Nomen e numen: o nome e o mistério

Linguagem (o nomen) romano

Uma larga tradição da Roma antiga acreditava que na essência de cada coisa encontra-se um numen (o “mistério”, o “ignoto”). Por isso, de modo sacral, entre os romanos, conhecer a verdade de uma coisa (seu numen) é, por assim dizer, apreender o seu nomen. Portanto, falar um nome (tradução livre para nomen), antes de pronunciar um signo linguístico trivial, é descobrir-lhe o mysterium, é desvelar o segredo divino inscrito na coisa [1].

Historicamente, na época da fundação de Roma, era comum o culto da numina (plural de numen), reconhecidas como o “poder divino” ou a “vontade divina”. Segue-se que os deuses eram numinia, manifestações sem rosto e sem forma, mas não menos poderosos que os deuses antropomórficos, que só viriam a surgir após o resultado da influência dos etruscos e dos gregos. Antes, o conceito de numen se relacionava com qualquer manifestação do divino e tudo na natureza, qualquer coisa que seja, está contido na numina. Portanto, sem o “poder divino” da mesma, sem cada numen, o nomen se torna tão cadavérico como o corpo de um animal sem alma.

É por isso que fidelidade ao homem – comenta Ricardo Dip na Apresentação à Suma Gramatical da Língua Portuguesa – é fidelidade ao numen, fidelidade não apenas à realidade das coisas desveladas de seu mistério, mas fidelidade ainda ao próprio homem que exatamente pelo nomen, chega à revelação do mysterium. O numen de cada coisa, assim, corresponde a um nomen, a um ‘canto numinoso’ ou encanto que lhe é próprio” [2].


Notas

[1] Cf. DIP, Ricador. Apresentação. In: Suma Gramatical da Língua Portuguesa: Gramática Geral e Avançada. Carlos Nogué. 1. ed.  São Paulo: É-Realizações, 2015.

[2] Opt. cit.

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Categoria: Mitologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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