Da Incomunicabilidade dos Sentimentos

O presente texto possui duas questões e uma pretensão. A primeira se refere a possibilidade da linguagem de comunicar sentimentos e do quanto esta linguagem poderia nos permitir entendermo-nos uns aos outros quanto a estas experiências subjetivas. A segunda é acerca das consequências da resposta desta primeira questão para o tema da solidão. A pretensão é de analisá-las e apresentar considerações gerais sobre elas, tomando como base o capitulo Solidão, do livro O Vazio da Maquina, do escritor e filosofo brasileiro contemporâneo André Cancian.

Segundo André, normalmente cada um de nós consegue perceber que ocorre certos momentos nos quais há grande diferença entre o que queríamos dizer e o que conseguimos dizer, mas – alerta – a distancia não acabaria aí: o que o outro entende depende, entre outros fatores, de sua interpretação, de modo que ao fim é possível que haja um abismo entre o que queríamos dizer e o que o outro entendeu.

No entanto, é possível pensarmos que, satisfeitas determinadas variáveis (como recíproco domínio da linguagem, do tema e compartilhamento das experiências subjetivas), diminui-se este abismo, talvez a ponto de haver um entendimento total entre os interlocutores a depender do que estiverem tratando.

Por outro lado, também pode haver aquilo que não poderia ser comunicado e compreendido completamente em hipótese alguma, e os sentimentos, como notará André e eu argumentarei, é um desses casos.

Para sustentar isto, partirei, em conformidade com o autor, do seguinte pressuposto: o único modo de entendermos completamente o que o outro sente é colocando-se, literalmente, em seu lugar e sentirmos o que sente. Ainda que já tenhamos sentido exatamente o que este outro está a sentir, somente assim, em seu lugar, poderíamos verificar se é o caso. Ora, nessa perspectiva, isto é impossível. Nós somos nós e não os outros e não podemos passar a ser o outro em nenhum momento. Se aceitarmos esta premissa é possível concluirmos que não podemos saber completamente o que outra pessoa sente.

Mas e a linguagem? Não seria uma ponte entre as pessoas que permitiria que estas realidades subjetivas fossem transmitidas e entendidas?

No que se refere à linguagem, diante do pressuposto apresentado, se esta puder ser meio para algum entendimento neste sentido, nos traz necessariamente somente um entendimento parcial. De acordo com André, através da linguagem trocamos símbolos e não realidades. Ao descrevermos sentimentos, chamando-os, por exemplo, de tristeza, tal termo não contempla a realidade dos sentimentos, trazendo-os consigo, de modo que ao dizermos a alguém que estamos tristes , este alguém , ao ouvir, será transportado para dentro de nós para sentir o que sentimos e então nos entender, não herda um entendimento que o permite saber completamente o que sentimos. Como destaca André, se alguém afirma que está triste, o que entendemos disso? Em essência, nada. Não vamos até a alma da pessoa e resgatamos seu sentimento e o transpomos ao nosso cérebro, tampouco ela o regurgita por palavras ao nosso entendimento.

O que acontece, então? Esse que nos ouviu dizer que estamos tristes voltaria os seus olhos para dentro de si, para sua historia e memórias, buscando aí sensações que já sentiu e referenciou como sendo, também, tristeza. Para André, nesse processo apenas interpretamos, decodificamos as informações fragmentadas que recebemos, e depois tentamos relacioná-las ao nosso repertório de experiências pessoais compatíveis com a descrição fornecida.

Dessa maneira, é a partir do entendimento que o outro tem sobre a tristeza que ele nos entenderia. Ou seja, ao dizermos que estamos tristes a alguém, esse alguém não nos entenderia a partir de nós e do que sentimos, mas a partir de si mesmo e de seus sentimentos. Na concepção do autor, Apenas viramos ao nosso repertório pessoal de memórias e conhecimentos daquilo que entendemos por tristeza e, baseados apenas em nós mesmos, nas experiências que tivemos, fazemos a interpretação do que a pessoa provavelmente está tentando dizer, e isso é tudo.

Essa perspectiva é esclarecida no texto base através de, entre outros, um exemplo:

Temos dois indivíduos que conversarão entre si, porém de costas um ao outro, e cada qual frente a um espelho; ou seja, ouvem um a outro, mas só veem si próprios. Pois bem, agora o indivíduo precisa comunicar o que sente por meio do que vê nesse espelho, e o outro tentará entender. Qual será o resultado? Algo como: estou vendo dentes, mas não todos; um olho está semiaberto; uma bochecha está contraída; os lábios estão curvados. E o que tais descrições significam? Só podemos imaginar. Nesse processo, usamos a intuição para tentar recompor o cenário completo com base naquilo que vemos em nosso próprio espelho, e isso é feito na suposição de que já nos vimos exibir feições semelhantes às descritas, e que portanto o sentimento deve ser semelhante também – mas, se realmente é, não há como saber. Naturalmente, podemos pedir quantos detalhes quisermos, mas a comunicação sempre ocorrerá nesse estilo truncado e indireto, e o indivíduo nunca poderá ver com seus próprios olhos aquilo que tentamos descrever.

Quanto ao exemplo anterior o próprio autor comenta que:

[…] nos dá uma ideia mais consistente do quanto nossa comunicação é frágil. Falamos de nós mesmos enquanto nos vemos, como se a pessoa que nos ouve estivesse nos vendo com a mesma clareza, mas não está. Ela só pode ouvir nossas palavras, e sua única alternativa passa a ser olhar para si própria e se imaginar fazendo o que descrevemos. Assim, se as descrições não comunicam a subjetividade, e se não podemos vê-la por nós mesmos, onde está a comunicação? Em nossa imaginação. Nunca ocorrem trocas de ideias ou de sentimentos, apenas trocas de palavras que os descrevem – palavras nas quais nos vemos enganosamente refletidos.

Ainda no sentido de esclarecer o que foi dito até aqui, lembremos da seguinte pergunta atribuída ao dramaturgo, romancista e poeta, Luigi Pirandello: Como podemos nos entender […] se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?

Em resposta a Luigi podemos dizer, dentro dos limites da perspectiva aqui exposta, que não podemos. Tratando-se da comunicação dos sentimentos é como se estivéssemos quase falando sozinhos, já que falamos, somos ouvidos, mas não entendidos e o que entendem os interlocutores é somente o que dizem para si mesmos.

“Quase” porque o entendimento dos sentimentos em sua comunicação pode se efetivar em algum nível visto que na medida em que as experiências dos interlocutores em termos de sentimentos sejam semelhantes e referenciais linguísticos sejam iguais, ao comunicarem uns aos outros aquilo que sentem, como quem ouve já sentiu parecido, mais se aproximará em seu entendimento acerca da realidade do sentimento que está sendo comunicado. Em relação a isto, André nos diz que a convivência é o melhor meio de assegurar que indivíduos tenham, em sua bagagem de experiências, um maior número de pontos de referência comuns, e assim consigam se entender com mais facilidade.

Por outro lado, se indivíduos não viveram experiências e sentimentos semelhantes, não haverá compreensão. André nos cede ao menos dois exemplos, sendo um deles uma analogia ilustrativa: 1) alguém que nunca fumou não consegue conceber a sensação de abstinência de nicotina ; 2) tubarões conseguem extrair informações de impulsos elétricos. Claro que conseguimos entender como isso funciona objetivamente, mas não é possível conceber, em nossas mentes, como é estar vivenciando isso. Se tubarões falassem, poderiam descrever sua sensação o quanto quisessem e ainda assim não conseguiriam nos transmitir uma ideia clara daquilo que se passa em seus cérebros.

Entretanto, nem em um caso – quando a compreensão se dá em algum nível -, nem em outro – quando não há compreensão -, as pessoas se entenderão completamente. O entendimento que parece total nas comunicações dos sentimentos seria uma ilusão. Como já foi dito, ainda que tenhamos sentido exatamente como o outro que tenta nos comunicar seu sentimento, não teríamos como verificar se é o caso. No que se refere à possibilidade de sermos entendidos completamente no que sentimos, estamos sós dentro de nós mesmos e somos inacessíveis e indemonstráveis.

Isto ocorreria, na compreensão do autor nesse texto base, porque só pode ser comunicado com fidelidade o que nasceu como definição dentro de sistemas convencionados, que fora isto o que quisermos comunicar deve submeter-se a condição de ser traduzido a equivalentes mais próximos dentro de tais sistemas. Para André, as palavras que compõem uma língua devem possuir caráter suficientemente genérico para serem aplicadas em casos específicos diversos. Isto superaria a barreira individual, permitindo a comunicação, mas ficaríamos nós próprios enquanto sujeitos excluídos dela. Aquilo que todos entendem, dirá, no fim, ninguém sente; aquilo que cada qual sente, ninguém entende.

Nosso autor recorre ainda ao modo como teríamos evoluído enquanto especie. Alega que

[…] as sensações intimas são coisas que só tem utilidade prática para o próprio indivíduo, servindo como um referencial sobre o que está acontecendo em seu corpo, ou seja, trata-se de uma espécie de metalinguagem biológica. Em termos de sobrevivência, não é importante conseguirmos descrever nossa experiência subjetiva de fome; o importante é apenas fazer com que o outro individuo compreenda que queremos comer. Para tal fim, a linguagem é um recurso que cumpre sua função muito bem, já que consegue articular uma relação ágil entre nossas sensações privadas e a realidade pública, na qual nos relacionamos com outros indivíduos. É uma ótima ferramenta para interações sociais, e isso é tudo. Devemos abandonar a esperança de que ela seja capaz de transpor diretamente qualquer coisa que sintamos.

Aqui alguém poderia destacar como contra-argumento que ocorre de a poesia parecer nos ler em nossa subjetividade ou comunicar perfeitamente a subjetividade do escritor ou escritora. No entanto, para André, se ocorre de termos a impressão citada, como se a poesia comunicasse exatamente o que sentimos ou o que sente quem a escreveu, isto se daria pois:

[…] a poesia poderia ser descrita como a arte de costurar abismos com palavras, sendo tão bela exatamente porque parece vir como uma ponte mágica que comunica algo indescritível. Mesmo tendo consciência dessa impossibilidade, não deixamos de nos encantar com o consolo subjetivo que proporciona. Essa arte consiste em lapidar, na forma de palavras, uma expressão na qual há lacunas estrategicamente posicionadas, de modo que, ao interpretar um poema, nos inserimos nesses espaços subjetivamente e nos identificamos intimamente, resultando na sensação de que escapamos de nossa solidão – e teríamos escapado caso fôssemos poemas, não pessoas. É surpreendente como essa ilusão nos leva pelo nariz a acreditar em asneiras somente porque poetas sabem fazer truques gramaticais tão bem quanto mágicos tiram pombos da cartola, pois o fato é que a poesia funciona pelo mesmo princípio que a astrologia, ou seja, a vagueza calculada. Se a poesia, em vez de subjetiva e vaga, fosse precisa, objetiva e clara, simplesmente não funcionaria.

Dadas as conclusões estabelecidas até então, é possível sustentarmos que estes limites da linguagem quanto a comunicação de sentimentos e da subjetividade de modo mais geral, que se impõem desde que nascemos até o nosso último suspiro, geram, entre outras, uma consequência para nossa condição de existência, qual seja, a solidão. Uma solidão que não é contingente, isto é, na qual poderiamos estar ou não, mas sim necessária: ela é inevitável.

A razão disso é que, de acordo com André, a solidão não tem a ver com o mero fato de estarmos sozinhos, sem ninguém para nos comunicar, ou não. A solidão seria a clara consciência de nosso isolamento, do intransponível abismo entre nós e o todo mais, isolamento intransponível este criado pela impossibilidade de nos compartilharmos em nossa subjetividade devido aos limites da linguagem. Em suas palavras

Trata-se de algo mais profundo, da compreensão de que não apenas estamos, mas somos sozinhos – desde sempre, para sempre. Assim, considerando tudo que um indivíduo pode ser, só poderá sê-lo por si mesmo, necessariamente. Não há como compartilhar sua existência pessoal com outrem, por mais que nos enganemos a esse respeito. Mesmo ao conviver, ao dividir experiências, as vivências pessoais de dois indivíduos caminham sempre em paralelo, como dois universos que, mesmo próximos um do outro, nunca chegam a se fundir. Como duas bolhas opacas: veem-se, tocam-se externamente. Contudo, interiormente, permanecem sozinhos, seus conteúdos nunca se misturam.

Haveria, no entanto, aqueles que em suas atividades cotidianas poderiam levantar a mão e dizer não se sentirem solitários. Acerca destes André nos diz – provavelmente numa generalização apressada, dado que este fato poderia ser explicado de outros modos que não o que ele propõe e ele mesmo parece não oferecer nenhuma evidência de que o caso é o que apresenta – que essa postura indica já terem perdido o contato consigo mesmos, estando suas vidas voltadas para o exterior. Estariam cultivando suas personalidades em função daquilo que podem tornar público. Seriam um dentro viciado no fora, devido a vaidade.

Ao seu ver, para entendermos se alguma atividade da qual nos ocupamos é originalmente nossa, ele diz:

[…] podemos imaginar como viveríamos se estivéssemos numa ilha deserta, sem nenhuma pessoa por perto, sem qualquer chance de vir a encontrar outro indivíduo pelo resto de nossas vidas. Nessa situação, os quadros que pintamos, por que pinta-los quando não há ninguém para vê-los? Por que cultivar a beleza de nossos corpos se não haverá quem admirá-la? Por que sorrir ou chorar quando isso não prova nada? Cultivaríamos jardins se as fores fossem apenas para nossos olhos? Qual é o valor de grandes posses quando não nos permitem ser invejáveis?

Se não conseguimos definir quem somos quando ninguém está olhando isto ocorreria porque ao termos nos voltado para o exterior esquecemos de nós mesmos, alega este autor.

Entretando, em sua concepção, sermos inevitavelmente solitários no sentido aqui exposto não significa que vivemos num deserto, mas que nossa morada não poderá ser visitada.

Esse mundo interior poderá ser tanto um palácio como um lixão, afirma. Assim, cito André:

Um mundo interior precário nos fará vítimas do tédio de sermos, nós próprios, áridos e insípidos; fará com que lancemos mão de todos os recursos possíveis para nos esquecermos de nós mesmos, de nossa miséria interior, de nosso abandono, e disso nascerá uma necessidade desesperada de socialização. Por tal motivo os indivíduos mais vulgares comumente também são os mais sociáveis. A sensação de carência provocada pela pobreza de suas personalidades os torna extremamente dependentes dos demais, e fugir de si mesmos torna-se seu único prazer na existência.

Do seu ponto de vista, é comum que indivíduos como estes, por não encontrarem nada de interessante dentro de si, voltem-se para o exterior, para distrações e gozos dos sentidos; que tenham como sentido mais elevado de suas vidas acumular dinheiro e prestigio social. Buscariam a socialização para fugir de si, fugindo da solidão como quem foge do espelho devido ao medo de se perceber com clareza.

O repudio a solidão, nesse seu entendimento, seria uma forma indireta de admitirmos que não suportamos a nós mesmos, que somos uma ilha inabitável.

Por fim, deixo as questões desse texto para que cada um possa pensar junto, com, a partir e inclusive contra o que foi exposto aqui: a linguagem pode comunicar sentimentos e nos permitir entendermo-nos uns aos outros quanto a estas experiências subjetivas? Haveriam consequências da resposta a essa questão para o tema da solidão na vida de cada um de nós?

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Categoria: Filosofia, Filosofia Contemporânea

Lucas Jairo C. Bispo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Meu nome é Lucas Jairo C. Bispo, tenho 23 anos e estudo Filosofia na Universidade Estadual de Feira de Santana. Escrevo por prazer e publico com o objetivo de fazer pensar (junto a, a partir de e inclusive contra o escrito) e de entreter, apesar de não evitar necessariamente defesas. Atualmente na internet administro o blog “Cogito, Logo Escrevo”.

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