Como ser um filósofo genial sem se esforçar muito

| 18/07/2017 | 2 Comentários

As minhas interpretações das interpretações de Heráclito me levaram a uma divagação que quero expor aqui. Ela tem um certo tom de revolta, mas isso se deve à sensação de improdutividade que o tempo despendido me esforçando para compreender os fragmentos heraclíticos gerava. Entretanto, não se apeguem a isso. Meus sentimentos do momento em que escrevi podem ser ignorados se nos atentarmos ao fato de que estava no ônibus, com fome e uma vontade enorme de dormir.

Pois bem. Quer ser um gênio? Estude muito. Quer parecer um gênio? Faça um texto ambíguo. Não qualquer texto ambíguo. Precisa possuir uma técnica específica de ambiguidade. Não é uma técnica difícil. É bastante intuitiva na verdade. Eu a seguia aos 13 anos quando tinha um blog de Filosofia. Não possuía, contudo, a intenção de parecer um gênio. Eu só sabia que, seguindo essa técnica, as pessoas me achavam genial.

Eis a técnica. Primeiro, escreva frases aleatórias cheias de conceitos ambíguos. Esses conceitos têm que seguir um padrão específico, aparecendo sempre perto de outros conceitos ambíguos ou relacionados sempre a certas imagens ambíguas que você descreverá sem muitos detalhes. Não é necessário que nada do que você diga queira significar alguma coisa de fato, mas se você tem alguma ideia muito vaga que pensou um dia enquanto encostava a cabeça na janela do ônibus, a utilize. Tem que ser abstrato, mas não muito. A sensibilidade estética aqui é essencial.

Tomemos um exemplo: O todo é um uno indiscutível. Inventei agora essa frase. Nem sei o que significa. Mas poderia relacioná-la a outra como O universo é calado, mas grita ao uno que se expanda. Poderia utilizar outros conceitos como “Deus”, “infinito”, “amor”, “devir”, “morte”. Também são bem-vindos estrangeirismos e neologismos aqui. Só não abuse. Importante é que os conceitos sejam utilizados de maneira estranha e pouco clara. Aliás, essa segunda frase também escrevi sem intenção de querer dizer alguma coisa. Só quis relacionar à anterior. É importante essa relação de uma frase com outra, mesmo que essa relação seja construída dessa forma tão superficial e súbita. Afinal, queremos aqui parecer geniais, e não necessariamente sermos geniais mesmo.

Um intérprete relacionaria o “todo” ao “universo”, e o “indiscutível” ao “calado” e à “grita”. O “uno” se repete nas duas frases. Poderia ser, então, visto como um elemento relevante, já que fiz questão de fixá-lo. Essa interpretação que relaciona um conceito ao outro criaria uma espécie de ressonância conceitual, como se um conceito ressoasse ao outro, como se os termos estivessem presos por um elo invisível que o autor estabeleceu intencionalmente.

Diante disso, ainda poderíamos nos questionar: O que seria a expansão do uno? E o grito do universo? Por que escolher “se expanda” em vez de “seja expandido”? Essas questões todas poderiam ser resolvidas por um intérprete se baseando em análise etimológica dos conceitos. Não se preocupe. Se estiver sem saída, o intérprete recorrerá a isso mesmo que não hajam quaisquer evidências de que o autor possuía um conhecimento significativo de etimologia.

Além disso, o fato da frase ser contida geraria uma impressão de densidade. É como se, ao escrever, eu tivesse a intenção de enfiar um monte de significados em poucos termos – que, supostamente, escolhi com extremo cuidado. Importante é que o intérprete intua a existência de um processo de densificação de significados. Tudo isso pode fazê-lo gerar um sistema de ideias gigantesco para mim, como se eu de fato tivesse a intenção de comunicar tudo aquilo que ele interpretou de duas linhas que escrevi. Aliás, escrever pouco e despreocupado é o que eu quis dizer com “sem se esforçar muito”.

Um intérprete indeciso sobre as várias interpretações possíveis de um mesmo texto pode ter uma “generosidade hermenêutica”, que é meio que conviver com as múltiplas e inúmeras interpretações do mesmo texto. Isso tornará o autor ainda mais genial, já que esse viés interpretativo implica que quem escreveu teve a intenção (quiçá, em seu trecho ambíguo de 5 ou 6 palavras) de expressar todos os significados imagináveis descritos (ou será “prescritos”?) pelos intérpretes.

Meu fragmento, para o intérprete filólogo e hermeneuta, pareceria uma obscura vastidão de um idioma próprio e original. Para mim, pareceria nada. Na linguagem embusteira do pseudo-gênio, os conceitos são vazios como uma caverna. Ao adentrar e perguntar se há alguém, muitos ecos retornam aos nossos ouvidos. Na caverna do embusteiro, o intérprete fala consigo mesmo. Como ele descreve isso? “A filosofia desse autor é composta de múltiplas vozes!”.

Inclusive, é ótimo utilizar metáforas e imagens. Agora, por exemplo, utilizei a imagem da caverna para expressar algo. Um embusteiro, que não é nada genial, deve falar tão pouco quanto conseguir. Se falar muito, o intérprete perceberá o embuste. É necessário um certo mistério em torno do autor que é conseguido graças a sua capacidade de falar pouca besteira. Então, se for utilizar a imagem da caverna, deveria dizer Oh, caverna! A pedra de meu sinal. O eco universal. A cessação do gritar em minh’alma.

Isso significa alguma coisa? Também não. Mas eu fiz uma rima dessa vez. Essas características da forma do texto são interessantes de serem abordadas, já que podem ser interpretadas de mil maneiras diferentes. A rima, ela mesma, pode ser vista como uma tentativa de expressar proporção e medida. Mas proporção e medida do quê? Eis um mistério que um intérprete resolverá. Além disso, repare que rimei “al” com “al”. Ao pronunciar “al”, você abre a boca e depois fecha. Et voilà! Eis o “grito” e o “calado” abordados anteriormente vindo à tona aqui. Eu pensei nisso tudo no momento em que escrevi? Não. E nem é bom que pense. O papel de pensador aqui cabe ao intérprete.

Se os intérpretes ainda tiverem que traduzir o texto para a língua deles e considerar uma distância histórica de, digamos, 5 mil anos em relação a mim, então minha genialidade parecerá reluzir mais que o Sol. Mal saberiam os intérpretes que eles – e não os pseudo-gênios preguiçosos – é que são geniais. Como um agricultor, transformam esterco em matéria fértil para a criação das mais maravilhosas delícias!

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Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos

Elan Marinho

Sobre o(a) Autor(a) ()

Faço Filosofia na PUC-Rio (2016). Além de escrever para o FiloVida, também sou colaborador no site Universo Racionalista.

Comentários (2)

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  1. Rogério disse:

    Lia teu texto e refletia sobre alguns textos de religiosos que vejo aí na internet. O contexto é outro, mas o princípio é o mesmo. é possível ser um palestrante de sucesso apenas firmando-se nessa tua “teoria”. guardei para ler de novo o texto.

    • Elan Marinho Elan Marinho disse:

      De fato, essa técnica é facilmente encontrada em discursos religiosos. Isso sempre me incomodou muito, mesmo quando eu era religioso. Hoje, vejo o mesmo tipo de técnica sendo utilizada na área de Filosofia. Minha postura é meio ambígua quanto a isso desde que ingressei na academia. Digo, é interessante se esforçar pra tentar entender esses textos pretensamente sublimes, às vezes rende bons frutos. Meu ponto é que a genialidade extraída do texto pode se dever mais ao intérprete do que ao autor original. Às vezes as pessoas até sabem disso, mas não importa muito porque na prática elas vão dizer que “o filósofo tal falou tal coisa” quando estiverem se referindo ao texto de um intérprete sobre o filósofo tal.

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