Semelhanças e diferenças entre Marx e Hegel

Com finalidade de demonstrar as semelhanças e diferenças entre Karl Marx e G. W. F. Hegel, devemos, antes de tudo, principiar que muitas de suas discordâncias estão imersas em suas convergências, pois Marx retira muito do pensamento de Hegel, sem, porém, se limitar a este, razão pela qual o primeiro “revoluciona” o sentido da obra do segundo. Exemplo disso é o fato de que no idealismo hegeliano a dialética é o princípio motor da filosofia, enquanto Marx, a partir dessa leitura, se utiliza da dialética para desenvolver metodologicamente seu materialismo filosófico.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831)

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831)

Vejam que para a concepção hegeliana a Ideia põe o mundo em movimento. Nesse sentido, a Ideia não só é o agente transformador como também o agente criador da realidade. A Ideia é a efetivação do Espírito Absoluto, Espírito este que precede a realidade material. Marx, de modo contrário, pensa as forças produtivas como fio condutor de toda a realidade e história humana, sendo o dado primeiro o mundo material, onde sua contradição não ocorre na Ideia, mas sim nos meios de produção respectivos ao momento histórico que vêm a condicionar o homem.

Eis que o autor do Manifest der Kommunistischen Partei observa que Hegel descreveu bem o homem, mas de cabeça para baixo, por isso o trabalho marxiano será no sentido de colocar esse homem de pé a partir das outras fontes filosóficas e econômicas que ele bebeu. Bebeu por exemplo do materialismo filosófico de Feuerbach, o qual lhe fez marchar para o imanente e para a ‘‘desmitologização’’ do Estado e da Teologia. Bebeu ainda da perspectiva econômica de David Ricardo, o qual lhe influenciou quanto ao conceito de mais-valia, que seria utilizado na observância de que o predomínio das relações de produção capitalista, donde surge a luta de classes, faz nascer o Estado, para que este sirva como um mecanismo de poder para a institucionalização da propriedade e dos meios de produção de modo que aquilo que o trabalhador produz lhe seria alienado, restando-lhe somente um valor não condizente e muito inferior ao que lhe é devido pela produção dos bens da vida – da mais-valia surge o lucro do capitalista. Em vista disso, o ápice, a realização, a manifestação, ou melhor, a expressão da dialética marxiana será a luta de classes.

Karl Marx (1818 — 1883)

Karl Marx (1818 — 1883)

Mas o que é o homem em Marx? Segundo ele, em primeiro lugar, o ser humano precisa ser pensado como corpo biológico, pois é por meio do corpo que lhe surgem necessidades básicas como comer, beber, abrigar-se e vestir-se. Entretanto, é através do trabalho que o ser humano desenvolve técnicas para suprir as necessidades supracitadas, e mais, através do trabalho ele cria outras necessidades que vêm a transformar a “natureza humana”, de modo tal que mesmo com todas as necessidades básicas supridas, o homem continuará sempre a trabalhar e a desenvolver técnicas de trabalho, sendo esta força de produção o fio condutor da História. Contudo, em Hegel, a História vai além de qualquer correspondência laboral, ou mesmo de qualquer relação particular. Aliás, a História lhe aparece como o desdobramento do Espírito no tempo, do mesmo modo que a Natureza é o desdobramento da Ideia no espaço. Assim sendo, segundo o filósofo alemão, a história do mundo se desenvolve segundo um “plano racional” na medida que “tudo o que é efetivo, é racional; [e] tudo o que é racional, é efetivo” (Cf. Filosofia do Direito) e esse movimento, o movimento histórico, por ser racional, obedece necessariamente uma lógica, mais propriamente uma lógica que coincide com a ontologia, ou seja, uma lógica que não é puro organum (puro instrumento ou método no sentido da lógica formal), mas uma lógica que é a própria estrutura, ou, melhor ainda, que é auto-estrutura, desdobrando-se “triadicamente três vezes”.

Vejam, se para Hegel a história do mundo se desenvolve numa tríade de tese, antítese e síntese (de modo que por exemplo, a guerra é o momento da “antítese” que move a história, a qual, sem “momentos negativos”, não haveria mudança), a tríade da Lógica é o Ser, a Essência e o Conceito, a qual se desdobra em três outras tríades. A tríade do Ser é da qualidade, quantidade e medida; a da Essência é da essência, aparência e realidade; e a do Conceito é da subjetividade, objetividade e ideia. Já Marx, embora se utilizando também do movimento triádico, julga que não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas ao contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Observem por exemplo A ideologia alemã, onde podemos ler:

A produção das ideias, das representações, da consciência, em primeiro lugar, está diretamente entrelaçada à atividade material e às relações materiais dos homens, linguagem da vida real. As representações e os pensamentos, bem como o intercâmbio espiritual dos homens, ainda aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material. E, do mesmo modo, isso vale para a produção espiritual, como ela se manifesta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, etc., de um povo.

manuscritosAssim, no movimento triádico marxiano a tese não poderá ser outra coisa, senão tudo o quanto diz respeito aos meios de produção operados em dado momento histórico. Nesse sentido, em sua dialética, as “leis dialéticas”, ainda em movimento triádico, movem-se da quantidade à qualidade, de modo que a síntese pode se tornar tese, a qual surgirá uma nova antítese, e assim por diante – o que acarreta num contínuo movimento, tal como sugere o vir-a-ser da tradição de Heráclito. Isso implica que caso haja um acúmulo quantitativo i.g. em determinado meio de produção, poderá haver um “salto” qualitativo na vida humana, de modo que, com o passar do tempo, pequenas acumulações de bens desenvolverão mudanças na direção da história, no sentido de que a quantidade se torna evolutiva, e a qualidade, revolucionária. Sendo que revolucionário se relaciona com a capacidade humana de modificar drasticamente as condições materiais em que o homem está inserido, em um movimento contínuo espiral, como foi apresentado na síntese que se torna tese e assim por diante. Nesse sentido Marx “inverte” Hegel. Como diz ele próprio em seus Manunscritos econômicos filosóficos:

Meu método dialético, por seu fundamento, difere do método hegeliano, sendo a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento, – que ele transforma em sujeito autônomo sob o nome de ideia, –é o criador do real, e o real é apenas sua manifestação externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ele interpretado.

Phänomenologie des Geistes (Fenomenologia do Espírito)

Phänomenologie des Geistes (Fenomenologia do Espírito)

Contrariamente, o que Hegel fez, conforme introduzimos no parágrafo IV e V, foi lançar as bases para o Positivismo, pois ele compreendeu a História como possuidora de um espírito objetivo, ou seja, jamais se subordinando à ação dos indivíduos. A História hegeliana será onde o Espírito Absoluto se realiza plenamente, ainda em movimento triádico. No autor da Phänomenologie des Geistes, diferentemente de Marx, o Estado será compreendido como “O ingresso de Deus no mundo”, “Um Deus real”, “O ápice da razão humana”, pois diz Hegel: O Estado é a realidade em ato da ideia moral objetiva, o espírito como vontade substancial revelada, clara para si mesma, que se conhece e se pensa, e realiza o que sabe e por que sabe.” (HEGEL, 2009 § 257: 216). Já em Marx o Estado aparecerá a serviço da burguesia, isto é, não sendo mais que um instrumento de organização segundo o qual a classe burguesa se utiliza para manter seus próprios interesses. Ou seja, Marx acredita ser uma ilusão a concepção hegeliana de que o Estado não se constitui por interesses ou instituições particulares. Ao contrário, o pensamento marxiano sugere que as leis estão a serviço de uma vontade particular e arbitrária e o Direito torna-se o instrumento de dominação e reprodução dos valores da classe dominante, em uma leitura instrumentalista. Assim, o Direito é produto do poder econômico, tanto quanto todas as demais formas de superestrutura, a exemplo da cultura, da educação, etc.

Enquanto isso, para Hegel, há um direcionamento diverso quanto ao modo de pensar o Direito. Vejam que em sua obra Introdução à filosofia do Direito o mesmo é pensado a partir da Vontade. A vontade universal é como pensamento puro, ou seja, é o seu primeiro momento, momento este livre de qualquer conteúdo, considerado apenas pela forma do pensamento. De modo diverso, a vontade de um sujeito determinado tem um conteúdo determinado, qual seja, a vontade particular; um “eu” desejante que quer um objeto determinado. Já a vontade individual aparece como síntese da universalidade e da particularidade. Assim Hegel terá como ponto de partida de sua filosofia do Direito não a arbitrariedade entre classes (como sugere Marx), mas antes a mediação entre a sociedade e o Estado, tendo como centro essa vontade livre. A concretização dessa liberdade lhe será a posse, o que em Marx aparecerá justamente o contrário, mesmo que Hegel aponte que a posse em si não tem por si maior garantia, deste modo, o espírito buscará um contrato estatal que lhe garanta a titularidade dessa propriedade, assegurando-a.

No fim de tudo isto, passando pela oposição idealismo-materialismo, compreensão de história, economia, espírito absoluto e infraestrutura e superestrutura, Marx e Hegel metodologicamente terão seus pontos de convergência, enquanto o primeiro inverterá o segundo em seus fundamentos, fazendo com que em suas semelhanças esteja aquilo que lhes diferencia.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Moderna, Filosofia Social e Política

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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