Não há vida intelectual sem oração

Não há vida intelectual sem oração, ainda que em certo grau possa haver a erudição nos ímpios. Isso porque, como expressa São Máximo, a oração – e somente ela – separa o intelecto dos pensamentos, apresentando então a verdade integralmente desnuda. Para compreender a necessidade desse desnudamento, é preciso ter em mente duas coisas: a primeira, a qual está em Hesíquio de Batos, é que os pensamentos não são mais do que simples imagens das coisas sensíveis e mundanas, reduzindo pois a verdade a certas formas inteligíveis, onde as proposições expressam formalmente os fenômenos, mas nunca os captam integralmente. Dessa forma, o intelecto estagnaria no pensamento mas nunca do domínio do ser. A segunda coisa, a qual deriva dessa, é que não encontrando o ser, os pensamentos tendem a se dissociar uns dos outros e logo a se transmutar em ídolos conceituais. Disto porém não se segue que devemos depreciar o pensamento; ao contrário, o pensamento, como o degrau de uma escada maior, tem como fim nos conduzir ao nous, uma vez que o silêncio noético nunca é um silêncio inconsciente. Plotino, por exemplo, procurando esse silêncio, encontrou o papel da razão; disse ele que primeiro é preciso aprender a raciocinar, para depois aprender a silenciar a mente; como se o raciocínio fosse um exercício que prepara a intuição e a intuição, a deificação. Sendo Dionísio o Místico herdeiro do neoplatonismo, e São Máximo herdeiro de Dionísio, Máximo segue o mesmo passo, afirmando que o conhecer nos revela os mistérios que estão na raiz das coisas dando-nos assim o impulso necessário para superá-lo e colocarmos-nos no ser quando se toma consciência de que o ser é superior ao conhecer. E em qual condição chega o homem ao ser? Conforme citei, na condição de que se desobstrua a alma de todo raciocínio, de todo conceito, o que é fruto senão da vida orante à medida que a oração separa o intelecto dos pensamentos, e o abre ao que é.

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Categoria: Cristianismo, Filosofia, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval, Misticismo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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