Considerações sobre a servidão voluntária em Étienne de La Boétie

| 13/12/2016 | 0 Comentários

Nascido na França, Étienne de La Boétie, escreve – supostamente, aos 18 anos – seu “Discurso Sobre a Servidão Voluntária”, que foi publicado após sua morte por seu contemporâneo e amigo, Montaigne. Embora a obra tenha sido produzida há mais de quatro séculos, a sua temática – a relação entre a liberdade e a obediência – talvez nunca tenha sido tão importante de ser debatida, tendo em vista uma crescente narrativa do mundo contemporâneo de que o poder da tecnologia e da mídia sobre nossas vidas estaria nos levando a um estado de alienação e de aceitação da servidão.

Para o melhor entendimento dessa obra, é necessário compreender que um viés “analítico” parece faltar em Étienne e torna grande parte da sua argumentação tão filosoficamente consistente quanto um livro bíblico. Não é à toa que Montaigne classifica o texto como “obra de infância” e “mero exercício intelectual”. Isso não quer dizer, é claro, que o escrito não seja inspirador. O “Discurso sobre a servidão voluntária” e a “Bíblia Sagrada” são, ambos, inspiradores pelos preceitos que defendem (pelas suas “conclusões finais”, digamos assim) e pela forma com que defendem (que é, para todos os efeitos, poética). Todavia, sob uma ótica rigorosa, não são necessariamente inspiradores pelos encadeamentos lógicos contidos no texto. Isto é, a argumentação pode até ser muito convincente, mas deixa a desejar na coerência.

La Boétie, como bom “aristotélico”, critica muito aqueles que se entregam aos vícios em detrimento das virtudes, mas é exatamente o que ele parece fazer na maior parte da obra: defender a liberdade pelo desejo de ser livre, e não pela razão, como se o “desejo de ser livre” e o “desejo de ser submisso” estivessem em patamares diferentes, como se fossem manifestações díspares do “desejo”. Indubitavelmente, a liberdade está associada à felicidade de maneira direta para La Boétie – como estaria, novamente, para “um bom aristotélico” – e possui valor em si mesma. Logo, a razão estaria a serviço da felicidade, de um “sumo bem”, de uma “eudaimonia”. Quer dizer, Étienne não discorda que a servidão pode levar ao prazer e que a liberdade pode levar a dor. Entretanto, a felicidade que a liberdade oferece não seria igual a prazer, mas sim equivalente uma espécie de experiência transcendental e universal da qual todos, inclusive os animais, poderiam fazer parte.

Sem dúvida, há uma relação entre o “Discurso sobre a servidão voluntária” e “O que é o Esclarecimento” de Immanuel Kant. No alemão, a menoridade é uma condição de preguiçosos e covardes, de pessoas que precisam de muletas, de alguém que as conduza, de quem as pegue pela mão e diga o que fazer. Nesse sentido, ser um “esclarecido” exigiria coragem e uma vitalidade de encarar o mundo, de ser uma espécie de “senhor de si”, de largar as muletas e aprender a andar sozinho mesmo após algumas quedas. Em suma: a “servidão voluntária” está para a “menoridade” do mesmo modo que a “liberdade” está para o “esclarecimento”.

Existe uma pergunta proferida na conferência “A política como vocação” de Max Weber que é: “Quando e por que os homens obedecem?”. Essa é, dentre outras, uma das questões centrais da obra de La Boétie. Não que tenha sido proposital, mas é muito evidente a relação da resposta de Weber para essa pergunta com o texto do Étienne. Grosso modo, poderíamos dizer que, em Weber, “os homens obedecem” porque se sentem legitimados por três fatores: legal, tradicional e carismático. Apesar de não possuir o mesmo apelo técnico (o “sociologuês”) de Weber, Étienne fala desses dois últimos elementos com muita veemência. Entretanto, diferentemente de como ocorre na descrição weberiana, o francês coloca a tradição (ou o “costume”) como o fator mais decisivo para a sensação de legitimação da servidão.

Depreendo, à luz dessa perspectiva, a existência de três mensagens que La Boétie certamente queria transmitir e que ficou revisitando o tempo inteiro em seu “Discurso sobre a servidão voluntária”. Primeiro, que a liberdade é uma questão de querer possuí-la, porque ser livre não depende fundamentalmente do que você faz, mas do que você deixa de fazer; que a tirania só perdura porque nós a potencializamos. Segundo, que príncipes são filhos pequenos (se mimar, estraga); que não devemos divinizá-los, nem colocá-los em pedestais, tampouco fazer vista grossa para os seus defeitos. Terceiro, que devemos sempre estar atentos ao poder da tradição sobre nós, a facilidade com que o mundo tem de relativizar a servidão, de tratar como natural a falta de liberdade, de tornar a escravidão “tão doce quanto um gole de refrigerante” [1].

Notas
[1] Referência ao comentário de Manuel J. Gomes sobre Étienne.

Referências Bibliográficas

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso Sobre a Servidão Voluntária. L.C.C. Publicações Eletrônicas, 2006. Disponível em: <http://www.miniweb.com.br/biblioteca/Artigos/servidao_voluntaria.pdf> Acesso em: 04 Jan. 2016. Título original: Discours de la servitude volontaire.

KANT, Immanuel. et al. O que é Esclarecimento? 1 ed. Tradução: Paulo Cesar Gil Ferreira – Rio de Janeiro: Via Verita Editora, 2011.

WEBER, Max. “Parte I: Ciência e política”. In: H.H. Gerth e C. Wright Mills (Org.). Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC — Livros Técnicos e Científicos Editora S.A, 1982. p. 97-183. Disponível em: <http://www.ldaceliaoliveira.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/18/1380/184/arquivos/File/materiais/2014/sociologia/Ensaios_de_Sociologia_-_Max_Weber.pdf>. Acesso em 04. Jan. 2017.

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Categoria: Ética e Cidadania, Filosofia, Política

Elan Marinho

Sobre o(a) Autor(a) ()

Inconstante, póstumo, jovial, epicureu enrustido, de essência aparente, amor fati e, sobretudo, de amor ao amor ao não-saber, ou, sinteticamente: um paradoxo doutrinado na escola do devir.

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