Como pensar com conceitos

palavra-conceito-problema-teoriaAntes de educar-se em Filosofia, é necessário aprender a trabalhar com a mesma a partir de seus problemas, sendo um dos primeiros, a análise de conceitos. Isso porque as palavras, em seu uso comum, quase sempre estão aquém dos conceitos dos filósofos, ou antes carregam uma série de usos possíveis, mas nunca uma concepção ou ideia intrínseca. É por isto que, filosoficamente, diz John Wilson em sua obra Pensar com conceitos, de nada adianta procurar no dicionário o significado de cada palavra; as palavras não têm só um significado; aliás, elas só significam à medida em que as pessoas as usam de vários modos[1]. O que interessa então é compreender como cada filósofo, ou cada sentença filosófica, responde a um problema, servindo-se do sentido efetivo das palavras em seu encadeamento conceitual.

Vejam que diversas vezes educandos relacionam conceitos de dois filósofos que não têm relação alguma, que embora façam uso de uma mesma palavra, significam conceitos diferentes, ao passo que procuram resolver problemas diferentes. Existência, por exemplo, é uma palavra que significa uma série de noções. Se um filósofo x compreende que a sentença “A existe” pode traduzir-se simplesmente por “A tem uma referência no mundo físico”, e “A não existe” não tem qualquer sentido, ele está diante de um problema lógico, e nesse sentido, não pode ser relacionado com um filósofo y que utiliza o termo Existência para i.g. fazer uma analítica existencial do homem. A resposta de um filósofo depende da pergunta que ele busca responder. É por isso que Heidegger não pode ser honestamente refutado com Frege, pois eles procuravam resolver problemas diferentes. O mesmo vale para outros pensadores e outras áreas, em especial a Filosofia Política. Um grande desafio nessa disciplina é ter a habilidade de proferir uma crítica honesta a uma teoria conflitante com aquela que se acredita ser a mais razoável, sem deslocar o centro da estrutura do conceito criticado. Por exemplo, é desonesto criticar a liberdade marxiana a partir do conceito de liberdade de um libertário. Se esta necessita ser criticada, deve ser a partir de sua própria aplicação filosófica.

Retornando à obra em questão, o autor diz que quando lidamos com perguntas sobre conceitos, “somos ‘convidados’ a tomar consciência do significado das nossas palavras, o que é muito mais complexo que, por exemplo, aprender uma matéria que lida com fatos concretos e significações científicas gerais, como a física”[2]. Ora, a mecânica faz uso de palavras como “triângulo”, “linha reta”, “ponto”, “força” e “massa”, significando uma noção científica geral. Isso porque a mecânica é uma ciência razoavelmente precisa. Já a tomada de consciência filosófica pede uma análise perspicaz e em certo sentido particular de conceitos. É preciso apenas ter cuidado – conforme adverte Wilson – para não cair numa curiosa compulsão em conceituar propriamente tudo. Algumas palavras (como mesa, lápis, etc) devem resguardar seus conteúdos práticos, caso contrário, a linguagem, por servir aos empregos humanos, poderá perder todo o seu sentido – eis que é essencial um senso de proporção e comunicação[3].

Na comunicação, a propósito, devemos aprender a isolar perguntas sobre conceitos:

Só raramente encontraremos uma pergunta sobre conceitos apresentada em forma pura. É possível, mas improvável, que alguém nos faça uma pergunta como “Qual é a natureza lógica do conceito de punição?”. Quase sempre o que encontramos são perguntas mais confusas e complexas, como, por exemplo: “Devem-se punir as pessoas internadas em hospitais psiquiátricos?” (…) Para responder plenamente à pergunta, é necessário: (i) analisar o conceito de punição; (ii) ter algum conhecimento concreto do tipo de pessoa que realmente está internada nesses hospitais; e (iii) expressar algum tipo de opinião moral sobre se tais pessoas devem ou não receber punição. Em outras palavras, esta é uma pergunta mista, que envolve não só a análise conceitual, mas também considerações sobre fatos e sobre juízos de valor.[4]

O fato, conforme comenta Sérgio Biagi Gregório, “é algo que se observa; pode-se quantificar. Por exemplo, o metal funde-se a x graus centígrados. Temos que ir esquentando o metal e, paralelamente, anotando os valores obtidos, a fim de chegarmos ao grau de ebulição do mesmo. O valor é um juízo que fazemos acerca de um fato, no sentido de gostar ou não gostar, de achar bom ou ruim. O conceito é algo mais complexo. Temos que colocar em palavras o que concebemos com a mente”[5].

Observem que para as questões respondidas com base em julgamentos morais, não há respostas certas, todavia, há como respondê-las com maior propriedade conceitual; para isso podemos usar a seguinte forma geral:

PERGUNTA: Será que x (um conceito X) é y (um valor moral)?
RESPOSTA: Se com x (a mesma palavra X) você quer dizer abc, não, x não é y porque def. Mas se com x (a mesma palavra X) você quer dizer ghi, então sim, porque jkl.

Um dos exemplos que Wilson usa para esta forma geral[6] é o seguinte:

PERGUNTA: A democracia é um método satisfatório de governo?
RESPOSTA: Se você quiser atrelar a palavra “democracia” a este conjunto de critérios (entre os quais, digamos, insistir em equilibrar o orçamento do país pelo voto popular, em vez de pela decisão de especialistas reconhecidos, para que o país seja considerado democrático), então, nesse sentido de “democracia”, a democracia não é muito satisfatória como método de governar, porque favorece a instabilidade. Mas se, para que o país seja considerado democrático, você exigir que os governantes sejam eleitos só algumas vezes, de tempos em tempos, pelo voto popular, então sim, o método de governo me parecerá bastante satisfatório.

Neste caso, o que o autor fez foi (1) isolar de outras considerações as perguntas sobre conceitos e (2) tratar delas em primeiro lugar. Porque, segundo ele, considerações relacionadas aos fatos e à moral não podem absolutamente ser aplicadas com pertinência enquanto não tivermos estabelecidos a que elas se aplicam[7].

E por se aplicarem a algo, é importante ponderar os resultados práticos de determinadas afirmações. Há perguntas que não têm qualquer resultado prático ou provável, e por isso são inúteis de serem feitas. Um exemplo disso é considerar se tudo o quanto há no mundo é ilusão ou sonho. A resposta para essa questão, seja qual for, não terá efeito algum na prática. Diz ele: “Imaginemos que respondêssemos que tudo é ilusão; que a vida é sonho. E daí? Em que esta resposta afetaria nosso comportamento? Que diferença real provocaria nos nossos atos? Claro que a resposta nem afetaria nem faria qualquer diferença, o que sugere que a pergunta (embora possa ter algum objetivo ou sentido) não expressa muito claramente a dúvida ou a preocupação subjacentes que há na mente de quem perguntou. Em outras palavras, houve alguma falha grave na linguagem em que a pergunta foi formulada, uma vez que se sabe que a resposta sempre implica alguma diferença prática em toda e qualquer pergunta verdadeira ou útil. Portanto – dado que os conceitos de ilusão e sonho só fazem sentido em contraste com os conceitos opostos de realidade ou de vida de olhos abertos –, vê-se neste exemplo que não se sabe qual o significado (se é que há aí algum significado) que pode estar associado à frase “tudo é sonho” ou “tudo é ilusão”[8].

É por isso que devemos deixar de confundir fatos com valores. Ainda fazendo uso do exemplo anterior, podemos julgar que temos uma visão ilusória ou utópica com relação ao mundo, ou que ele não é como deveria ser, mas isso é diferente de dizer que os fatos ou que tudo o quanto existe no mundo é ilusão. Do mesmo modo podemos julgar que é injusto (um valor) que algumas pessoas tenham muito mais riquezas que outras, mas seria desonesto dizermos que é roubo (um fato) que elas as tenha. Conforme comenta Wilson, “é facílimo inserir inconscientemente uma implicação de valor num enunciado [conceitual]. E, embora os juízos de valor, se forem necessários, sejam perfeitamente aceitáveis, é preciso que saibamos claramente o ponto exato em que os introduzimos no enunciado”[9]. Honestamente, não podemos falar só porque queremos “proteger” nossa opinião, ou nossos pontos de vistas, porque isso é “trapaça”. E, para essa trapaça, muitas vezes ampliamos os sentidos das nossas palavras, até que elas percam completamente seu fundamento ou sua utilidade[10].

Outros casos são a crença em objetos abstratos e o pensamento mágico. O primeiro faz parte de “uma tentação universal de tratar as palavras como coisas, em vez de encará-las simplesmente como signos ou símbolos convencionais”[11]. Já o segundo consiste em pensar de modo infantil, “como se acreditássemos mais em mágica do que nas coisas que observamos ou aprendemos pela razão. A crença em objetos abstratos é só um exemplo desse tipo de erro, mas há outros. Por exemplo, na sentença ‘a gravidade fez a pedra cair’, o perigo não está só na possibilidade de acreditarmos numa coisa ou força abstrata chamada ‘gravidade’; o perigo está também na possibilidade de levarmos muito a sério a palavra ‘fez’. A pedra não foi forçada a cair. Ela simplesmente caiu, como acontece com pedras e outros objetos que estejam próximos de um corpo que contenha enorme quantidade de matérias. Quando dizemos que os objetos ‘obedecem’ às ‘leis’ da natureza, estamos falando de um processo mágico: falamos como se a natureza e os objetos naturais fossem pessoas, ou como os objetos virassem homenzinhos que têm vontade própria. Essa tendência à magia, profundamente arraigada no nosso pensamento, causou problemas intermináveis, nos primórdios da ciência”[12].

Por fim, junto com os sofismas, estas armadilhas conceituais fazem dos aprendizes da filosofia homens dominados e fascinados pelas palavras, que, no lugar de usarem a linguagem, são usados por ela.


NOTAS

[1] WILSON. 1982. Pensar com conceitos. I, 1. P. 10.

[2] Opt. cit. P. 14-15.

[3][Opt. cit. 2 A [3]. P. 14-15.

[4] Opt. cit. 2 B [1]. P. 22-23.

[5] GREGÓRIO. 2003. Pensar com conceitos.
Disponível em: <<http://sbgfilosofia.blogspot.com.br/2005/10/pensar-com-conceitos.html>>

[6] WILSON, 1982. Pensar com conceitos. I, 2 B [2]. P. 24-25.

[7] Opt. cit.

[8] Opt. cit. B [10]. P. 34.

[9] Opt. cit. C [2]. P. 40.

[10] Opt. cit. C [5]. P. 42.

[11] Opt. cit. C [1]. P. 39-40.

[12] Opt. cit. C [6]. P. 43-44.


PRINCIPAIS REFERÊNCIAS

TEXTUAL – WILSON, John. 1928. Pensar com conceitos / John Wilson; tradução Waldéia Barcellos. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2005. (Ferramentas). Títulos Original: Thinking with concepts. Análise conceitual: Filosofia.

ORAL – FANTON, Marcos. 2017. A partir de anotações pessoais da Aula 2 do professor Marcos Fanton / Filosofia e formação social e humana (Disciplina). UFPE (Universidade Federal de Pernambuco): 10 de março de 2017.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia da Linguagem, Filosofia Social e Política, Política

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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