O problema da linguagem em Plotino

Discorrer sobre a linguagem em Plotino não é um encargo estático, compacto, antes, é uma corrente atualização do próprio discurso uma vez que sua filosofia não se pauta em meros significantes. Entender seu pensamento, portanto, não é o mesmo que inteirar-se acerca de aspectos qualitativos sobre o Um, o nous, a alma e o corpo. Foi sobre isso que muitos de seus comentadores atentaram: Plotino reconhecidamente é o filósofo que encontra palavras para dizer o indizível. A título de exemplo estão as teses de Bernardo Brandão que mostram o discurso filosófico em Plotino, tanto quanto no Elogio de Helena em Górgias, como uma espécie de encantamento[1]. Encantamento este tal como a maneira que a alma encontra, estando imersa em dores de parto (odínon), para o epaeído, isto é, a atitude de cantar um encantamento – diz Brandão: “o discurso filosófico pode se tornar uma espécie de encantamento que, ao ser meditado com freqüência, revela seu poder” – o discurso filosófico, isto é, nada mais que um guia adequado para se falar sobre o Princípio que antecede o Intelecto. Diz Plotino:

Quanto à linguagem. Não devemos estimar, a meu ver, que as almas a utilizem quando estão no inteligível ou quando têm os seus corpos no Céu. Pois tudo o que aqui eles trocam como palavras, devido às suas necessidades e à incerteza que experimentam, não poderia existir lá em cima (ekei): pois as almas, realizando cada qual seus atos de maneira ordenada e conforme à natureza, não têm nem ordem nem conselhos a dar e elas se compreendem mutuamente por uma consciência imediata. Pois mesmo aqui embaixo, quando as pessoas guardam silêncio, podemos compreender muitas coisas através do olhar. Mas lá o corpo inteiro é puro, cada um é como um olho, nada é escondido nem falso, mas basta ver alguém para compreender seu pensamento antes mesmo que tenha falado[2].

Este guia é senão uma linguagem negativa, catafática, apofática e afairética que, se aludida através de recursos gramaticais, não é por ter o fim de prender-se a significantes sensíveis mas a significados reais. O Um[3] é inefável, por conseguinte, não pode ser objeto de discurso, nem de escrito, mas se dele falamos ou escrevemos, diz Plotino, “é para nos conduzir a Ele, para encorajar a visão, com o auxílio do discurso, como se indicássemos o caminho a alguém que quer ver alguma coisa”[4]. Até mesmo quando o filósofo diz que ele é “causa” não é a ele que atribui um predicado, mas ao falante, pois são os enunciadores quem têm qualquer coisa que vem dele, enquanto “ele” “é” em si mesmo. Nesse sentido, se o “Um” “é”, é enquanto recurso da linguagem para a “ele” ser atraído – similarmente no Parmênides de Platão (142a), o Um não tem nome – “Logo, tampouco é nomeado, nem enunciado, nem objeto de opinião, nem é conhecido, nem o percebe algum ser”.

Por esse ângulo a filosofia é, como descreve Combés-Westering, um estado que antecipa o próprio fracasso da linguagem, mas por outro lado a sua preparação, a sua “gestação aporética”, a saber:

O estado de gestação no qual se encontra a alma que busca dizer os primeiros princípios, como o um e o inefável, sem jamais chegar ao parto mesmo. De um lado o pensamento busca conhecer por meio da analogia e da negação, o que deveria ser o termo da concentração, da simplificação e da purificação de que ela é capaz; de outra parte ela reconhece que não conhece este termo, pois o que ela alcança é apenas seu próprio estado e seu esforço de despojamento. Entretanto, ela reconhece a distância que separa sua experiência de sua meta, pois o que ela não alcança e não pode alcançar se torna sempre signo que delimita todas as relações. É assim que a alma adivinha o que não pode dizer. Estas gestações jamais alcançam o seu fruto, mas elas supõem uma fecundação inefável. Esta doutrina das gestações aporéticas evoca um modo de “conhecimento” unitivo no qual o conhecimento se afunda e se desfaz enquanto conhecimento.[5]

Modo este cujo ínterim não é inteiramente novo. Plotino se dizia um exegeta de Platão[6], mas não no sentido hodierno de “exegese”, e sim naquele que não se limita à interpretação e comentário de seu Mestre[7]. Outrossim, intuitivamente (synesis) vai além; Plotino encontra respostas platônicas, mas não as respostas de Platão[8]. Dos diálogos platônicos, compreendendo a relação hierárquica entre o “mundo inteligível” e o “mundo sensível” por exemplo, Plotino reconhece os limites da linguagem, a ilusão da ciência, a sua falácia[9] mas simultaneamente uma linguagem que “revela escondendo e esconde revelando”, uma linguagem aporética.

 

A aporia, destino inexorável da linguagem, em sua agonia semancia diante do Inefável, mais que um impedimento, torna-se nas mãos dos filósofos neoplatônicos, instrumento capaz de remover os entraves que a dualidade imposta pelo pensamento, mesmo o mais elevados, promovem. Em seu extremo, a linguagem se inverte,[10] o que poderia ser entendido como uma mudança de perspectiva na medida em que, no limite não há mais distinção entre sujeito e objeto e aquele que vê se torna ele mesmo objeto de visão e visão.[11].[12]

Esta aporia leva Plotino ao “hoîon”, ou seja, a dizer que “aquilo” “é” “como se fosse” (hoîon) “isso” e “aquilo outro”, “o que vimos com os nossos olhos, pressentimos com a nossa alma e intuímos com o Intelecto” aquilo que “sempre soubemos sem saber dizer”[13]. Nesse sentido sua linguagem é mântica, é uma inspiração, uma possessão do discurso que, ainda assim, precisa de uma técnica, um método ou uma conduta (epitédeusis) que faz o filósofo subir onde é preciso ir[14]; e este método é a dialética, que é simultaneamente uma técnica de purificação ética, ou em outros termos, a disciplina a qual a alma se impõe para ascender ao Bem[15].

Assim como a alma humana, a linguagem possui três atividades: a que intelige e se volta para o mundo inteligível através da dialética (dialektiké), a que se conserva pelo pensamento discursivo (diánoia) e a que age pelo raciocínio (logismós)[16]. Esse último, ou seja, a lógica (logikén), uma vez que trata de proposições e silogismos, podendo ser caracterizado como uma técnica de análise da linguagem, é uma prática própria ao mundo sensível e não se ocupa das formas[17]. É exatamente esta definição que define os limites da lógica; ao contrário, se a lógica fosse a sede das formas, ou melhor, o Intelecto mesmo, ser e dizer se implicariam mutuamente. Nem a linguagem proposicional nem a linguagem humana implicam propriamente o ser, no máximo o desdobram na sucessão lógica, no discurso materializam os inteligíveis tendo o ar por matéria,[18] o elemento fônico corporificado, a exteriorização, o pensamento discursivo. Por isso O’Meara defende que a linguagem em Plotino é “uma imagem do pensamento, uma exteriorização e materialização deste no ar, sob a forma de sons”[19].

Como o discurso vocal é uma imitação do que está na alma, assim também o que está na alma é imitação do que está em outro. Como o discurso pronunciado está dividido, se comparado com o da alma, assim também o que está na alma, se comparado com o anterior a ele, do qual é intérprete.[20]

Esta linguagem é senão uma maneira de sensível de expressar uma consecução lógica (akolouthía)[21]. Por outro lado, a dialética, tendo por objeto o inteligível, é o caminho metódico para chegar ao Intelecto a partir da definição das formas, seres ou essências inteligíveis.

Para compreendermos adequadamente a passagem, devemos ter em mente a noção dos múltiplos níveis da realidade, na qual os níveis posteriores são imagens menos unificadas dos anteriores: o Intelecto é uma imagem mais sujeita à multiplicidade que o Um, a Alma é uma imagem do Intelecto etc. Usando a ambivalência do termo lógos, que pode significar tanto a palavra e o discurso proferido, quanto o pensamento, Plotino pensa a relação entre linguagem e pensamento a partir das noções de anterioridade e posterioridade: o lógos proferido é uma imitação (mímema) do lógos que está na alma, que, por sua vez, é uma imitação do lógos anterior, ou seja, das formas inteligíveis do Intelecto. Assim, enquanto as formas inteligíveis seriam o lógos do Intelecto, o pensamento discursivo seria o lógos da alma e a linguagem seria o lógos que se manifesta, como som, no sensível.[22]

Assim o discurso filosófico funciona como um ensino sobre os primeiros princípios e a necessidade de a eles se dirigir. Caso não houvesse Plotino não passasse pela dialektiké, pela diánoia e pelos logismós, sua ascensão não teria um caráter filosófico como, por exemplo, fizeram os gnósticos, censurados por Plotino uma vez que não discursaram sobre a virtude nem ensinaram como se pode ascender ao divino através da instrução sobre o trópos (conduta) e mekhané (mecanismo). Enquanto práxis, o discurso é um auxilio, enquanto poíesis, um produto da contemplação.


Referências Bibliográficas

BAL, Gabriela. Em busca do “Não-lugar”: A linguagem mística de Plotino, Jâmblico e Damáscio à luz do “Parmênides” de Platão. 2010. 197 p. Tese – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). São Paulo 2010.

__________. Silêncio e Contemplação: Uma introdução a Plotino. São Paulo: Editora Paulus, 2007.

 BARACAT JUNIOR, José Carlos. Plotino, Enéadas I, II e III; Porfírio, Vida de Plotino. Introdução, tradução e notas. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem. Campinas, 2006.

BRANDÃO, Bernardo. A União da alma com o intelecto na filosofia de Plotino. Kriterion: Revista de Filosofia, Belo Horizonte, v. 48, n. 116, p. 453-466, jul./dez. 2007.

 ______________. Ascensão e discurso em Plotino. Kriterion: Revista de Filosofia, Belo Horizonte, vol. 55, no.130, 2014.

HADOT, Pierre. O que é filosofia antiga? São Paulo: Loyola, 1999.

OLIVEIRA, Loraine. Notas sobre Lógica e Dialética na Enéada de Plotino. Trans/Form/Ação, São Paulo, 30(2), 167-178, 2007.

ULLMANN, R. A. Plotino – um estudo das Enéadas. Porto Alegre: Edipucrs, 2002.


Notas

[1] Bernardo Brandão, Kriterion vol.55 no.130 Belo Horizonte Dec. 2014.

[2] Plotino, Tratado 27 [IV 3], 18, 13-24

[3] “Nós o chamamos de “Um” por necessidade, para podermos por este nome designar uns aos outros esta natureza, conduzindo-nos assim a uma noção indivisível e querendo assim unificar a nossa alma” (9 [VI 9], 5, 43-40).

[4] Enéada 9 (VI 9), 3, 49-55.

[5] Cf. COMBÉS-WESTERINK. Damascius: Traité des Premiers Principes. Tome I. De l’lineffable et de l’Un, p. 134-135, n.1

[6] “Nossas teorias não são novidade, nem são de hoje, mas foram enunciadas há muito tempo, não explicitamente, e essas nossas teorias de agora são a exegese daquelas, cuja antiguidade nos é atestada pelos escritos do próprio Platão” (V. 1 [10]8. 10-14).

[7] O Divino Platão (Enéada 6 [IV 8], 1, 23-24; 50 [III 5], 1,7-8)

[8] JÚNIOR, Baracat, 2006, p. 38.

[9] Gabriela Bal, 2010, p. 29.

[10] Jean TROUILLARD, em La Purification Plotiniene. Paris: Presses Universitaires de France, 1955, pp. 98-99, fala que “o pensamento é a inversão do extâse”.

[11] Sobre a visão e o ato de ver em Plotino: 1 [1 6], 8, 1-4; 1 [I 6], 9, 1-33; 9 [VI 9], 11, 1-4; 9 [VI 9], 9, 47; 9 [VI 9], 11, 23-33; 10 [V 1], 7, 5-7; 9 [VI 9], 10, 6-24.

[12] Gabriela Bal, 2010, p. 31.

[13] Gabriela Bal, 2010, p. 50-51.

[14] I, 3 [20], 1, 1.

[15] Cf. CHARRUE, 2003, p. 469.

[16] Cf. LACROSSE, 2003, p. 120.

[17] OLIVEIRA, 2007, p. 168.

[18] Cf., VI, 1 [42], 5, 5.

[19] Cf. O’Meara, 1990, p. 154

[20] I, 2, 3, 27-31.

[21] Cf., JANKÉLÉVITCH, V., Plotin, “Ennéades” I, 3. Paris: Cerf, 1998, p.62.

[22] BRANDÃO, 2014.

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Categoria: Filosofia Antiga, Filosofia da Linguagem

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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