Morte e sensualidade

erotismoPrecedido pelo Miroir de la Tauromachi (ensaio de Michel Leiris, 1938) onde o erotismo se liga à vida, não como ciência, mas como paixão e contemplação poética, George Bataille, em O Erotismo (1957), antes de tudo mostra o assunto como algo já há muito tempo tratado de forma aberta entre as pessoas, não mais como outrora, isto é, quando um “homem sério” não podia tematizar o Eros sem arriscar a sua reputação. Para ambos os autores, enquanto a ciência acumula trabalhos especializados, o erotismo é um tema que abordagem científica alguma pode alcançar, pois esta não comporta aspectos nele influentes como a história do trabalho e das religiões. Por isso na obra de Bataille “os impulsos da religião cristã e os da vida erótica aparecem em sua unidade” de modo que a vida sexual dos homens não é necessariamente erótica, mas ela o é sempre que não for simplesmente animal.

O Erotismo mostra como o Eros é a aprovação da vida até na morte. O espírito humano, exposto às mais surpreendentes injunções, constantemente teme a si mesmo. Os movimentos eróticos apavoram-se na dicotomia da santa (com terror do sensual) por suas paixões inconfessáveis. Bataille busca uma possibilidade de convergência entre a santa e o sensual a fim de ultrapassar o medo e encará-lo de frente. O erro da filosofia, para esse pensador, é se afastar da vida. Por isso é necessário referir-se a ela também por uma perspectiva erótica que sucessivamente se apresenta em três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado.

Bataille significa a primeira forma de erotismo, ou seja, a dos corpos, como uma violação do ser dos parceiros que confina com a morte e o assassínio. O autor fala do homem como um ser obstinado a ver durar sua descontinuidade. Essa razão desanima os homens, por vezes, em face à ideia da individualidade descontínua que está em si mesmo, a acabá-la com a continuidade. No erotismo está em jogo, pois, a passagem da descontinuidade à continuidade; especialmente naquele que tange os corpos. Ele é para Bataille uma violação do ser constituído — que se constitui na descontinuidade — por passar de um estado a um outro essencialmente distinto. Contudo, diz, a concretização do erotismo tem por fim atingir o mais íntimo do ser. Toda a concretização erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado que é, no estado normal, um parceiro do jogo; isso a partir de uma ação decisiva, ou seja, com fundamento no desnudamento que se opõe ao estado fechado e descontínuo. De onde vem tal descontinuidade? Da distinção entre cada um dos seres, isto é, o nascimento, a morte e os acontecimentos da vida é diretamente interessado pelo vivente que sozinho nasce e sozinho morre. Ele morre, mas os outros continuam vivos. Ele e os outros são, cada um, seres descontínuos.

Mas enquanto o erotismo dos corpos guarda a descontinuidade individual (e para Bataille isso tem o sentido de um egoísmo cínico) o erotismo dos corações é mais livre. Na aparência, diz o pensador, ele se separa da materialidade do erotismo dos corpos, mas dele procede, não passando, com frequência, de um seu aspecto estabilizado pela afeição recíproca dos amantes. Algumas exceções até podem chegar a se desligar do erotismo dos corpos; Bataille mostra como por vezes a paixão dos amantes se prolonga no campo da simpatia moral a fusão dos corpos entre si. <<Mas, para aquele que a sente, a paixão pode ter um sentido mais violento que o desejo dos corpos. Nunca devemos esquecer que, apesar das promessas de felicidade que a acompanham, ela introduz inicialmente a confusão e a desordem. A paixão venturosa acarreta uma desordem tão violenta que a felicidade em questão, antes de ser uma felicidade cujo gozo é possível, é tão grande que é comparável ao seu oposto, o sofrimento. Sua essência é a substituição de uma descontinuidade persistente por uma continuidade maravilhosa entre dois seres. Mas essa continuidade é sobretudo sensível na angústia, na medida em que ela é inacessível, na medida em que ela é busca na impotência e na agitação. Uma felicidade tranqüila, onde o sentimento de segurança predomina, só tem sentido se encontrar a calma para o longo sofrimento que a precedeu. Pois há para os amantes mais chance de não poder se reencontrar longamente do que gozar de uma contemplação alucinada da continuidade que os une. As chances de sofrer são tão grandes que só o sofrimento revela a inteira significação do ser amado. A posse do ser amado não significa a morte; ao contrário, a sua busca implica a morte>>. O que está em jogo nessa fúria, continua, <<é o sentimento de uma continuidade possível percebida no ser amado. Ao amante parece que só o ser amado — isto tem por causa correspondências difíceis de definir, acrescentando à possibilidade de união sensual a união dos corações — pode neste mundo realizar o que nossos limites não permitem, a plena fusão de dois seres, a continuidade de dois seres descontínuos>>.

A humanidade, enfrentando tal incongruência, se esforçou desde a antiguidade para alcançar uma continuidade libertadora diante do problema da mortalidade, problema esse que é o princípio da descontinuidade na continuidade do ser; <<O erotismo abre para a morte. A morte abre para a negação da duração individual>>. Assim, exemplificando os sacrifícios, Bataille chega ao erotismo sagrado – ou ao erotismo divino – cujo objeto se situa para além do real imediato; <<o sagrado é justamente a continuidade do ser revelada àqueles que fixam sua atenção, num rito solene, na morte de um ser descontínuo>>.

O que Bataille conclui com tudo isso?

Enquanto é animal erótico, o homem é para si mesmo um problema.

O erotismo é em nós a parte problemática.

O especialista nunca está à altura do erotismo.

Entre todos os problemas, o erotismo é o mais misterioso, o mais geral, o mais à distância.

Para aquele que não pode se esquivar, para aquele cuja vida se abre à exuberância, o erotismo é por excelência o problema pessoal.

É ao mesmo tempo, por excelência, o problema universal.

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Categoria: Filosofia Contemporânea, Poéticas do Corpo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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