A alma tirânica e os sonhos

“La Pesadilla” de Johann Heinrich Füssli

Dizia o velho Platão que no sonho, mesmo entre os homens mais virtuosos, a razão adormece; e enquanto dorme, desperta a irascibilidade.

O mesmo pensamento (ou ao menos o cerne dele) permanece ao longo dos séculos, continuadamente vivo entre os mais versados homens modernos sobre os sonhos, a maioria deles mencionados por Freud em sua revisão da literatura de 1900. Jessen (1855, 533) garantia que nos sonhos não nos tornamos melhores nem mais virtuosos – “pelo contrário, dizia, a consciência parece ficar silenciosa”[1]. Radestock (1879, 164), por sua vez, quando falava dos sonhos, discorria sobre o reino do fraco julgamento e da indiferença ética suprema[2]. Volkelt (1875, 23) garantia o mesmo: “O próprio indivíduo que sonha fica inteiramente despudorado e destituído de qualquer sentimento ou julgamento moral; além disso, vê todos os demais, inclusive aqueles por quem nutre o mais profundo respeito, entregues a atos com os quais ficaria horrorizado em associá-los quando acordado, até mesmo em seus pensamentos”[3].

No pensamento de Platão, contudo, há ainda uma esperança para a razoabilidade, por mais remota que esta seja. Pois bem, antes de dormir, deve o justo acalmar as partes inferiores de sua alma e quiçá assim livrar-se-á ele das excitações sensoriais internas dos órgãos dos sentidos. Sobre isso Haffner (1887, 251) consente com o antigo filósofo: “com raras exceções” – e acrescento, com trabalho árduo – “o homem virtuoso é virtuoso também em seus sonhos; resiste às tentações e se mantém afastado do ódio, da inveja, da cólera e de todos os outros vícios. Mas o pecador, em geral, encontra em seus sonhos as mesmas imagens que tinha ante seus olhos quando acordado”[4]. Nesse sentido, Hildebrandt (1875, 51 e segs) relembra as incontestáveis palavras de Cristo: “do coração procedem os maus pensamentos” (Mateus 15, 19). Que quer ele remeter com isso? Que, ora, mesmo um pecado cometido num sonho traz em si pelo menos um mínimo de referência ao estado de vigília[5], aos impulsos “que, sob a forma de tentações, atravessam nossa mente durante o dia”[6]. É por isso que São Cassiano o Romano adverte: “O sinal de que você adquiriu a virtude com perfeição é que a alma já não se volta para nenhuma imagem vergonhosa durante o sonho. Pois, ainda que este movimento não seja visto como um pecado, ele é considerado um sinal de que a alma ainda está enferma e não se libertou das paixões. Eis porque devemos crer que as representações vergonhosas que nos sobrevêm durante o sonho são provas de nossa negligência passada e de nossa enfermidade: a doença oculta nas profundezas da alma se manifesta num corrimento favorecido pelo sonho”[7].

O homem desordenado porém não tem autodomínio para “acalmar as partes inferiores de sua alma”, nem antes de dormir nem para a completa vigília. Platão pois diz que o a alma tirânica é aquela que acordada, é como em sonho: de consciência silenciosa, se nos utilizássemos das palavras de Jessen; de fraco julgamento e indiferença ética suprema, nos termos de Radestock; e inteiramente despudorada e destituída de qualquer sentimento ou julgamento moral, seguindo o pensamento de Volket. Quanto à linguagem platônica, o homem tirânico é arrastado à loucura, a qual assume o comando de sua alma, purgando os desejos não-necessários da mesma. Assim, torna-se ele isento de temperança[8] – em sua alma não mais há ordenamento entre desejo e lógos. Eis que o tirano jamais conhecerá a verdadeira liberdade: ele é escravo de si mesmo e de seus, permita-nos dizer, sonhos descomedidos.

 


[1] FREUD, 1900, p. 101.

[2] Opt. cit.

[3] Opt. cit, p. 101.

[4] Opt. cit, p. 102.

[5] Opt. cit, p. 104-105.

[6] Opt. cit, p. 105.

[7] Carta de Santo Cassiano o Romano ao Bispo Castor – Sobre os oito pensamentos de malícia [6,10] e [6,11].

[8] Temperança, em sentido platônico, significa “ordem e domínio de certos prazeres e desejos”.

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Categoria: Filosofia Antiga

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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