Não-ser, káiros e verdade como kosmos do discurso

Introdução

sofisticaEis como Aldo Dinucci designa seu desafio na Miscelânea Sofística: “Falar sobre a Sofística para rebater a costumeira depreciação do pensamento sofístico”. O professor se propõe a descaracterizar os infundados preconceitos milenares a respeito da Sofística que distinguem esta da Filosofia, colocando-a como uma anti-Filosofia. No entanto, uma vez que Platão “encontrou relevância no pensamento sofístico, dele ocupando-se intensamente em muitas de suas obras, e dando a muitos de seus diálogos nomes de sofistas ilustres, é evidente que ele o fez por estimar os temas tratados pelos sofistas como filosoficamente importantes”. Dessa maneira, ao invés de considerar a Sofística como “o outro da Filosofia”, Dinucci a declara “como uma Filosofia outra que aquela de Platão e Aristóteles” pois tanto uns como outros utilizam-se de “argumentações racionais para sustentar suas posições e tratam dos mesmos assuntos (a ética, a linguagem, o mundo), estando aí o que os une, o que os faz entrar em diálogo, o que os coloca no âmbito do pensamento e da Filosofia”.

O próprio Filóstrato (c. 170-250), sofista situado no período dos imperadores romanos, pensa a Sofística como uma “retórica filosofante”. Contudo, os preconceitos contra o movimento persistem especialmente por causa de antigos adeptos fanáticos do cristianismo. A título de exemplo está Jacques Maritain (1882-1973) que, em sua Introdução Geral à Filosofia, diz ser a Sofística não uma doutrina “mas antes uma atitude viciosa do espírito”. Se destes pensadores herdamos tais cismas, tais precedentemente se alicerçaram em escritos oriundos de muito antes, a exemplo estão os diálogos platônicos Sofista, Político e Górgias, nos quais Platão costumava atacar principalmente a questão moral, política e metodológica seus antecessores. Aristóteles, por sua vez, critica a posição do logos sofista pela tese segundo a qual “Ninguém realmente crê que o princípio de não-contradição é falso”, pois, se alguém admitisse isto, teria de falar contraditoriamente e, atacando especialmente o Tratado do Não Ser gorgiano, diz que se Górgias estivesse certo, ou seja, se toda predicação factualmente fosse acidental, o mundo seria composto apenas por acidentes, e aristotelicamente isso é de ordem insubstancial e insustentável. Dessa maneira, conjuntamente com Platão, os escritos aristotélicos deixaram historicamente cristalizada uma espécie de opinião contra a Sofística, muitas vezes difundida entre estudiosos que sequer conhecem as obras do movimento.

Mas, pensemos, será que Górgias de maneira alguma poderia estar certo? E se considerássemos que as ideias de Platão e Aristóteles são necessariamente aporéticas, insolúveis, sem saída? Será que enfim poderíamos pensar que a concentração ideológica que pela primeira desviou o olhar da natureza e dirigiu-o mais amplamente para o homem, foi a primeira a fazer do pensamento objeto de pensamento dando início a uma crítica de suas condições, possibilidades e limites, e por último submeteu os padrões dos valores éticos a uma reflexão perfeitamente racional com isso abrindo possibilidade de a ética ser tratada cientificamente (STORIG, 2009, p. 120) poderia se valer como um sistema filosófico coerente? Será que finalmente o movimento que contribuiu sobremaneira para modificar a concepção de virtude grega, antes oriunda do sangue aristocrata, agora adquirida pelo hábito e pelo exercício, terá algo a nos dizer? Pensemos como cautela, e, uma vez que o movimento sofístico se apresentou com ramificações e/ou correntes independentes, a fim de não trazer uma quantidade de carência qualitativa, pensemos a partir de um único antecedente: atentemos-nos unicamente a Górgias, natural de Leontinos, na Sicília, como pensador satisfatoriamente justificável.

Principais teses de Górgias

Ora, dentre as principais teses que lhe são atribuídas estão aquelas que se dirigem aos domínios da Retórica e da Filosofia sobre a arte (technê) dos efeitos produzidos nos ouvintes, a relevância do kairós (o “momento adequado” para a menção de um tópico num discurso) e a concepção do logos como estruturador da realidade. Por conseguinte, este sofista apresenta uma façanha polêmica antiparmenidiana tomando como base as premissas da própria Escola Eleata.

Parmênides, acreditando ser propriedade do logos dizer positivamente a verdade e negativamente formular o erro pautado no feitiço das aparências, permitiu, ao dizer ser verdadeira a apreensão da factual essência fenomênica das coisas. que fosse possível pensar que o Ser é imutável e idêntico a si mesmo (GALINARI, 2015, p. 92-100): “Tanto é verdade que, grosso modo, na ótica parmenidiana, só poderíamos dizer e pensar aquilo que existe (‘o Ser’), ou melhor, aquilo que é, sendo impossível pensarmos aquilo que não é, ou seja, aquilo que inexiste (o ‘não-ser’), salvo quando erramos e adentramos no mundo perigoso das aparências”. A verdade, assim, seria una, indivisível, imutável ou, em outros termos, universal.

Górgias, contudo, reage a tais postulados formulando uma nova concepção de linguagem a partir de três teses, a saber: 1) o nada é ou existe; 2) mesmo que haja algo, não pode ser conhecido; 3) mesmo que pudesse ser conhecido, não poderia ser comunicado a outrem.

“O nada é ou existe”

Sua primeira tese propõe que nada existe essencialmente, isto é, conforme uma natureza una, coerente e indivisível, ou ainda, sob a ordem d’uma verdade intrínseca à sua realidade fenomênica. Nesse sentido, para Górgias, o Ser e o não-Ser de Parmênides não se referem à ontologia e metafísica, e sim ao domínio do logos, do pensamento humano e da lógica. No Tratado do Não-Ser o sofista diz que factualmente se o existente existe, então ele é ou uno ou múltiplo, contudo, se fosse uno, seria ou existente e contínuo (porém nenhum corpo é uno, logo, o existente não é uno) ou incorpóreo (por conseguinte, não teria magnitude e não existiria); e se fosse múltiplo, uma vez que o múltiplo é uma coleção de unos, também não poderia ser. Resta dizer que o Não-ser é não ser do mesmo modo que ser é ser e não ser é, ou seja, ser não é ou não existe. Em suma, adiante o homem, nada existe enquanto essência e verdade.

“Mesmo que algo existisse, não poderia ser conhecido”

Para continuar a sua reflexão, Górgias propõe uma tese hipotética: supondo que algo exista enquanto essência, este algo não será apreensível ou cognoscível para o homem uma vez que a lógica e linguística interior do logos não corresponde à suposta natureza das coisas. Assim, as coisas pensadas não são e as coisas que são não são pensadas, ou melhor, o que existe não pode ser conhecido. Se as coisas pensadas fossem, o que quer que fosse pensado seria – não é absurdo pensar e ser uma carruagem passeando sobre o mar? Obviamente, portanto, as coisas pensadas não são e se houvesse um ser ele não seria pensado, ou seja, novamente as coisas pensadas não são.

“Mesmo que algo pudesse ser pensado, não poderia ser comunicado”

Continuando no campo hipotético, Górgias sugere que faculdades diferentes revelam coisas diferentes, logo, assim como a visão revela coisas visíveis, e a audição, coisas audíveis, o logos revela apenas o logos e então não revela coisas visíveis nem audíveis; mas se o ser é visível e audível, o ser não é logos, por isso, o logos não revela/não comunica o ser e não é uma substância. Assim sendo, uma vez que a comunicação se faz por meio de palavras, as coisas só podem ser conhecidas pelo sentido apropriado e, uma vez que as palavras não são extensas, o conhecimento do ser não pode ser obtido pelas palavras nem pode ser comunicado.

O discurso

O discurso [ou logos, portanto,] é um tirano poderoso que, com um corpo microscópico e invisível, executa acções divinas. Consegue suprimir o medo e pôr termo à dor e despertar a alegria e intensificar a paixão. (…) Os encantamentos inspirados pelas palavras levam ao prazer e libertam da dor. Na verdade, a força do encantamento, misturando-se com a opinião da alma, sedu-la, persuade-a e transforma-a por feitiçaria. (…) A força do discurso em relação à disposição da alma é comparável às prescrições dos medicamentos em relação à natureza dos corpos. Assim como os diferentes medicamentos expulsam do corpo os diferentes humores e uns põem termo à doença e outros à vida, assim também de entre os discursos uns entristecem e outros alegram, uns amedrontam e outros incutem coragem nos ouvintes, outros há que envenenam e enfeitiçam a alma com uma persuasão perniciosa.

(GÓRGIAS apud PINTO e SOUZA, 2005, p. 127-133)

O kairós

A noção popular de kairós (“momento oportuno” em grego) que antes se dirigia à retórica, por meio de Górgias, passa a se estabelecer também como princípio da ética ao lado da ordem social. Segundo ele, seguindo o kairós, o orador também deve elogiar aqueles que colaboram com a ordem social e recriminar aqueles que provocam a desordem na sociedade. Assim o sofista apresenta a doutrina da ação orientada pelo kairós ao mesmo tempo como a mais geral e a mais divina uma vez que sua observação é o único guia para as ações num mundo sem a fixidez das essências e inteiramente entregue à fluidez do movimento e da mudança. Indefinível, o kairós somente é distinguido entre a ocasião e a confluência de múltiplos fatores contingentes. Cabe ao homem prudente, tendo isso em vista, reconhecer os diversos fatores contingentes que compõem o momento e agir segundo eles para ser eficaz.

A palavra

Após distinguir claramente linguagem e objeto, a obra de Górgias indica que a palavra possui um télos cuja natureza consistem em (1) identificar para (2) enunciar o mundo colocando-o ao alcance da compreensão ainda que o fenômeno mesmo seja algo distinto daquilo que é enunciado. A palavra, então, atinge um patamar inédito no mundo grego:  plasmar o mundo pela linguagem; tudo o que existe, existe então porque tem nome. Conforme foi dito, o inominado não existe e mesmo se existisse não poderia ser conhecido porque não é percebido.

A verdade como kosmos do discurso

Pressupostamente, nesse caso, a verdade seria apenas a ordem (kosmos) do discurso, assim como a beleza é do corpo e a sabedoria é da alma – situação esta que aponta para a possibilidade de compreendermos a verdade como manifestação harmônica e bela do discurso (fim lógico-estético), sobrepondo-se a qualquer preocupação de ordem epistêmicoontológica:

Perfeição para uma cidade é o valor de seus habitantes, para um corpo, a beleza, para uma alma a sabedoria, para uma ação, a virtude, para um pensamento, a verdade. As qualidades contrárias a essas implicam imperfeição. Em um homem, em uma mulher, em um pensamento, em uma ação, em uma cidade, é necessário honrar com louvores o que seja digno de louvor e cobrir de censuras o que seja objeto de censura. Pois tão errôneo e inexato é censurar o que deve ser enaltecido, como enaltecer o que deve ser censurado.

(Elogio a Helena)

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Categoria: Epistemologia, Filosofia Antiga, Filosofia da Linguagem

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Penso em deixar um comentário mas, é passível e justo de censura já que não consigo comunicá-lo

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