Os problemas epistemológicos e suas variáveis

É fácil nutrir simpatia pela conclusão da modernidade de que a epistemologia é o ponto de partida das investigações filosóficas (digo isto pensando a filosofia como uma atividade de resolução de problemas) e isso pra mim é relativamente claro de se ver. Desde seus primórdios a tradição filosófica junto a pensadores como Platão ou Tomás de Aquino vem pensando o tema da verdade como verdade por correspondência, isto é, como um tema de assunto do <<entendimento>> humano sob as coisas. Como bem sabemos, as grandes divisões da filosofia parecem ter ocorrido através pressupostos epistemológicos distintos: Empirismo x Inatismo, Racionalismo x Empirismo, Realismo x Anti-Realismo (etc.,). Eu diria que isto acontece porque bases epistemológicas tem a capacidade de afetar todas as outras bases dos conhecimentos humanos, de modo que eles devam ser reformulados em conformidade com as formulações destas. E neste sentido, a verdade (cujo me permitam dizer, é o objetivo principal das investigações intelectuais comprometidas) não é um tema da ontologia já que não se trata aqui de saber a coisa mesma e tão pouco se trata de saber sobre o nosso próprio ato perceptivo, mas do <<conteúdo>> do ato perceptivo sob o objeto. Em outras palavras: Saber a verdade das coisas é saber se o conteúdo da percepção corresponde ao conteúdo do objeto.

É interessante observar a facilidade com que esse raciocínio pode desembocar na noção de que não conhecemos a verdade das coisas, mas apenas a verdade das nossas sensações – parece tentador! É por aí que autores como Baudrillard, por exemplo, vão ser levados a crer que aquilo que é conhecido não seria real se não fosse reconhecido, quer dizer, sequer há uma realidade e sequer há um referente ao conhecimento, restando apenas a interpretação de uma análise singular de cada um de nós, seres perceptivos. Ou ainda como Rorty que mesmo sem negar a existência da realidade (Ufa!) nega a nossa capacidade de apreende-la, restringindo nosso conhecimento novamente as nossas descrições singulares e interpretativas das coisas. Nesse jogo de tudo ou nada onde ou se têm uma base fixa e estável para o conhecimento, um ponto onde o conhecimento se inicia, se baseia e se apoia, ou tudo que há é obscuridade e caos (herança cartesiana, ouvi dizer) alguns intelectuais tentam buscar saídas moderadas pra nossa relação de sujeito e objeto e eu gostaria de falar sobre algumas delas aqui.

1. Eu gostei muito quando descobri a Epistemologia Genética de Piaget onde ele tenta acabar com a dicotomia do conhecimento como ou apriori ou aposteriori: O conhecimento acontece a partir da nossa estrutura cognitiva junto a experiência da estrutura do mundo. Parece óbvio, mas permitam-me demonstrar o raciocínio: Digamos que eu sou uma criança e estou a fundamentar meus primeiros símbolos sobre o que as coisas são, o exemplo do cachorro é o clássico e eu gosto dele. Pois bem, imaginemos que ao me deparar com um cachorro posso captar características bases que fazem ele ser como é (4 patas, pêlos, orelhas, rabo). Daí em diante, ao me deparar com seres que possuem tais características vai ocorrer o processo de <<assimilação>> que ocorre quando modificamos as ideias de objetos externos em conformidade com ideias já existentes internamente – a partir de similaridades em objetos distintos ou não, eu os enquadro no mesmo esquema. Em um segundo momento, na medida em que tanto o meu sistema cognitivo vai amadurecendo quanto as minhas experiências empíricas vão se diversificando e aumentando, ocorre um processo contrário. Imaginem que “vaca” e “cachorro” estão no mesmo esquema, ao me deparar com as diferenças da vaca pro cachorro (como os chifres) vai acontecer a <<acomodação>> que é quando nossos esquemas prévios vão se modificar em prol de objetos externos. E é neste processo de assimilação e acomodação que ocorre a desequilibração e equilibração: Toda vez que eu me deparo com um objeto novo há uma desequilibração referente ao que eu já conhecia e essa desequilibração se equilibra através das ferramentas de acomodação e assimilação. E assim sendo, não há uma ideia singular prévia do que as coisas são em minha mente ao passo em que não há uma ideia singular posterior dos objetos para minha mente, o que há é um movimento mutuo de interações que compõem unidades esquemáticas de características que podem e são sutilmente modificadas conforme o aprendizado nos termos que acabei de citar vai ocorrendo.

2. Em segundo lugar, eu gostei de saber que há enormes paralelos das bases piagetianas na cognição incorporada ou no conexionismo. A primeira consiste numa contraposição da cognição como um processo computacional de símbolos amodais isolados de contextos em um sistema modular, se opondo a noção de que a cognição funciona separadamente de outras partes do cérebro, como os módulos sensoriais e motores. D’outra maneira, a cognição incorporada pensa a contextualização das ações e por consequência a simulação dos sentidos como os pontos chaves pro funcionamento da nossa cognição. Pensem comigo: ao pegar um copo de suco de maracujá e coloca-lo em direção a minha boca e ter a sensação do vidro do copo pelo tato, o cheiro do maracujá pelo olfato, a temperatura do suco, a sensação meio amarga no meu paladar, a experiência de saciedade e o prazer de apreciar o líquido – tudo isso vai ser capturado por intermédio das modalidades neurais e integrado com as representações multimodais fixadas na memória. Desta maneira, da próxima vez em que eu for tomar um suco de maracujá, representações desses modais extraídos durante as experiências anteriores de tomar suco de maracujá vão ser reativados no meu cérebro em uma <<simulação>> das mesmas percepções antes associadas. E se vamos pensar a cognição como ação incorporada, a cognição é uma forma de ação sobre o meio e não há fenômeno cognitivo que independa do corpo ou da ação material do corpo sobre o mundo e isto só é possível por meio de nossas capacidades sensório-motoras. Dito de outra maneira: A estrutura cognitiva emerge através de padrões sensório-motores que se repetem na percepção e nas ações, assim, o organismo e o meio <<moldam>> os padrões de atividades neurais. O conexionismo bem a grosso modo, partilha da ideia de que o que faz com que ao pensar em “cachorro” eu tenha a representação de um cachorro não é uma associação a um neurônio, mas uma distribuição de uma rede de neurônios espalhados por boa parte do meu cérebro. Assim, pensar a distribuição da representação em sinapses da rede no lugar de símbolos completos em neurônios individuais, permite com que relacionemos diferentes representações por similaridades e diferenças entre esses padrões e isto pode ser um tanto quanto esclarecedor para problemas filosóficos a cerca do que podemos entender por “significado”.

3. Em terceiro lugar, eu andei descobrindo no realismo crítico autores muito interessantes. O primeiro foi Hartmann, que preserva do realismo a dicotomia do sujeito com o objeto e observa que o ato de conhecer envolve o encontro com propriedades daquilo que é exterior as minhas propriedades ao mesmo tempo em que ao apreender as propriedades da esfera do objeto, transformo-as na <<minha>> esfera. Assim, o objeto real é sempre objeto real exceto no momento da apreensão do sujeito ao objeto onde ele torna-se intencional. É neste sentido que o Hartmann vai pensar a fenomenologia do conhecimento como uma fenomenologia realista, quero dizer: Existe indiscutivelmente um objeto com propriedades distintas das minhas propriedades de sujeito e conhecer um objeto envolve sempre ir em direção a propriedades distintas destas, mas apreende-las é traze-las pra esfera das minhas propriedades. Pensando agora – e eu não sei se é descabida a associação – faz até sentido pensar os processos de acomodação e assimilação dentro desses termos. Também no realismo crítico o Bachelard tem me dito algumas coisas um tanto quanto interessantes. Esse senhor mantém a noção da verdade como correspondência e pensa que esta correspondência só pode ocorrer através de uma <<verificação>> da qual poder-se-á demonstrar graus de aproximação do conhecimento sob o objeto e neste sentido, verdade e verificação são conceitos intrinsecamente associados, sendo o momento da verificação o momento decisivo para o nosso conhecimento da realidade – tal como Popper já haveria notado. Acontece que o conhecimento por verificação é um conhecimento constantemente inacabado e imperfeito, sendo assim, é um conhecimento constantemente <<aproximado>>. E isto pode ser problemático para aqueles que pretendem pensar a verdade no sentido forte da palavra verdade. Mas bem, eu ainda não consigo saber o que poderíamos fazer quanto a isto…

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Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Mente, Psicologia e Neurociência

Iana Cavalcanti

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, fascinada por boa parte da produção de conhecimento humano, com ênfase na atividade filosófica em uma gama um tanto quanto variada de assuntos.

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