A liberdade dos antigos comparada à dos modernos

Benjamin Constant (1767 — 1830)

Benjamin Constant (1767 — 1830)

Em seu discurso Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos, Benjamin Constant se propõe a distinguir duas formas de liberdade, qual seja, a da Antiguidade e da Modernidade, sendo a primeira sumamente entendida como liberdade política, e a segunda, como liberdade individual.

A liberdade dos antigos, diz ele, “…consistia em exercer coletiva, mas diretamente, várias partes da soberania inteira, em deliberar na praça pública sobre a guerra e a paz, em concluir com os estrangeiros tratados de aliança, em votar as leis, em pronunciar julgamentos, em examinar as contas, os atos, a gestão dos magistrados; em fazê-los comparecer diante de todo um povo, em acusá-los de delitos, em condená-los ou em absolvê-los; mas, ao mesmo tempo que consistia nisso o que os antigos chamavam liberdade, eles admitiam, como compatível com ela, a submissão completa do indivíduo à autoridade do todo. Não encontrareis entre eles quase nenhum dos privilégios que vemos fazer parte da liberdade entre os modernos. Todas as ações privadas estão sujeitas a severa vigilância. Nada é concedido à independência individual, nem mesmo no que se refere à religião. A faculdade de escolher seu culto, faculdade que consideramos como um de nossos mais preciosos direitos, teria parecido um crime e um sacrilégio para os antigos. Nas coisas que nos parecem mais insignificantes, a autoridade do corpo social interpunha-se e restringia a vontade dos indivíduos. Em Esparta, Terpandro não pode acrescentar uma corda à sua lira sem ofender os Ëforos. Mesmo nas relações domésticas a autoridade intervinha. O jovem lacedemônio não pode livremente visitar sua jovem esposa. Em Roma, os censores vigiam até no interior das famílias. As leis regulamentavam os costumes e, como tudo dependia dos costumes, não havia nada que as leis não regulamentassem”.

Quanto à dos modernos, Constant propõe ao leitor de seu tempo perguntar a um inglês, francês ou norte-americano o que ele entende pela palavra liberdade, e eis o que se responderá: “[É] o direito de não se submeter senão às leis, de não podar ser preso, nem detido, nem condenado, nem maltratado de nenhuma maneira, pelo efeito da vontade arbitrária de um ou de vários indivíduos. É para cada um o direito de dizer sua opinião, de escolher seu trabalho e de exercê-lo; de dispor de sua propriedade, até de abusar dela; de ir e vir, sem necessitar de permissão e sem ter que prestar conta de seus motivos ou de seus passos. É para cada um o direito de reunir-se a outros indivíduos, seja para discutir sobre seus interesses, seja para professar o culto que ele e seus associados preferirem, seja simplesmente para preencher seus dias e suas horas de maneira mais condizente com suas inclinações, com suas fantasias. Enfim, o direito, para cada um, de influir sobre a administração do governo, seja pela nomeação de todos ou de certos funcionários, seja por representações, petições, reivindicações, às quais a autoridade é mais ou menos obrigada a levar em consideração. ”.

Quer dizer, se entre os antigos o indivíduo era serviente em seus assuntos privados mas soberano nas questões públicas, entre os modernos, ao contrário, o indivíduo independente na vida privada se encontra “interrompido” pelo corpo coletivo, estando sua liberdade senão no exercício pacífico da independência privada.

Isso porque na Antiguidade a cidadania era efetiva, e não como na Modernidade, uma suposição abstrata. A vontade de cada um tinha uma influência real, por isso eles se dispunham a fazer enormes sacríficos no âmbito político e social. Porque havia liberdade, eles podiam suportar as privações. Todavia, entre os modernos, diz Constant, onde há privação, é preciso da escravidão para que alguém se resigne a ela. O indivíduo agora se encontra perdido na multidão, sem consciência de qual a sua real cooperação comunitária, por isso aqui e acolá eles aplaudem as instituições republicanas e a liberdade individual, sendo esta a verdadeira liberdade moderna.

Sim, verdadeira liberdade, porque Constant não pensa que, porque os antigos foram livres e porque nós não podemos mais ser livres como eles, estamos destinados à escravidão. A civilização moderna pode (e deve) constituir um novo estágio social, com alguns pontos até mui favoráveis, a exemplo do despotismo, que antes era possível e hoje já não é mais; bem como efeitos muito mais amplos do comércio. Os benefícios são distintos, bem como os perigos.

E por último, que escutemos suas próprias palavras:

O perigo da liberdade antiga estava em que, atentos unicamente à necessidade de garantir a participação no poder social, os homens não se preocupassem com os direitos e garantias individuais. O perigo da liberdade moderna está em que, absorvidos pelo gozo da independência privada e na busca de interesses particulares, renunciemos demasiado facilmente a nosso direito de participar do poder político.

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Categoria: Ética e Cidadania, Filosofia, Filosofia Moderna, Filosofia Social e Política

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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