Homicídio alimentar e suicídio invisível

suicidioPerceber que se tem certos vícios alimentares ainda não considerados indiciosos por quase ninguém, ou ao menos pela massa da população que também os têm, é como encontrar um enferrujado cadeado de laboriosa abertura. Sucede que a intemperança do declínio ético-corporal se torna de difícil cura, pois sua incorreção é muito mais sutil que, i.g., o álcool, o cigarro e as práticas já assumidas como de tendência suicida. Por isso, são praticamente ocultados os assombros de realidades como o agrotóxico, a indústria alimentar, o açúcar e o sal, os excessos e qualquer espécie de suicídio indireto, invisível e de longo prazo.

Cada vez que se come mal, dorme mal, inala fumaça de cigarro, mantém a sedentariedade, etc, se mata um pouco de si, do outro e do cuidado com o nosso corpo comum e civil. Por exemplo, quantas refeições em família, amigos e colegas não comportam suicidas anônimos e inconscientes? Nossos alimentos são “temperados” com venenos invisíveis, com a antecipação doentia de quem inevitavelmente “é-para-a-morte”. Quem, porém, trabalha para se livrar dos costumes doentis acaba “comendo e bebendo da soledade”. Contudo, o isolamento disciplinar dificilmente é a melhor ou a mais altruísta resolução. Um homem entre os outros deve alertar seus congeneres, e é isto o “relembrar constantemente” o quanto as indisciplinas (sobretudo alimentares) ameaçam o conatus humano até mesmo do ponto de vista social. Sempre que comemos (ou deixamos alguém comer) de uma grande ou pequena empresa que não se preocupa com o bem estar do seu consumidor (que por sinal é um ser vivo e pessoal), damos razão de ser para a existência d’uma instituição que só faz mal para a nossa saúde, por conseguinte, damos razão social para o mal hábito, o declínio e a cultura do suicídio (e homicídio) inconsciente e invisível.

Não obstante, tudo isso pode não ser motivo de desânimo, mas todavia de disciplina. Desde já podemos praticar a alimentação como um condutor ético, como um jejum de vontade. Assim, embora tenhamos nascido numa cultura de pouco cuidado paliativo, que incentiva o suicídio invisível em suas mais diversas formas, já agora é possível reconhecer que as doenças e a morte prematura são, em grande parte, resultado de intemperança e de excessos: tanto os médicos quanto a religião atestam: o excesso de alimento é a causa de doença, e muitos morreram por causa de suas intemperanças (Cf. Eclesiástico 37,33-34).

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Categoria: Biofilia, Espiritualidade, Nutrição, Saúde

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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