…na primavera há a noite escura

Entre as cores da mata e o preto-cinzento
Pintei a história da minha Presença
Esperando sempre o azul-anil

Mas neste lugar eu nunca estive
A esperar a primavera,
Nem o laranja nem o amarelo,
Pois as cores do outono me eram mais vivas

Porém de súbito a certa altura,
Percebi que ainda em março a chuva caía
E também os pássaros estavam silenciosos.
Ouvi então que quase tudo é possível
E mesmo na primavera
Pode haver a noite escura

Logo as flores laranjas passaram a ser
Tão vivas e vívidas quanto as folhas secas no chão,
Pois nem a primavera é o que parece

Enquanto estavam a dormir todos,
Assassinos e amantes – todos –,
Eu ouvia o som do silêncio
Expectando nascer o sol
Amanhã
Para justos e para injustos.

Sonhos

Às vezes eu não sei com o que sonhar;
O mundo já é simbólico demais para ser verdade;
E quando eu me perco em suas sombras,
Elas parecem um Sonho da criação de Deus.

Porém como mulher eu deveria ter meus próprios sonhos
Já que nem sempre consigo pensar na Verdade
E nem é sempre que vejo perfeição nos grãos de areia.

Se homens como nós continuam sem sonhos,
Quando não pensam nem se calam,
Se perdem no pesadelo do mundo
Que nos persegue
Dois passos atrás do pensamento.

Basta olhar os carros na rua,
As avenidas sujas,
E as notícias dos televisores,
Que vemos o pesadelo.

É isto então sonhar o mundo
Com olhos comuns,
Vendo porém a verdade
Sem a Face do autêntico Sonho.

Quando a filosofia morrer

Minha filosofia morrerá
não como morrem os homens
mas como morrem os bichos.

O bom filósofo

O bom filósofo passa a vida filosofando
Para aprender
A se desgarrar da filosofia.

Ciclo

Antes de estar a viver,
Estou eu
A gestar minha própria vida.

Autopistis

Estendida no fim da Travessia
Está a maior cruz do agora
Travestida de grande credo.
É a cruz da fé,
Mas da fé que se sonha,
Da fé que se imagina como fábulas
Dos grandes egos dos filhos de homens.
Nós somos as vicissitudes destes homens!
Somos nós quem roubamos as endoxas dos antigos,
Somos nós quem sequestramos a Tradição,
Subjugando-a à luz do perspectivismo.
Por consequência crescemos distantes da Videira
E vivemos a maior noite escura da cruz:
A Travessia cega contra a autopistis.

Universo:

Palavras.

Todo; universo. Todo universo e todo isto. Isto todo o universo: universo todo e todo nisto.
Nisto todo, todo o universo, todo o universo é isto. Isto; universo; palavras todo.
Todo palavras o universo todo, todo o universo palavras e em todas as palavras universos.
Todas palavras; todas universos; são universos palavras que no universo das palavras são todo o universo.
Sendo universo o universo todo, todo universo palavras, todas as palavras o universo todo.
Todo o universo isto, isto palavras todo, todo universo nas palavras disto: universo todo todo nisto.

Reflexo

O esboço desenhado nas entranhas;
O amor, representado como as feridas impressas na alma;
A perda, como o caminho; o mundo, que se torna o rastro
Do amado, manifestação do próprio Deus.

Olhos fechados

Sinto os fatos em minha cabeça
Correndo no papel com tinta preta

Sinto a chuva que cai na noite
Mas sinto medo de fechar a janela
Por onde o orvalho entra

Pois sinto ainda mais
Que já demais fechei os olhos
Para mais e mais fenômenos vividos

Eu não aceitei as manhãs de chuva
Não aceitei o passar das noites
Não aceitei dias dos quais vivi

Hoje minhas principais lembranças
São turvas como a neblina;
Eu estava sozinha

De olhos tão cerrados
Que o único espaço
Entreaberto da minha alma
Era por onde as lágrimas se despiam

Não sei qual a cor do meu passado
Pois se de algo me recordo
É do tempo acinzentado

E da cidade frívola
Onde não havia sequer
Um coração aberto
Para narrar a mim presente
Minha própria história esquecida

Os sofistas e Sócrates

Os sofistas enchiam a boca para falar de suas próprias ciências,
Sem no entanto efetivamente acreditarem na verdade.
E que fazia Sócrates?
Professava a sua ignorância
Porque sumamente acreditava na verdade.
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