Qual a relação entre a crise da Metafísica e a vida?

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900)

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900)

O fio condutor para relacionar a crise da Metafísica com a vida está na narrativa do Crepúsculo dos Ídolos, segundo a qual não é preciso dispor de forças reativas para teorizar em favor do declínio do suprassensível – para isso, de forma genealógica, basta narrar a própria história da Metafísica.

Pois bem, segundo Nietzsche, ela começa com Platão. Platão – quem costumava distinguir a verdade da aparência, sendo o aparente o sensível, os moventes, enfim, o devir. Assim ele fundamentou sua doutrina pretendendo a existência de dois mundos: o kósmos aisthetós (mundo sensível) e o kósmos noetós (mundo inteligível). Sua teoria entretanto é inaveriguável, o que torna inútil empenhar forças para prová-la ou refutá-la. A função da filosofia platônica é outra, quer dizer, não é de ser verdadeira nem de ser averiguável; é de transformar existencialmente. Sendo assim, o que interessa a Nietzsche é localizar onde o ser humano se situa nessa distinção – e onde seria? Ora, num mundo onde verdade e vir-a-ser se excluem, o vivente só poderia se encontrar numa caverna constituída de sombras, estando ele acorrentado pelo mundo sensível. Assim, preso, escravo, sem poder, sua mente cria ídolos transpostos em ideias eternas, idênticas, unitárias, senão porque o homem platônico não suportaria a profusão caótica dos fenômenos, e a imponderabilidade de seu próprio existir.

Desse modo, a Metafísica é conduzida ao seu segundo estágio: o platonismo para o povo – o Cristianismo. Sim, para o povo, porque nele, para alcançar a verdade, não mais é preciso desenvolver sua atividade racional; é preciso apenas ter fé. Uma fé que aliás nunca se realiza, nunca se plenifica no mundo, ainda que o homem leve uma vida virtuosa – o mundo verdadeiro permanece sempre afastado. Eis que, se no platonismo a verdade esteve distante pela distinção sensível-inteligível, no Cristianismo, ela é inalcançável pela oposição entre o Céu e a Terra. Com isso Nietzsche conclui que o cristão é também um homem fraco, cansado de buscar sentido na própria existência terrena, transitória, e, desesperado, cria para si uma promessa irrealizável: uma outra existência imortal, a qual, como expressão vital, lhe interessa muito mais do que a verdade.

Kant porém, chegando ao terceiro estágio da Metafísica, parece se preocupar um pouco mais com os fatos, embora tenha ele, no final da vida, dado um passo atrás. Quer dizer, Kant começa a se preocupar com aquilo que não preocupava a Platão ou ao Cristianismo: o fato de que não há como averiguar as “verdades” suprassensíveis. Eis que, pautando-se em Newton, um cientista, o filósofo concebe o mundo moldado num espaço e num tempo, e uma vez que o ser humano faz parte deste mundo, seu raciocínio subjaz à limitação do tempo e do espaço. Por conseguinte, do ponto de vista da razão teórica, só é possível conhecer os objetos da experiência, de modo que efetivamente não se pode afirmar nem negar se o transcendente existe ou não. Todavia, pela razão prática – pela vida – é possível acessar o transcendental. O problema disso é que a metafísica é autoreconhecida como uma necessidade da vida humana, ou melhor, uma necessidade de determinado tipo de vivente: o homem fraco, que precisa de ídolos – de falsos absolutos – para regular sua conduta moral no mundo.

Daí inevitavelmente, sendo levada pelo mundo moderno, a metafísica passa pelo seu quarto estágio: o Positivismo. E, se por um lado os positivistas defendem que o mundo se resume à totalidade dos fatos que homem consegue pôr diante de si experimentalmente, não aceitando portanto essa distinção entre razão prática e teórica ou qualquer mediação entre a transcendência e a teoria, por outro, eles ainda empenham suas forças, suas energias vitais, em referir-se ao suprassensível ainda que em termos de negação – há pois uma dependência forte do mundo sensível para poder negá-lo. Isso é o que Nietzsche chama de força reativa – e sugere que falta ao positivismo deixar de negar a metafísica, e passar a ignorá-la por completo.

Neste ignorar, neste movimento contrário a qualquer menção à metafísica – mesmo que para refutá-la –, surge o último estágio desta história, o qual não importa a distinção entre verdade e falsidade: o que importa agora é qual o efeito vital que uma ideia dá à existência de quem a possui, e portanto, que as ideias precisam ser úteis – não mais negando o mundo, entretanto, afirmando-o enquanto se afirma o vivente – o homem.

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Categoria: Existência, Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia Social e Política, Metafísica e Ontologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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