver a vida sob quaisquer circunstâncias”, que o suicídio é em si moralmente errado, se criminaliza os que revelam querer e/ou tentam e os chamam de egoístas, afirmando-se com isto que a opinião alheia é mais importe que a soberania do individuo de decidir ou não continuar vivendo, esquecendo-se que, como nos lembra Montaigne, a natureza nos cedeu somente um modo de vir a viver mas cedeu-nos muitos modos de deixar de viver, e sendo assim não nos é impossível a morte voluntária tão quanto é impossível que voemos sem ajuda de equipamentos adequados ou que pensemos num quadrado redondo. Basta que através de um desses modos, se quisermos e pudermos, retiremos as nossas próprias vidas.

Estes acusadores que querem do mundo uma ditadura na qual os outros devem necessariamente se manter vivos em nome de um dogma, esquecem-se que, como concluiu Nietzsche, “não há fatos morais mas somente interpretações morais dos fatos” ou como afirmou o nobre Hamlet “não existe nada de bom ou de mau que não seja assim pelo nosso pensamento”, que se o suicida é egoísta por não se importar o suficiente com o sofrimento alheio que pode ser gerado com sua morte também são egoístas os que em nome do próprio bem estar querem que fique vivo o suicida, independente do seu bem estar estando vivo. Quando não em nome deste dogma, desse moralismo e do apontamento de egoísmo, apelam para a utilidade social das pessoas não se matarem. Com isto praticamente bradam “viva, infeliz, por nós, mas viva e sorria, por que mal ou morto és improdutivo”.

Não obstante a sociedade e o Estado que criminalizam o suicídio e o mantém como um tabu, os próprios indivíduos que se percebem passando a tomar o suicídio como uma alternativa tendem a obscurecer para si mesmos o tema.

Para além daqueles que reproduzem a lógica social e estatal e oprimem a si mesmos, há os que dizem para si que, por exemplo, o pós-morte é desconhecido, que pode haver vida e algum tipo de punição para os que se matam.

Ora, constatamos através da experiência que todos os seres vivos nascem, vivem e morrem,  mas não tomamos o fim de suas vidas como um mistério ou a passagem para uma outra vida. Sequer pensamos nisso, apenas aceitamos suas mortes. Todavia, ao considerarmos os seres humanos não procedemos assim. Há quem diga que a morte para nós é um mistério em relação ao qual não sabemos o que ocorrerá depois ou que deve haver vida após a morte. Porque nos tomamos como exceção entre os outros seres vivos se também o somos? O que está por trás de e movendo os nossos pensamentos acerca da morte? Não estaríamos projetando na realidade aquilo que gostaríamos que fosse para satisfazer nossas necessidades emocionais quando afirmamos haver vida após a morte, que algo melhor e as pessoas já mortas que gostamos nos esperam, que somos especiais e há um sentido para vida de cada um de nós, ou quando tornamos a morte um mistério para que possamos alimentar esperançosamente estas possibilidades?

A vida parece acontecer entre dois nadas: o antes de sermos e o depois quando não mais seremos. Quão bom ou ruim era antes de sermos? Não havendo “nós” não havia prazer ou dor. Quão bom ou ruim será depois de não mais sermos? Se quando não fomos não havia prazer e dor por que pensarmos que haverá algo nestes termos quando voltarmos a não ser? Não há por quê. Se pensamos que éramos algo antes de nascer e/ou seremos depois de morrer, que ‘algo’ era este que éramos ou seremos? Como sabemos disso, como chegamos a esta conclusão? Conclusões em favor da vida no pós morte e etc., não foram demonstradas ou sequer tornadas prováveis.

Este estado de ausência de evidências não é evidência da ausência do que propõem, como nos lembra o grande Carl Sagan, mas é razão suficiente para, até que hajam evidências, não crermos ou até mesmo descartarmos a proposta se, como Hitchens, pensarmos que “O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas”.

Não bastasse não haver evidências a favor destas possibilidades, temos extenso conjunto de evidências cientificas contra. Se há alguma justiça na dúvida acerca de para onde vamos depois de morrermos é devido a quantidade de cemitérios por aí.

Alguém poderia dizer-me que quem opta pela morte o faz por se encontrar doente. E daí? Não é preciso necessariamente ter boas razões para isto, basta querer e poder. Mas será mesmo esta afirmação verdadeira? Quem dirá que Sócrates ao ser condenado injustamente a beber veneno estava doente ao recusar as alternativas que lhe permitiriam viver, se recusou devido aos seus princípios e interesses? Quem dirá que Ulisses ao negar a proposta de imortalidade e juventude eternas da apaixonada Deusa Calipso para que ficasse com ela, estava doente, se o fez em nome do seu amor pela família que o aguardava em sua terra?

De todo modo, ainda que seja preciso estar doente para optar pela não-vida, que obrigação transcendental e inevitável é esta que deve nos fazer continuar vivendo ainda que doentes ou nos submetermos a tratamentos e nos esforçarmos para melhorarmos? Essa obrigação não existe por si, é uma invenção. Um doente terminal terá que aguardar a morte lhe abater? Um tetraplégico precisa passar pela vida imóvel? Estas decisões não cabem a nós, a menos que queiramos ser tiranos e donos das vidas alheias. Podemos ajudar estas pessoas a pensarem melhor suas decisões e ajudá-las se quiserem e só.

Mas, claro, só uma minoria opta pela não-vida, pela morte, pelo suicídio; os outros vivem ainda que sem terem decidido isto refletidamente e se deixam abater por uma morte que lhes extingue independente de suas vontades.

Mas que valor tem cada uma destas vidas? Se perguntarem-se a si hoje ao fim do dia, como se fosse este seu ultimo dia, como viveram, poderiam dizer ter vivido até então de forma significante para si mesmos e para os outros que estão ao seu redor? Será que suas vidas lhes despertaria qualquer interesse se não fossem suas e se observassem de fora? Poderiam dizer a cada dia que acordam que vale a pena acordar e viver os dias que são os seus?

Já estamos quase mortos quando chamamos uma coleção de feridas de historia de nossas vidas, quando a vida passa por nós, ou nós por ela, enquanto olhamos para trás e temos pena e olhamos para frente sem razões para esperanças.

Quase! “Quase” por que há uma característica que se da na condição de existência da humanidade: a possibilidade de nossas vidas e convivência serem em grande parte diferentes de como estão sendo. Por isto podemos, se julgarmos conveniente, alimentarmos a chama desta esperança, darmos voz ao grito instintivo por sobrevivência e da nossa alma ao nos dizer “é preciso fazer a vida valer a pena ser vivida”,  e resistirmos ao tédio e ao sofrimento em nome dos possíveis momentos de alegria, de beleza, de contemplação e reflexão sobre os mistérios da existência. Podemos criar e viver sentidos, explorar a experiência de existir, de chorar e de sorrir, para que em tão curta vida possamos curtir a vida. A luta pela e na vida não vence a morte mas pode nos permitir que ao descansarmos das negatividades (sem as quais não reconheceríamos positividades) possamos sorrir ou nos tranquilizar. Trata-se de inventarmos o que fazer como consolo da condição em que nos encontramos, de jogar o jogo, conscientes de que se a felicidade plena é impossível, nenhuma infelicidade durará ou precisa durar para sempre. A vida se não pode ser toda boa, pode não ser toda ruim. Cabe a cada um decidir se persistir ou desistir.

Tags:

Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos

Sobre o(a) Autor(a) ()

Meu nome é Lucas Jairo C. Bispo, tenho 23 anos e estudo Filosofia na Universidade Estadual de Feira de Santana. Escrevo por prazer e publico com o objetivo de fazer pensar (junto a, a partir de e inclusive contra o escrito) e de entreter, apesar de não evitar necessariamente defesas. Atualmente na internet administro o blog "Cogito, Logo Escrevo".

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas