As paixões e o desejo na filosofia grega

Em seu texto Os Gregos e o Desejo do Ser: Dos Préplatônicos a Aristóteles (Les Grecs et Le Désir de L’Être: Des préplatoniciens à Aristote), Jean Frére mostra o quão parcial e unilateral é limitar a filosofia grega aos seus aspectos racionais. Aliás, as influências da arte dionisíaca e dos heróis homéricos são testemunhas do quão os eruditos gregos estão longe de desprezar as forças (dynámeis) afetivas da alma humana. Estes, mui antes de nós, apontaram que o coração, as inclinações e os desejos não são necessariamente elementos de ordem tirânica, e que o prazer não se limita à carne. Pois se por um lado a razão é fundamental para nos aproximarmos do Verdadeiro e do Justo, por outro, quando estamos distantes da Verdade, é o desejo que a ela nos reconduz, assim como quando estamos diante da tentação do mal, o desejo pode nos levar à Justiça. Desse modo a ação e o conhecimento do Verdadeiro não existem sem prazer (hedoné), pois a alma não é só o noûs e o lógos: quando esta busca desvelar a Verdade e agir conforme a Justiça, ela se liga a um “ser afetado” (páskhein) ou a uma afecção (páthos). E esta afecção não se trata de um movimento desmedido ou vicioso; é antes o esforço de conquista do Bem.

Para Homero, se o homem é noûs, ele é também diafragma, ânimo, coração, alma, mente, afecção[1]. Ao lado da inteligência que calcula, o homem é “coração”, coração que sente e se emociona, coração que se deixa levar (pela boa como pela má causa), coração que pressente e que adivinha (face às profecias, aos sinais, à verdade). Coração direito, coração sensível, coração atormentado – coração terrível: a poesia homérica faz pensar que a ação e o pensamento humano são fundamentalmente guiados pelo ímpeto, o que pode ser tão bom quanto detestável. [2]

Esta aspecto afetivo da poesia homérica é elaborado paulatinamente entre os pré-socráticos. Para Empédocles, em especial, o saber não se constitui apenas pela razão: “O coração, nutrido nos mares de sangue que flui e reflui, é a sede principal do que nomeamos pensamento. Pois, o sangue circulando nos homens na região do coração, é isso o pensamento” (Fragmento B105). Explica Aristóteles: “Para Empédocles, mudar nosso estado físico, é mudar nosso pensamento” (1009b17-18).

E é Platão quem se aprofunda ainda mais na estrutura da psyché humana, considerando-a a partir de uma tripartição: noûs, thymós (paixão) e epithymía (apetite). Cada uma destas “partes” são importantes, porque mesmo a alma desperta para a verdade, é uma alma modelada pela matéria, e portanto a razão humana nunca é uma razão pura, seguindo-se que a energia contra a impureza é tão essencial quanto a racionalidade.

Adiante, também Aristóteles elabora uma psicologia da afetividade, e um novo conceito se torna proeminente:

É o conceito de órexis, de desejo, na sua relação com o thymós (paixão), com a epithymía (apetite), com o boúlesis (desejo, vontade) e com a proaíresis (escolha) (…) [Ele] parece mostrar o quanto os desejos, sentimentos de prazer e de dor que se misturam, são essenciais na abordagem das soluções para as questões fundamentais da moral e da metafísica. Além disso, o desejo enquanto movimento se inscreve como um dos aspectos essenciais que explicitam as noções metafísicas de potência e ato. Filosofia lógica, a filosofia de Aristóteles se abre na direção do dinamismo que leva o ser vivo a se realizar e que conduz o homem, com o prazer e a dor que se relacionam, na direção do verdadeiro e do justo. Uma vez mais na filosofia grega a razão se alia a algo diferente da própria razão. Uma vez mais, as inclinações e as afetividades da alma parecem ser tão fundamentais quanto a razão, para o homem, na realização de sua própria natureza. Filosofia do vigor tanto quanto do rigor, este parece ser o pensamento de Aristóteles.[3]

O que leva Frère a concluir que os poderes afetivos da alma (phrén-thymós-epithymía-éros-órexis) são essenciais para os gregos na conquista do justo e do verdadeiro: “A alma não é, para eles, uma simples oposição entre a razão admirada e as faculdades não lógicas”, “Os desejos não foram para estes pensadores desejos vãos, que nos afastam da sabedoria e do Ser”. Aliás, tal como há prazeres puros, os desejos nos impulsionam e reconduzem ao Verdadeiro.

[1] Phrén (phrénes), thýmos, étor, cardía, psukhé, prapídes.

[2] CF: FRÉRE, Jean. Les Grecs et Le Désir de L’Être: Des préplatoniciens à Aristote. Paris: Belles Lettres, 1981. Tradução de Louise Walmsley. Disponível em: https://www.ufpe.br/ppgfilosofia/images/pdf/traduction%20-%20jean%20frere%20-%20les%20grecs%20et%20le%20dsir%20de%20ltre%20complet.pdf.

[3] Opt. Cit.

Categoria: Filosofia Antiga

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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