Qual a relação entre Lógica e Metafísica em Carnap e Heidegger?

| 19/03/2017

carnapA relação inaugural entre Lógica e Metafísica está no poema de Parmênides, o qual sugere uma profunda identidade entre ser e pensar. Uma vez que a repercussão à sua premissa – seja a partir da aceitação seja da oposição – é tão vasta na História da Filosofia, um dos caminhos para a superação da Metafísica – como pretendeu Carnap – ou para a recondução do metafísico ao ontológico – como propôs Heidegger – está em compreender essa relação.

De acordo com o pretensioso Carnap, ela residiria na ambiguidade do termo “ser”. Logicamente, “ser” pode significar tanto um predicado (“Eu sou x”) quanto um verbo indicador de existência (“Eu sou”). Na forma verbal, contudo, tem-se a ilusão de haver ali um predicado quando não há predicado algum – pois a existência não é uma propriedade. Dessa forma, os metafísicos parecem ter sido maus lógicos. Uma falha lógica exemplar está no “eu penso, eu sou” de Descartes: o “Eu sou” cartesiano foi entendido no sentido de existência, entretanto, essa proposição vai de encontro à regra lógica segundo a qual a existência só pode ser afirmada em ligação com um predicado; o segundo erro, diz Carnap, reside na passagem de “eu penso” para “eu existo” – a existência só pode ser afirmada em relação ao predicado P, não em relação ao sujeito da premissa – de “Eu penso”, não se segue “Eu existo”, mas “Existe algo pensante”. Assim as sentenças metafísicas não passariam de pseudoproposições.

Heidegger, contudo, segue outra via. Em sua concepção, a lógica não pode ser uma simples ferramenta de análise, pois o logos é aquilo que reside no <<ser>> da linguagem. Sendo assim, a verdade do pensamento não está em determinado processo mental-cognitivo (o qual resultaria num psicologismo), mas está no domínio do sentido, ainda que durante séculos e séculos, sobretudo a partir da Escolástica, a questão não tenha sido entendida assim. Para Heidegger aliás, esse teria sido o problema: a metafísica escolar teria deslocado o logos do sentido à proposição, isto é, aos enunciados formais, resguardando-o ao discurso, e, por conseguinte, promovendo uma interpretação de essência como substância, cujo caráter ulterior seria a permanência constante. O problema disso é que o caráter imutável da substância veio a separar o ser (compreendido como verdade) do vir a ser (compreendido como falsidade), o que, logicamente, incidiu na ruptura entre essência (ser) e existência (fenômeno). É por isso que foi necessário a Heidegger reconhecer a insuficiência ontológica da interpretação metafísica da lógica, posto que, segundo ele, o sentido do logos não está enraizado numa substância estática distante nem tampouco no enunciado. Ao contrário, a explicação é secundária ao compreender, e portanto a lógica do lógos está enraizada na analítica existencial do fenômeno pelo deixar ver o ente, o mundo, o ser-aí, o homem. Quer dizer, a operação fundamental do lógos reside em tornar visível, tornar manifesto aquilo de que é falado nele. Assim, em vez da metafísica, Heidegger passa a exortar a ontologia, a qual é sempre onto-lógica, fazendo ver o ser do ente conduzido pelo lógos.

Categoria: Filosofia Contemporânea, Lógica, Metafísica e Ontologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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