Opinião e crença: a justificação do conhecimento

plat-guePlatão costumava distinguir a doxa (opinião) da episteme (conhecimento) – razão pela qual muitos estudos provenientes, em sua maior parte, da tradição inglesa e americana apontam um conteúdo predominantemente epistemológico (ou pelo menos uma antecipação dos problemas típicos da epistemologia contemporânea) em suas obras, especialmente no Teeteto.

O filósofo ateniense criticava a aplicação sofistica, alegando ser essa uma atividade que, através de sua arte, produz convicção incerta, isto é, sem ensinar, o sofismo induz às pessoas a acreditar naquilo, seja lá o que for, que os sofistas desejam que acreditem. Por exemplo, hoje afamamos a profissão dos advogados, no entanto, para Platão, estes jamais poderiam na curta duração de uma sentença ensinar devidamente a verdade acerca de um crime cujo episódio sequer foi visto pelos juízes, assim, eles não fazem nada senão persuadir o juri.

Todavia, considerando a crença verdadeira e o conhecimento como termos idênticos, nunca nem mesmo o melhor dos juízes teria uma correta compreensão do fato, ainda que julgasse um culpado como culpado ou um inocente como inocente. Um bom translado para isso entender é o Caso I do texto É a crença verdadeira justificada conhecimento? de Edmund Gettier.

Suponha-se que Smith e Jones se tinham candidatado a um certo emprego. E suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição conjuntiva:

d) Jones é o homem que vai conseguir o emprego, e Jones tem dez moedas no bolso.

As provas que Smith tem a favor de d podem ser que o presidente da companhia lhe tenha assegurado que no fim Jones seria selecionado e que ele, Smith, tenha contado as moedas do bolso de Jones há dez minutos. A proposição d implica:

e) O homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso.

Suponha-se que Smith vê que d implica e e que aceita e com base em d, a favor da qual ele tem fortes provas. Neste caso, Smith está claramente justificado em acreditar que e é verdadeira.

Mas imagine-se que, além disso, sem Smith o saber, é ele e não Jones que vai ficar com o emprego. Imagine-se também que, sem o saber, ele próprio tem dez moedas no bolso. A proposição e é assim verdadeira, apesar de a proposição d, a partir da qual Smith inferiu e, ser falsa. Assim, no nosso exemplo, as seguintes proposições são verdadeiras: 1) e é verdadeira, 2) Smith acredita que e é verdadeira e 3) Smith está justificado a acreditar que e é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que e é verdadeira; pois e é verdadeira em virtude das moedas que estão no bolso de Smith, ao passo que Smith não sabe quantas moedas tem no bolso e baseia a sua crença em e no facto de ter contado as moedas do bolso de Jones, que ele erradamente acredita tratar-se do homem que irá ficar com o emprego.

Ou seja, ainda que se chegue a conclusões/resultados/máximas condizentes com a realidade, se estas não forem justificadas corretamente, não são conhecimento. Assim é preciso:

  1. Haver um fato;
  2. Acreditar no fato;
  3. Justificar porque 2 (a crença) pode vir a ser uma verdade; de modo que

I. P é verdadeiro

II. S crê em P, e

III. S está justificado a crer em P.

Voltando a Platão, nos seus primeiros diálogos, a doxa é uma simples opinião. De acordo com a síntese de Karen Franklin (Os conceitos de Doxa e Episteme como determinação ética em Platão, Educar em Revista, UFPR, n. 23, 2004), este termo grego <<encerra a significação de uma certa noção de julgamento e sentimento, no sentido de resolução e decisão parcial, baseada unicamente nos dados presentes. Isso implica que doxa é compreendida como um certo juízo subjetivo que tem valor apenas momentâneo (…) sob a mesma perspectiva, nesses primeiros diálogos, episteme é vista como uma techné, uma habilidade para fazer algo, um tipo de saber que tem seu suporte no conhecimento especializado e preciso da coisa (…) No diálogo República, esses termos adquirem uma nova delimitação e, apesar de serem considerados radicalmente opostos, mantêm entre si uma relação intrinsecamente necessária. Doxa na República é reafirmada como simples opinião, mas se distancia de episteme, no que concerne ao valor do conhecimento. Aqui episteme, como conhecimento da realidade das coisas, manifesta-se como diretamente ligado à Idéia do bem, no sentido de esta garantir a veracidade do conhecimento. Portanto, na República o termo episteme, que antes suportava a possibilidade de ser habilidade para algo, agora adquire o conteúdo de saber pleno de certeza, um saber evidente que está ligado diretamente com a realidade da Idéia>>.

Concluo este texto, pois, com as palavras proferidas numa aula do meu professor; uma crença pode vir a ser verdadeira ou falsa, no entanto, ainda que determinada crença coincida com os fatos, se não houver discernimento dos fatos por ela admitidos, não haverá conhecimento. Um conhecimento não pode ser falso, somente verdadeiro. E como dizia Kant; pode-se definir a priori uma proposição falsa, mas não uma verdadeira. No fim, é preciso de algo além da crença para haver conhecimento, ou seja, uma crença verdadeira é episteme se e somente se houver uma boa justificativa ou razão para fundamentá-la.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia Antiga

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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