Temperança

Não quero balbuciar o desejo que desvanece a temperança.
Sei que aqui ele me suscita, sei que a devassidão criadora foi-me dada.
Denego se esta é dádiva ou revés, por ora basta de tanto ardor produtivo,
Cobiço meramente um ócio realmente ocioso.

Apetecer-me-ia se junto da pausa a arte cessasse,
Ou ao menos se dela se esvaísse o medo.
Neste verso já renuncio a inércia,
Mas rogo pelo amor dos amantes que a fabrique.

Estou cansada de esperar a calma,
Um sinal de alivio só revela o ponteiro do relógio se remexendo.
A hora se passa e senão pousa no meu ombro a chance de ninar,
Arrepiada, falta-me a vigília enquanto é dia.

Canso de cansar de ser artista,
Enfastia-me frutificar versos humanos.
Expectadora do triângulo perfeito,
Não queria falar entre nós,
Aqui não vejo o prenúncio do êxtase,
Somente enxergo uma excitação dissimulada.

Se meus abecês se movem, são os hormônios que os grafam.
Meu juízo não quer a vida, minha sensatez não quer a arte.
Ainda quero o nada que nem o vazio me daria,
Pois se algo pode me dar o que quero,
Seria a observação im-participada e gélida da existência.
Eu não quero viver a morte, apenas desejo morrer a vida.

Categoria: Artes e Letras, Poesias

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (2)

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  1. Ismar Dias disse:

    Lord Byron discorda veemente desse poema, ele e todos os românticos e ultra-românticos da era literária pré-simbolismo. Entretanto, isso não desqualifica o poema, nem valida ou categoriza; pelo contrário, apenas cria um reflexo contundente das estruturas lógicas encontradas nas premissas de seus poemas.

    Eu chamei seu poema de cru, niilista, cruel, e por vezes até masoquista. Mas é isso que constitui a genialidade do texto, a autenticidade. Nunca vi nada parecido, seus poemas são providos de uma lógica contextual sem ser jornalística, ao passo que também tem sentimentos, honestidade (e por isso a crueldade) sem deixar de ser poético.

  2. Airumã disse:

    Não tenho, mulher, a grandeza de espírito necessária
    Para elevar, com elogios, da tua alma o gozo
    Tampouco sei se planejo teu desconforto
    Ou aninho-te e lhe protejo desta malfadada piada

    Fato é, que no meio do caminho
    A pedra que nos falta é a mesma que nos cala
    O último elemento no cadinho
    O último toque, a coroa de espinhos
    A pedra angular é a crença no nada

    “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”

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