Ser jovem de esquerda

| 27/11/2016 | 3 Comentários

Vejo muitos jovens da minha geração se drogando e fazendo sexo como se fossem ousados, revolucionários e livres. Contudo não, eles não estão mudando nada, ou se estão, estão mudando muito pouco. Foi isto que recentemente comuniquei em minha rede social: “Eles estão consumindo drogas e transando por um projeto de engenharia social já muito antigo”. Logo fui acusada de conspiracionista, mas uma consciência emergiu a defender que não; engenharia social não é teoria da conspiração; “Basta ler Maquiavel Pedagogo (Bernardin), basta saber o que constitui um intelectual orgânico (Gramsci), basta conhecer um mínimo de biopolítica”. Foi isto o que esta consciência retificou, entretanto, opondo-se adiante: “Tal engenharia social vem da esquerda”, disse ela. Agora porém eu pergunto: será mesmo? Se sim ou se não é preciso de uma série de definições, de reflexões, de apanhados – nada que me cabe reflexionar agora. Cabe-me apenas dizer o seguinte: há muito já se deveria saber que tanto no Brasil quanto em quase todo o mundo a esquerda está morta – e muitas vezes também a direita. A cega guerra direita vs esquerda, como se estes abstratos definissem o limite da nossa ignorância, não nos levará a nada. Devemos ampliar o debate. Não hesito em criticar a esquerda se preciso. Se a esquerda percebesse que por exemplo, tem muitos policiais morrendo só por estes serem policiais, e se a direita ao mesmo tempo percebesse que tem muito policial matando pretos e pobres só por estes serem pretos e pobres, talvez andássemos alguma coisa. Não podemos ter ídolos, e é triste ver que muitos e muitas de nós vendam seus próprios olhos em idolatria – isto sem medo de incorrer em absurdos.

Eu, que manifestamente sou feminista, ouso perguntar: quantas feministas não estão caindo em descrédito, infâmia e excesso? São tais os feminismos pouco engenhosos, pouco filosóficos, que acabam por navegar no mesmo barco das doenças da sociedade, por comportar quase tanta agressividade quanto comporta o machismo. Um feminismo não-filosófico, um feminismo intemperante é estúpido o suficiente para cortar suas próprias asas, para não cumprir suas metas e para acabar cego como uma navalha fascista. Por isso repito incansavelmente: “Não façam do feminismo um ídolo (no sentido nietzscheano do termo), mas vivam-o de forma virtuosa e livre, pois ser livre não é verbejar o que vocês engoliram de outras mulheres sem terem vocês mesmas uma vivência autônoma daquilo, ser livre é poder ser pensamento vivo e corpo ativo; mas passamos da idade de achar que um corpo ativo é (só) bater siririca, e que pensamento vivo é (só) chamar alguém de ‘machista”. Nenhuma feminista deve se tornar um peãozinho para a direita menosprezar e deslegitimar o movimento. As mulheres, se querem mudar algo, devem ser também temperantes e compreensivas, devem ajudar quem quer que precise acordar, até mesmo o “macho”, quem muitas vezes tem uma postura machista não por ter uma má índole, mas em decorrência da educação que recebeu (muitos homens sequer sabem quando são e quando não são machistas – e acreditem, alguns gostariam de saber).

Em função disso repito: lutar politicamente por algo efetivo não consiste em desperdiçar um projeto existencial de esquerda só levantando o dedo para o machista, fazendo sexo, fumando maconha e usando LSD como se isso fosse uma revolução moral. Lembro a vocês que fazer sexo e usar drogas não é exclusividade da esquerda. A direita também transa (muitas vezes mais porque quase sempre tem um parceiro fixo), fuma charuto, fuma cigarro, toma vinho, etc. Sobre outras drogas, não é que precisamos ser contra elas – mas precisamos ser contra as drogas consumidas a base e a fomento da alienação. Isso não é moralismo. Não estou fiscalizando as pessoas, não estou moralizando as drogas. Estou outrossim politizando-as porque toda ação humana é politica. Por iss sua ação individual é também sua ação política, e por isso é preciso enxergar o contexto das drogas politicamente na nossa cultura. Não somos como os povos antigos que usavam substâncias para a descoberta do místico (tendo este místico um papel cultural estruturante). Logo, a modernização ordinária dos ritos e da psiconautia tribal não é uma atividade fundamental para a nossa sociedade, principalmente considerando a forma de aquisição e composição dessas substâncias. Só o fato de alguém PLUR (Peace Love Unity Respect) comprar drogas no tráfico que mata e fomenta violência no nosso país já denuncia a gravidade do problema. É preciso que uma pessoa aliene toda a violência envolvida no tráfico para ser cliente deste. É preciso também que uma pessoa aliene a composição química do tóxico comprado em sua saúde. Nossa cocaína não é pura, nem nosso LSD. É descoincidente quem planta sua maconha em casa de quem compra maconha no tráfico. É ainda mais descoincidente quem consome sua maconha plantada em casa em casa, de quem consome sua maconha plantada em casa na rua, no ambiente acadêmico, no espaço público. Esses são alguns dos motivos do porquê o neotribalismo moderno é uma forma de alienação, há outros ainda mais profundos que transpassam o sincretismo e a apropriação cultural infundada de uma sociedade remota a outra, mas nisso não cabe entrar agora. Quer dizer apenas que devemos refletir até onde o lema PLUR realmente pode vir a ser a paz, o amor, a união e o respeito que este se propõe – será possível mascarar a união numa sociedade que vive em guerra?

De uma maneira ou de outra, no fim, peço apenas que todos reflitam além do óbvio. Ser jovem de esquerda não é fingir que se está “curtindo a vida adoidado” sendo o único motivo pra bater a “bad pós party” o fato de que tinha um machista na festa, de que a maconha não tá legalizada e Temer e Trump estão no poder. Há muito mais acontecendo e muito mais precisando acontecer.

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Categoria: Cotidiano, Ética e Cidadania, Política

Ana Elizabeth

Sobre o(a) Autor(a) ()

Sou um pseudônimo do meu nome próprio, de uns vinte e tantos anos, duas dezenas de existência, umas centenas de angústia.

Comentários (3)

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  1. Sobre engenharia social, e sua pergunta acerca de “esta engenharia social vem da esquerda”, saiba, para compreender isto, basta a leitura das fontes que apontei, acrescida de “Ponerologia – Psicopatas no poder” (Lobaczewski), que faz uma análise psicológica de vários agentes políticos, demonstrando os reflexos disto na engenharia social e no perfil psicológico dos atuais agentes políticos. Sua pergunta é respondida com a simples leitura dos textos que lhe apontei e você citou, acrescido de mais alguns, como o supracitado.

    Fora isto, normalmente eu tenho certo asco de textos feministas, ou mesmo de alguns da esquerda, principalmente da esquerda brasileira, até mesmo de professores meus, pelos motivos que você apontou, por vezes, por outros. Mas não senti asco do seu texto, é até coerente para uma feminista. Consegui até ler até o final, consegui até dizer a minha namorada “olha, ela nem é tão louca, é até de boa”. Acho que só isto já é um bom exemplo para as suas colegas feministas. Bom texto!

  2. Thiago Alberione disse:

    Ter bom senso e sinceridade na política é caminho certo para desagradar todo o espectro de ideologias que constitui este passional – e por vezes, quase patológico – locus de discussão. Eu a parabenizo pelo texto, pela coragem em expressar com precisão, e diria até, cirúrgica incisividade, opiniões como estas, das quais compartilho. Torço para que o debate em torno destas declarações torne as pessoas que as lerem e que lutam pela esquerda mais consciente das suas próprias limitações, tanto em termos ideológicos quanto nos de práxis política, por que é muito triste que boas causas e boas ideias de engenharia social (é incrível como a esquerda tem problemas em admitir que no final das contas, trata-se disso), percam-se no meio de oba obas, vícios tomados como fins em si mesmos e modelos de liberdade, e tantas outras infantilidades que condena a militância a uma postura quase caricata e por vezes paspalha, alienada o bastante para pensar que estes atos de “rebeldia”, já totalmente esperados e absorvidos pelo estabilishment, mudam alguma coisa.

  3. Rafael Bedenik disse:

    Por mais que eu não simpatize com posições que, genericamente, estão mais a Esquerda, eu tenho de lhe parabenizar por sua lucidez em relação à essa postura infantilizada que se fez lugar comum para a Esquerda a partir dos de 1960.

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