Nepsis (νῆψις)

Nepsis (νῆψις) é um termo grego que pode ser traduzido por “vigilância” e “sobriedade”, ou fenomenalmente, pelo neptikos, o homem de “existência vigilante e sóbria”. No cristianismo oriental, se diz que a permanência neste estado é a marca da santificação, que nestes termos, se caracteriza pela permanente concentração do pensamento enquanto este não é mais afetado nem constituído por nenhuma imagem das coisas sensíveis ou mundanas.

Segundo Hesíquio de Batos, antigo sacerdote da Igreja de Jerusalém, o pensamento do neptikos começa a captar outros pensamentos que o sobrevêm, observando-os, escutando-os, percebendo o quanto, a toda hora, ele está a receber sugestões ora simplesmente vãs, ora profundamente malignas. A nepsis então evoca que o primeiro combate espiritual do intelecto é a sobriedade e a vigilância contra as imagens do pensamento, por isso o homem deve manter o coração sempre num profundo silêncio, em estado de hesíquia, e sem ídolos (materiais ou conceituais), ter na alma a constante lembrança da morte.

Lembremo-nos sem cessar da morte, – diz ele – tanto quanto pudermos. Com esta lembrança nasce em nós o abandono das preocupações e de todas as vaidades, a guarda do intelecto e a prece contínua, o desligamento das paixões do corpo e o desgosto pelo pecado. A bem dizer, quase todas as virtudes escorrem da lembrança da morte como de uma fonte. É por isso que, se o pudermos, devemos servir-nos dela como de nossa própria respiração. Sobre a nepsis, 155.

Assim, sem a lembrança da morte e sem a experiência de uma sobriedade e de uma vigilância assídua, o intelecto estará disperso, misturado aos fantasmas das paixões que o circundam. Eis que, erroneamente, os pensamentos se unirão às imagens demoníacas, ainda que estas não sejam conscientemente percebidas. No entanto, às escondidas, elas vão crescendo, se dilatando, até parecerem desejáveis, belas e agradáveis ao intelecto. É reflexo disso por exemplo quando tomamos o ruim como bom, ainda que em nosso íntimo saibamos que o mal é mui distinto do bem. No entanto, embaraçados por sugestões e imagens obscurecidas, somos impedidos de levar aquilo que está dentro do coração ao exterior, sem mesmo que saibamos a causa deste impedimento.

Eis porque a nepsis tem suma importância para os ortodoxos: sua prática torna o cristão capaz de  identificar “os fantasmas demoníacos que aparecem no intelecto”. Então o homem verdadeiramente sóbrio e vigilante conquista um estágio de reflexão que lhe mostra os cálculos do Inimigo, o grande proveito da oração e a grandeza do Silêncio. Assim o neptikos, compreendendo o pensamento silenciado em seu intelecto, torna-se capaz de contemplar.

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Categoria: Cristianismo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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