Guerra à filosofia do talvez

doidoNietzsche é elogiado por uma multidão de jovens e homens imaturos; não porque ele é um filósofo verdadeiro, mas porque é um poeta sedutor. Ele seduz os corações enfermos; os corações que se encontram diante do Abismo, sendo este abismo um dos maiores ídolos que o homem imaginou após a queda. O abismo sim é um falso absoluto — falso à medida que não nos deixa encarar virtuosamente a morte, e absoluto à medida que nos faz preferir a tudo o quanto está mais próximo de nós, ou seja, o que se pode compreender com o corpo e os sentidos; mas ainda mais, falso e absoluto à medida que nos faz apontar todos os sábios como enfermos. Enfermos — reconhecidamente enfermos (mas pelos corações enfermos… corações incapazes de reconhecer uma cura)… <<Sócrates não é o médico — a morte é o único médico. Sócrates apenas esteve doente muito tempo>>. Porém a isto dão ouvidos senão os homens doentes, adoecendo-se ainda mais, e seduzindo-se por aforismas baratos; sim, baratos, todavia, entusiasmantes. A distração, o que embriaga, entusiasma o homem angustiado. Escutem; <<O que precisa ser demonstrado para ser crido, não vale grande coisa!>>; <<Desconfio de todas as pessoas com sistemas e as evito. A vontade de sistema constitui uma falta de lealdade!>> — como isto é sedutor! E até capaz de nos fazer esquecer tudo o quanto existia antes das garras do racionalismo… Eis que de repente — e não mais que de repente — todo o Cristianismo se reduz aos confins escolásticos, cartesianos e dali à frente; e os jovens, infelizes diante do mundo, seduzem-se com o novo ídolo: a Modernidade; a filosofia do talvez. Agora o Santo não mais é capaz de agir, ele ignora sua existência, pois agora o cristão vive sentado, sem poder de se movimentar ou de sentir, porque ele permanece aguardando um porvir que nunca chega. Acaso os cristãos deixaram de ter pernas? Acaso os cristãos deixaram de se reconhecer como seres corpóreos? Acaso desconhecem a guerra e o martírio? Se sim ou se não, a contemporaneidade não o sabe, pois sua força ativa foi mumificada pelo erotismo reativo. A sedução e o medo mumificaram a Nietzsche, contudo, Nietzsche mumificou o século XIX e os milhares de jovens que hoje movem-se sem porém chegar a lugar nenhum.

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Categoria: Artes e Letras, Literatura e Cinema

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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