As Trevas Luminosas e a Apofaticidade da Teologia Ortodoxa

moses

Moisés e a Visão de Deus

Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz.” (Daniel 2:22)

A imagem mais clássica e representativa do caminho da alma para Deus, de forma paradoxal, é a treva luminosa . Autores Ortodoxos desde a antiguidade utilizaram-se deste conceito como ilustração da característica apofática da teologia e da contemplação da alma no divino enquanto simultaneamente a essência divina transcendesse a toda participação e todo conceito.

As trevas apresentam dupla significação, primariamente a ausência de luz, a falta de ser, distancia da fonte de realidade e estado da alma que inicia sua ascensão em direção ao divino. Porém a segunda imagem é a que é adotada para entender o conceito de treva luminosa: o excesso de luz, a abundância de ser, exemplificada pelos olhos cegados ao olharem diretamente para o sol. Toda a história da mística cristã é perpassada por esta imagem, desde a experiência de Moisés no monte (extensamente comentada por Gregório de Nissa, como iremos abordar), da cegueira de Saulo pela luz após a queda do cavalo, até a Transfiguração do Cristo no Tabor. Consonante diz Gregório:

A manifestação de Deus ocorre primeiro por Moisés na luz; mais tarde falou com ele na nuvem, enfim, tornado mais perfeito, Moisés contempla Deus nas trevas. A passagem da escuridão à luz é a primeira separação das idéias falsa e errôneas de Deus; a inteligência mais atenta às coisas escondidas, conduzindo a alma por meio das coisas visíveis até aquelas invisíveis, é como uma nuvem que escurece todo o sensível e acostuma a alma à contemplação do que está escondido; enfim, a alma que caminhou por estas vias até as coisas celestiais, tendo deixado as coisas terrenas tanto quanto possível à natureza humana, entra no santuário do conhecimento divino (theognosia) rodeado de todas as partes pela escuridão divina [São Gregório de Nissa, Omelia XI sul Cantico (PG 44, 1000 C-D)].

A distinção real em Deus entre sua Essência (οὐσία) incognoscível e suas Energias (ἐνέργεια) participáveis ao Intelecto humano, expostas conceitualmente pelo místico bizantino Gregório Palamás são o desenvolvimento da doutrina dos nomes divinos de Dionísio Areopagita junto a apofaticidade do conhecimento do Abosluto manifesto por sua Luz trevosa. As energias divinas são elas mesmas Deus, e os que nela participam experimentam a contemplação da luz incriada e natureza divina. No livro das tríadas de Gregório Palamás é exposto a doutrina da deificação humana pelas energias de Deus tomando como maior base teológica o episódio da transfiguração de Cristo no monte Tabor, e da mesma forma que em toda a Tradição, os discípulos são cegados ao contemplarem a luz que emanava do Cristo, representando novamente a mística das trevas nissena como abundância da luz e supra-ser da deidade.

As energias manifestam os inumeráveis nomes de Deus, conforme o ensinamento do Dionísio Areopagita: Sabedoria, Vida, Potência, Justiça, Amor, Ser, Deus – e uma infinidade de outros nomes que nos são desconhecidos, pois o mundo não pode conter a plenitude da manifestação divina que se revela nas energias, como também, nas palavras de são João [21:25], não poderia conter os livros que seriam necessários para descrever tudo o que Jesus fez. Como as energias, os nomes divinos são inumeráveis, e por isso a natureza que eles revelam permanece inominada e incognoscível – treva escondida pela abundância de luz [Lossky, 1957, p. 79-80].

A imagem da treva divina é expoente por excelência do caminho de conhecimento pela negação, do apofatismo teológico Ortodoxo frente a essência Deus, mas que expressa positivamente o caminho mistagógico do cristão até a deificação pela participação nas energias divinas.


Veja também

A Centelha da Alma e as Energias Incriadas: A Deificação em Mestre Eckhart e na Tradição Ortodoxa (link)

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Categoria: Cristianismo, Filosofia Medieval

Gabriel Tossato da Silva

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