O paradigma da filosofia da consciência

Resumo: O presente ensaio visa argumentar que a justificativa habermasiana do abandono do paradigma da consciência pelo nível de dificuldade de investigação é valida na medida em que se faz do problema intransponível. Quando por sua vez a questão é tratada sob um outro olhar – o qual admite uma investigação mais profunda e expansiva – tal justificativa se mostra fraca e ineficiente do ponto de vista metodológico da investigação da filosofia da consciência.

Introdução

Embora Habermas justifique a filosofia da consciência como um paradigma a ser abandonado como procedimento metodológico e em certo sentido esteja correto em seu argumento contra «determinada» filosofia da consciência, aqui pretende-se demonstrar que seus argumentos não são suficientemente válidos para as investigações da «totalidade» da filosofia da consciência – sendo esta, penso, perfeitamente cabível como ponto de partida metodológico das investigações filosóficas. E não é difícil demonstrar o que digo. Pois se tomamos como característica própria da investigação filosófica resolver como e porque as coisas são como são, responder como e porque achamos coisas belas e feias (estética), ou boas e ruins (ética), ou como e porque nomeamos e comunicamos (linguagem), e enfim, como e porque apreendemos o mundo (epistemologia), não vejo como, quanto à análise do aparato cognitivo, isso poderia ser diferente. Ademais, como e porque achamos as coisas belas ou boas não diz respeito, aqui, ao motivo de acharmos determinadas coisas belas ou boas – a este creio que as investigações socioculturais tenham algo mais a dizer, mas antes, diz respeito a como e porque nós «podemos» achar coisas belas ou boas.

É possível superar o paradigma da filosofia da consciência?

1. Desde a modernidade o problema da consciência ganha um lugar de primazia no que tange aos problemas filosóficos; conceitos dependem de conteúdos mentais i.e a ideia do céu antecede o conceito céu, em suma, a atividade mental antecede todos os outros objetos de investigação visto que dela todos os outros derivam. No entanto, no decorrer destas investigações alguns problemas difíceis de resolução surgem, a saber, o problema da experiência subjetiva que se faz consideravelmente presente na filosofia da mente, qual seja: Uma vez que minha experiência consciente quanto sujeito consciente se torna objeto de estudo, a dicotomia entre sujeito e objeto não me permite completar tal investigação, pois, se objetifico minha experiência consciente de sujeito ela «deixa de ser» minha experiência consciente de sujeito, assim, Habermas só encontra duas saídas pra tal problema: ou conseguimos objetificar nossa experiência consciente e ela deixa de ser tal e assim, fracassamos no objetivo, ou simplesmente não conseguimos objetificar nossa experiência consciente o que por si só já demonstra o fracasso da investigação. Pois bem, dado este grau de dificuldade e obscuridade da filosofia da consciência há uma quebra de paradigma da filosofia da consciência na modernidade para a filosofia da linguagem, agora, no pensamento contemporâneo. Quer dizer, pareceu-nos mais pertinente do ponto de vista metodológico ter o ponto de partida da filosofia através da análise de problemas linguísticos de que da análise da experiência consciente, Habermas argumenta ainda que o caráter individual e singular da experiência consciente a deixa mais ainda obscura frente ao caráter público da linguagem. Assim, no giro linguístico é aceito por parte dos pensadores a primazia dos problemas linguísticos dentro da filosofia frente a todos os outros, sendo estes agora o fio condutor das investigações filosóficas.
2. Entretanto, Habermas ainda nota que urgem alguns problemas oriundos da primazia da linguagem frente a consciência sobretudo no positivismo lógico: A linguagem ganhou um papel tão forte que estão a esquecer de algo importante, a saber, dos falantes. Para isso, Habermas vai pensar que é na teoria da comunicação que nos podemos investigar a ação da razão humana ao elaborar dentro da linguagem formas de comunicar o que há de ser dito. Destarte, a pretensão da filosofia da consciência em suprir os problemas epistêmicos da razão humana tal como a análise da linguagem em suprir os problemas metodológicos da filosofia, seriam resolvidos com a «teoria da ação comunicativa» pois, trata-se de uma analise teórica e epistêmica da racionalidade como sistema operante da sociedade.

3. No entanto, reformulando a relação do sujeito com o objeto mental há de se questionar se é de fato oportuno a quebra da paradigma da filosofia da consciência como ponto de partida pelo grau de dificuldade da mesma. Isto pelo seguinte ponto: a associação entre a possibilidade de representar o mundo e a tese da imaterialidade do pensamento fez com que as teorias limitassem o atributo da intencionalidade a organismos dotados de consciência excluindo de seu escopo as máquinas ou organismos mais primitivos. A ausência de uma teoria da natureza da consciência em termos fisicalistas torna a intencionalidade algo misterioso e obscuro. No entanto, ao não mais excluir o sujeito e seus objetos mentais do mundo, isto é, ao abandonar o dualismo cartesiano, o problema da intencionalidade deixa de ser um problema intransponível para ser um problema «possível» quer dizer, não se trata mais da inacessibilidade da imaterialidade da consciência mas da carência do conhecimento material da mesma. E se, trata-se aqui de saber i.e como é possível para um organismo obter informações do meio ambiente por meio de seus conteúdos mentais, a noção de Habermas da experiência consciente como singular e obscura não parece ter mais tanta sustentabilidade dado que todos os nossos conteúdos mentais ocorrem “no mundo”. Desta maneira, supor a filosofia da consciência como um paradigma a ser abandonado só parece fazer sentido se tomarmos como base o pressuposto dualista de que podemos «ver» o mundo sem dele participar e neste sentido, tornar a experiência consciente objeto de estudo acerca do próprio mundo parece de fato uma tarefa impossível.

4. Por outro lado, temos a Ciência Cognitiva adotando o “funcionalismo” como principal abordagem ao problema mente/corpo, assim, tem-se o mesmo problema colocado de outra maneira tal posição na Filosofia da Mente se caracteriza pela tese de que podemos realizar abstração, no estudo dos processos cognitivos, de uma particular instanciação material dos processos mentais. Estes, teriam suas descrições exclusivamente voltadas para organização funcional da mente, i.e módulos desempenham funções delimitadas por questões de processamento entre o input (entrada) e o output (saída). Desta maneira, o funcionalismo se opõe ao dualismo de substância – o qual Habermas reduz as investigações da filosofia da consciência ao mesmo ao passo em que se distingue também de um behaviorismo reducionista – os estados mentais podem ser instanciados nos mais variados materiais e são descritos nas suas inter-relações funcionais.

4. Na medida em que as ciências cognitivas, juntamente com a filosofia da mente e a filosofia da psicologia, estão efetivamente comprometidas com a construção de uma teoria científica da mente,¹ tal decisão metodológica pode parecer paradoxal para quem considera processos mentais como inerentemente inacessíveis aos métodos, tal como julga Habermas. Mesmo assim, o projeto das ciências cognitivas tem como pressuposto que os métodos empregados e as conclusões obtidas em suas ciências constitutivas não só podem, como de fato lançaram alguma luz sobre problemas debatidos há milênios. A saber, se crê que é possível iluminar cientificamente: (i) o estatuto epistêmico da nossa apreensão dos objetos do mundo, (ii) o estatuto epistêmico da nossa apreensão de nós mesmos (introspecção), (iii) a natureza dos processos e eventos mentais, (iv) as relações destes com o resto do corpo, (v) a aprendizagem de conceitos, heurísticas, regras, e teorias, e (vi) a relação causal entre a mente e o comportamento.

A intencionalidade, o caráter significativo originário de nossos estados mentais, constitui um fenômeno natural resultante de um longo processo evolucionário a que foram submetidos organismos na sua interação com o meio ambiente. A possibilidade de representar o meio ambiente constitui uma função biológica fundamental para a organização do comportamento dos organismos mais complexos. A representação mental surge como um elemento mediador que possibilita a adequação comportamental dos organismos em relação a seu meio ambiente, Retratar a gênese do aparecimento dessa função através de uma possível história evolucionária nos permitirá explicar algumas das características da intencionalidade dos estados mentais, por exemplo sua “direcionalidade”, como resultado de uma herança arcaica que recebemos através de nossa filogênese. (ABRANTES, Paulo. Epistemologia e Cognição.)

Ainda que a linguagem ocupe um lugar privilegiado, onde há uma manifestação da intencionalidade dos estados mentais; o fenômeno da intencionalidade é consideravelmente mais profundo e envolve inclusive e noutros graus organismos mais primitivos que sequer tem habilidades linguísticas. Desta maneira, basta abandonar não o paradigma da filosofia da consciência mas o paradigma da filosofia da consciência cartesiana para que se abra um escopo profundamente vasto de investigações acerca deste fenômeno.

Considerações finais

Mesmo com a possibilidade de expansão da investigação da consciência tomando como ponto de partida sua presença na própria realidade material, considerarei importante tratar da objeção não só de Habermas mas de pensadores antireducionistas como Nagel o qual levantam a questão de que não importa o quanto avance as investigações neurofisiológicas acerca da cognição, nós jamais poderemos produzir conhecimento sobre a experiência consciente dado que (i.) Ao que se sabe, o raciocínio funcionalista não dá conta de demonstrar mecanicamente o processo da intencionalidade e (ii.) Mesmo que desse, não seria o mesmo de demonstrar o conhecimento da própria intencionalidade e por isso, a filosofia da consciência seria um campo obscuro a se partir metodologicamente – Sobre isto, penso que não precisamos produzir conhecimento objetivo da experiência consciente para a conhecer, aliás, esta seria a coisa que nós conheceríamos melhor justamente porque é nossa experiência consciente e na medida em que se avançam os conhecimentos materiais da experiência consciente se avançam os conhecimentos acerca dos mecanismos que possibilitam a experiência consciente e não há problema algum nisto – Na verdade, creio que este seja um ponto em que torne tal investigação ainda mais rica; nós podemos conhecer a experiência da consciência pela própria experiência da consciência e podemos [tentar] descrever a experiência da consciência na Filosofia da Mente pela biologia, computação e ciências cognitivas em geral (etc.,) e se o fato de um conhecimento só conseguir atingir o saber de fato sobre o mecanismo do objeto a ser conhecido for suficiente para desconsiderá-lo quanto conhecimento do objeto nós não podemos conhecer nada em sentido forte; não sabemos o porque do N junto ao A produzir o som de “NA” e não de “BO” mas sabemos o mecanismo que faz com que esses sons se produzam e neste sentido ainda que se argumente que descrevendo os mecanismos da consciência não estamos descrevendo como ela é, nós estamos descrevendo o que faz ela ser como é, assim como toda sorte de conhecimentos produzidos pelas instâncias mais elementares da realidade, com o bônus que nós conhecemos a experiência consciente para além de seus mecanismos porque nós experienciamos a consciência.

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Categoria: Filosofia Contemporânea, Filosofia da Mente

Iana Cavalcanti

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, fascinada por boa parte da produção de conhecimento humano, com ênfase na atividade filosófica em uma gama um tanto quanto variada de assuntos.

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