Vulto

Em ser sou,
Em vir a ser me faço vulto“.

Foi isto que escrevi em minha mais neoplatônica época;
E agora mesmo estava a lembrar disto.

Calha que hoje sou estranha ao meu passado,
Pois sei que d’alguma maneira eu era sim um vulto,
Sendo porém um vulto em letargia.

Que são dos homens sem mestres?

Tardei para repousar nos ombros de um sábio,
O que levou-me a desgastar e adoecer minh’alma miserável
Porque eu não era capaz de ver o Caminho donde partem os bons,
E
 também pela calada dos nossos nupérrimos genitores
Que por sofrença e incultura nunca tornar-se-ão pais.

Sonata em Mim Menor, Op. 1

Quase que Andante

<lento>
     <quase>
        Frase. Curta. Bruma. Quase.
        Quase que uma frase. Som.
        Soa a frase. Soa Quase.
            <pausa>
            </pausa>
        Mais Frase. Menos bruma. Mais quase.
        Quase que bruma, quase que frase.
        Soa a frase ou sou a bruma?
            <pausa>
            </pausa>
        Quase que é frase. Não é bruma; nem quase.
        Frase, bruma, bruma que é frase.
        Soa a frase, soa a bruma, sou quase.
            <pausa>
            </pausa>
    </quase>
</lento>
<andante>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quando?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, o sol ia baixo
        pedindo do horizonte o fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometia ao
        de leve a noite fria da abóboda estrelada que
        aos poucos se convidava. Não havia motivo;
        tampouco se percebia como. O que aconteceu quase
        que podia ser escrito. Tudo estava presente —
        exceto o poeta que já partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, a brisa, fresca,
        não convidava. Quando havia motivo, a pergunta
        estava ausente. O poeta, enquanto não respondia,
        pedia do horizonte o fogoso abraço que lhe faltava.
        O sol, as nuvens, a noite fria. Tarde percebia que
        era tarde para a pergunta: quando?
    </impacientemente enamorado>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quanto?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde no fim do outono, o sol ia baixo
        pedindo o horizonte no fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometida ao
        de leve à noite fria da abóboda estrelada,
        aos poucos se convidava. Não havia motivo;
        tampouco se percebia como. Quase que aconteceu
        o que podia ser escrito. Tudo estava presente —
        exceto o poeta que partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde, naquele fim do outono, o sol, baixo
        pedia o horizonte no fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa fresca, prometida, perguntava
        de leve, aos poucos, à noite fria que entretanto
        na abóboda estrelada não respondia. Não havia quando;
        tampouco se percebia quanto. Quase que aconteceu
        entre o tanto que podia ser escrito. Tudo era pergunta —
        exceto o que o poeta havia perguntado.
    </impacientemente enamorado>
    <quase que enamorado quase que impaciente>
        Quando? Quando, quando, quando? Naquela tarde...
        O Outono pedia o horizonte prometido. 
        A pergunta ficava: o poeta partira? 
        
        Entretanto, a noite  fria, estrelada, pedia,
        sem motivo, por um sol fogoso que aos poucos lhe fugia. 
        Quanto mais se percebia a pergunta, mais o abraço
        se escapava entre o tanto que não era perguntado. 
        Poeta, lhe dizia, deixa escrito, coroa com nuvens tantas 
        quantas as leves promessas suspiradas pela brisa.
        O sol, lá em baixo, presente em tudo quanto
        se percebia, quase que numa frase em bruma 
        se fazia. A noite reclamava, perguntava tanto 
        quanto respondia, e na abóboda estrelada não 
        encontrava motivo que justificasse. Leve, como
        a brisa, fogoso como o horizonte, o outono, 
        naquela tarde, chegava ao fim.
        
        Quanto à pergunta, tanto o poeta quanto 
        a noite não respondiam, tampouco percebiam
        a pergunta. Não havia motivo nem como; era a pergunta, 
        a frase, a bruma. E uma a uma, entretanto, entre o quando
        e o tanto quanto era perguntado, o poeta, a noite, a brisa, 
        o frio sem motivo, o abraço fogoso, tudo estava presente, 
        exceto o frio, a noite, a brisa, o poeta e a pergunta. 
        
        Quanto mais as nuvens os cercavam naquela fria tarde
        de outono, o sol, ao de leve, percebia como tudo
        podia ser escrito. Bruma, bruma, impaciente 
        lhe perguntava, seria possível estar presente
        quando o poeta o abraçasse?
        
        Numa frase curta, enquanto o sol ia pedindo,
        o poeta respondia à pergunta num som que era
        quase quase tudo. Fim do outono, a brisa prometida
        não correspondia nem soprava. O horizonte da noite fria
        não percebia, tampouco respondia e a brisa, 
        ao de leve, num abraço que só as nuvens compreendiam,
        percebia que o presente estava escrito 
        e que noite já partira. 
        
        Quando? Quando era a pergunta que ficava.
        Quando? Quando não respondia ao quanto era perguntado. 
        Quando, era a pergunta. Quanto, quanto fora perguntado. 
        
        Quando?
        Quando?
        Quando?
        
        Quase...
        Quase que soa...
        Quase que soa a frase...
    </quase que enamorado quase que impaciente>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? Entretanto,
        quando perguntava quando, entre o quando
        e o tanto quanto perguntava, quando não
        respondia ao quanto era perguntado. Quando?
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde de fim de outono, o sol ia baixo
        pedindo do horizonte o fogoso abraço que as
        nuvens coroavam. A brisa, fresca, prometia 
        a noite fria que aos poucos se convidava. 
        Não, não havia motivo; tampouco se percebia
        o que acontecia. Quase que podia ser escrito. 
        Quase que presente. O poeta que já partira.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        Naquela tarde, fim de outono, a brisa não convidava.
        Quando havia motivo, a pergunta estava ausente. 
        O poeta não respondia. O horizonte era o abraço 
        que lhe faltava. A noite fria tarde percebia que
        era tarde para a pergunta que fazia.
    </impacientemente enamorado>
    <impaciente>
        Quando? Quando era a pergunta que ficava
        enquanto perguntava: quando? E não respondia. 
    </impaciente>
    <enamorado>
        Naquela tarde era o fim. O outono pedia o fogoso
        abraço a brisa, fresca, prometia. À noite, a abóboda
        estrelada não tinha motivo. Quase, quase que aconteceu
        ficar escrito. O poeta estava finalmente presente. 
        A noite havia terminado.
    </enamorado>
    <impacientemente enamorado>
        O sol ia baixo. A noite era fria.
        Quase que bruma. Quase que frase. 
        Quando?
        Quase.
            <pausa>
        
            </pausa>
        Quase.
            <pausa>
        
            </pausa>
        Quase.
    </impacientemente enamorado>
</andante>

O peso das estrelas

Fomos os primeiros
A medir o peso das estrelas
E o ruidoso brilho dos astros.

Fomos os primeiros,
As primeiras pequenas partes
De partes e partes iguais.

Fomos os primeiros
A nomear ao nosso redor;
Nada de magia, nada de surpresas.

Só matéria, só abismo
Dos primeiros seres realmente
Viventes para a morte.

Fomos os primeiros;
Os primeiros guardiões da ciência,
Os primeiros cartógrafos da Nova Era
Anunciando o mapa do Apocalipse.


À Henrique Capeleiro Maia

Shechorah

Possuída pelo corpo da coluna
Resplandece a dama negra
pois no excesso da luz ela deixa
seu ser branco escurecer na pura claridade

Sereia
Lava-me em profundas águas
pois sou forte e quero arrastar-me
no dilúvio das fontes primordiais caóticas
e que unidade não esvanece na feminilidade ?

Dama negra
que por um erro
é de nome hebreu
Quero tua negra claridade

Tempo Perdido

Ofereço ouro ao malogrado
e de mim ele pediu o tempo
Mas nem a eternidade pagou a conta
e de inconfidência roubou-me o espírito.

O tempo não para, o tempo não passa
o tempo é o interno que apenas dura
Achava que de alquimia salvaria a alma
mas profano eu era com ouros de puta

Quem não conhece o vampiro
imagina a passagem acontecendo no espaço
Que perder tempo
é esperar em fila
Porém quando  o tesouro é roubado
Branda aos Ceús por justiça.

Ruído

Tão próximo mas tão distante
Eis como agora se enuncia o filosofar

Se anuncia a mim o seu murmúrio
As suas letras
Ecoando como um Logos ruidoso

Tempos de juventude e filosofia?!
Já foram meus e se foram; embora

Já não necessito de ti
Abandonei-me ao silêncio

Já não necessito de ti
Mas ainda à flor da pele
“Eu te sinto”

– Sinto – como-se minha inclinação primeira
Ter-se-sido ao amor do pensamento –

– Então – Sinto – penso –

<Eu penso, eu existo>
Mas já não como antes

Já não necessito de ti
Já não necessito de mim
<Sinto saudade do meu próprio corpo>

Já sei o quão és bela,
Já sei o quão és feia.

Já sei que és
Uma grotesca sabedoria
Repleta de distrações

Já eu não sou quase nada
Não tenho escolhas;

Já não tenho tempo
De ouvir o Ruído do dia

É hora d’a filosofia ouvir

É hora d’a filosofia ouvir
É momento d’o filósofo sentir
E não mais ser o Sr. sentado no gabinete.

Não há mais espaço
Para que o filósofo seja senhor de si,
Agora há muitas outras forças;

Como a d’o senhorzinho que cozinha alface,
D’a virtude de quem larga o cigarro,
D’a determinação de um santo.

É tempo d’o filósofo calar
De uma vez por todas
O ruído da História.

Estou

Vivendo na angústia dos que foram alienados
No mundo onde todo conhecimento é ferramenta
E toda filosofia tem um pouco de corpo e poder
.

Andando sobre as estradas sem sal e sem mar
De quem percorre o caminho pelo soldo dos donos
Que compraram suas terras mercando o testamento de Adão

Não encontrei um homem sequer que nascesse livre
Sem precisar sugar o peito da mãe ou a semente do pai
Não encontrei um homem sequer velho ou sábio demais
Sem precisar dos livros e da arte escolar

Mas onde vi luzes enxerguei as disciplinas
Onde avistei critérios desencontrei os fundamentos
E permaneci

Existindo na angústia de quem existe
E jamais poderá saber o que quer
E jamais saberá o que se é

Vivendo da angústia
E andando sobre as águas
Engolida pela boca dos peixes

Sonhos

Precisamos nos envergonhar dos nossos sonhos,
Eles nos destroem quando despertam
E põem à massa a nossa vergonha.

Sem o sono, linguagem alguma é Lei,
Sem o medo, o homem é como uma Libra,
Sendo, em seu íntimo, uma vontade cega.

Não podemos dar ouvidos às nossas suspeitas;
No fim, no início, à dormência dos nossos sonhos,
Fomos feitos das narrativas que nos contaram.

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