O razoável e o racional em John Rawls

rJohn Rawls, em sua Conferência II sobre O Liberalismo Político, discorre sobre As capacidades dos cidadãos e suas representações, tratando, nessa temática, de como indivíduos razoáveis fundamentam um pacto de convivência, cujo fim é tornar harmônica a diversidade de doutrinas razoáveis proferidas pelos cidadãos, encontrando assim um consenso sobreposto acima de toda e qualquer diferença particular. Isso ele faz a partir de dois conceitos fundamentais: a ideia do razoável e a ideia do racional.

Tratando-se da primeira, Rawls fala que “as pessoas razoáveis (…) desejam, como um fim em si mesmo, um mundo social em que elas, em sua condição de livres e iguais, possam cooperar com as outras em termos que todos possam aceitar, insistindo que a reciprocidade vigore nesse mundo, de modo que cada pessoa se beneficie juntamente com as outras”[1]. Em vista disso, o razoável, em sociedade, é senão um sistema de cooperação equitativa cujos termos são razoáveis à aceitação de todos.

O racional porém é uma ideia diferente do razoável. Pois enquanto o razoável leva em conta o mundo público dos outros, o racional se dirige ao particular, aplicando-se à realização de fins e interesses particularmente seus; ou em como estes serão adotados, promovidos e priorizados; e também à escolha dos meios mais eficientes para tal. Assim, os agentes racionais, diferente dos razoáveis, “não têm a forma particular de sensibilidade moral subjacente ao desejo de se engajar na cooperação equitativa como tal, e de fazê-lo em termos que seria razoável esperar que os outros, como iguais, aceitem”[2].

Um agente razoável porém encontra em seu juízo uma limitação: a razão teórica tem seu limite, limite este que todas as pessoas sem exceção estão submetidas; e porque nem todos os agentes razoáveis professam a mesma doutrina abrangente, no fim, a doutrina que um indivíduo razoável professa é apenas uma doutrina razoável entre outras, afinal, não é possível que todas as doutrinas razoáveis sejam verdadeiras (e é até possível que nenhuma delas o seja)[3]. Contudo, ao professar o que professa, é claro, uma pessoa acredita que sua consideração seja verdadeira, enquanto uma outra o faz a partir de um julgamento particular absolutamente oposto. Como solucionar tal impasse?

Ora, em seu Liberalismo Político, Rawls acredita que a solução se dá pela simples consideração de que não é razoável que pessoas razoáveis usem o poder político para reprimir visões abrangentes que não deixam de ser razoáveis[4], e nisso se sobrepõe o consenso.

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[1] Conferência II, §1, 1.

[2] Conferência II, §1, 2.

[3] Conferência II, §3, 2.

[4] Conferência II, §3, 3.

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Categoria: Ética e Cidadania, Filosofia Contemporânea, Filosofia Social e Política, Política

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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