Por que e como Carnap defende que a análise lógica da linguagem permite a superação da metafísica?

Rudolf Carnap (1891 — 1970)

Rudolf Carnap (1891 — 1970)

Segundo Carnap, a análise lógica da linguagem – e somente ela – permite uma superação da metafísica enquanto conhecimento à medida que faz ver que as supostas proposições metafísicas são completamente sem-sentido.

À primeira vista, ainda que as sequências de palavras das filosofias de valores pareçam proposições com significado, na análise lógica, elas se revelam como pseudoproposições; ora seus conceitos não têm determinação alguma (ou seja nominam sem nada significar), ora são combinados de maneira contrária à sintaxe de tal forma que não produzem sentido.

Por exemplo, em seu uso metafísico, a palavra “Deus” nomeia algo supraempírico. Mas o quê? Não se trata nem de um ser corporal nem de um ser espiritual encarnado. No fim, não se trata de nada entitativo ou significativo, pois se determinasse algo, sua proposição teria a forma “x é um Deus”. Entretanto, não se pode dizer que nenhum “x” (nada) é um Deus.

O mesmo, segundo Carnap, aconteceria com termos como: “a idéia”, “o absoluto”, “o incondicionado”, “o infinito”, “o ser do ente”, “o não-ser”, “a coisa em si”, “o espírito absoluto”, “o espírito objetivo”, “a essência”, “o ser em si”, “o ser em si e para si”, “a emanação”, “a manifestação”, “o eu”, “o não-eu” etc – nenhuma dessas palavras têm significado, apesar de toda a metafísica se passar como se tivessem.

Sendo assim, as pseudoproposições da metafísica não servem para a representação dos estados de coisas existentes nem inexistentes, e se servem para algo, não é para o conhecimento, mas para expressar um sentimento vital, e apenas isto.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia Contemporânea, Lógica

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Carnap, como Schlick, defende o princípio da verificabilidade: proposições significativas são ou analíticas ou sintéticas; as primeiras são tautologias que nada dizem sobre o mundo e são verdadeiras sob quaisquer condições empíricas; as segundas dependem descrevem um estado de coisas, e podem ser verdadeiras ou falsas. O princípio da verificabilidade diz justamente que o significado de uma proposição é seu método de verificação; em termos mais simples, se uma proposição tem significado, é possível imaginar as circunstâncias empíricas que a tornam verdadeira ou falsa; se não for possível considerar logicamente as experiências empíricas que fazem de uma proposição verdadeira ou falsa (seu método de verificação), então essa proposição é sem sentido – ou então é analítica.

    Por isso, proposições que falam em Deus, coisa-em-si e Absoluto não diriam coisa alguma, o que é um ataque profundo à metafísica tradicional, pois os metafísicos acreditavam poder falar sobre o mundo, mesmo sem recurso à experiência. Analogamente, Carnap afirma que problemas filosóficos como o da existência do mundo externo teriam não uma resposta positiva ou negativa, mas seriam desprovidos de significado, nesses termos, e portanto constituiriam pseudoproblemas.

    Ver o artigo de Carnap: “Pseudoproblems in Philosophy” (1928).

    Ao longo da vida, ele mudou bastante de opinião, e atenuou o princípio da verificabilidade.

    O fato de o princípio da verificabilidade estar ligado à distinção analítico-sintético fez o ataque de Quine, em “Dois dogmas do empirismo”, ainda mais penetrante, pois Quine criticou a distinção, solapando a ideia de verificação de enunciados individuais, e paralelamente apresentou uma alternativa pela imagem da “teia de crença”: os enunciados estão em conjunto conectados à experiência, não individualmente, e mudanças em uns acarretam mudança em outros à luz da experiência; não há enunciado imune à revisão, diz Quine.

    Vale notar que Carnap, como outros membros do Círculo de Viena, era um cientista e fez contribuições significativas em lógica matemática – separadamente de seus trabalhos filosóficos.

    Bom que trouxe esse assunto à toa aqui. 🙂

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