O problema da tradução à luz de Heidegger e Carlos Nougué

Entre os textos filosóficos é muito difícil, de um idioma ao outro, alcançar uma tradução acabada. Com a tradução costumamos perder muito: o indicativo original; o signo “x” que, i.g., quase perfeitamente se aplica no alemão mas não no português; a linguagem originária do “pai” ou “mãe” da obra. Aliás, antes mesmo de traduzir uma expressão à outra, o escrito em sua língua materna em suma já é uma “tradução pela palavra” de uma coisa que em si é intraduzível. Nesse sentido a tradução de um idioma para um segundo se manifesta como uma “tradução da tradução do intraduzível”. Por isso, como sugeriria Heidegger (1983: 456), a interpretação e a tradução são somente uma e única coisa e toda tradução é em si mesma uma interpretação quase sempre duvidosa.

Contudo, embora a tradução tenha uma genealogia “intraduzível” e necessariamente faça “sua própria experiência, singular, da letra” (TORRES, FURLAN & GUERINI), não podemos negar a existência de um “corpo mortal” da palavra, ou antes de um corpo fixo, de uma gramática fidedigna à língua, caso contrário a tradução seria tão “intraduzível” quanto a coisa a qual anuncia; ela seria um tipo de ruído exterior à comunicação formal. É por isso que Carlos Nougué nos diz: “Deixada à deriva, sem regras que a dirijam, (…) a língua seria como as águas de um rio, puro fluxo, ao ponto de não poder falar-se duas vezes como a mesma língua. Isso, no entanto, é pura negação do óbvio: é parte intrínseca de toda e qualquer língua ter regras: é o dique ou comporta sem a qual ela de fato fluiria e fluiria sem nenhuma permanência” (In: Suma Gramatical da Língua Portuguesa).

Efetivamente o que com isso Nougué sugere é que sem regras, a língua sequer poderia propor sua tese – simplesmente porque ela sequer seria alguma língua. Tal fundamento não quer dizer que as línguas não têm em si a “fluidez de um rio”, mas que antes elas precisam de um dique e de um curso que lhes ajude a atingir “a foz da Sabedoria”. A este dique, a este curso, chamamos a Gramática, a”arte da Linguagem”, uma das sete artes liberais que por um lado carrega consigo um aspecto especulativo (os ditames da razão), e por outro um prático, e isto é a chamada “tra-dução”.

A Linguagem, diz Nougué (opt. cit),

Tende a refletir em suas construções a própria constituição da realidade. É o que se dá com as diversas classes de palavras, as quais expressam de alguma maneira as dez categorias ou gêneros máximos do ente, a saber: a substância e seus nove acidentes: quantidade, qualidade, relação, lugar (ou onde), tempo (ou quando), situação (ou posição), hábito (ou posse, etc), ação e paixão (ou ser paciente de uma ação). Não é difícil notar que a classe do substantivo exprime as ‘substâncias’ ou os ‘acidentes tratados como substância’; que o adjetivo corresponde à ‘qualidade’ – e à ‘relação’, à ‘situação’, à ‘posse’, etc., entendidas a modo de qualidade; que o verbo expressa, propriamnete, a ‘ação’ e a ‘paixão’, mas também a ‘posse’ entendida como ação de possuir, etc.; e que o advérbio não só se ocua do ‘tempo’ e do ‘lugar’, mas se aplica a qualquer forma passível de receber mais ou menos, ou seja, de ter certas modalidades.

Ora, falamos que a Linguagem tende a (poder-se-ia dizer: tenta) expressar os gêneros máximos do ente, donde pode-se deduzir que ela parte também de um outro ou mesmo ente; de um “sujeito da Gramática”; de um “sujeito do conhecimento”; de um “sujeito que traduz”. Numa oração linguística, é desse sujeito que “se radicam todas as demais coisas que a arte ou a ciência consideram, a saber, suas partes, suas propriedades, suas causas e e seus efeitos” – e é este sujeito que está a traduzir o mundo na Palavra e pela filosofia mais ainda, porque ele dá, por assim dizer, “um salto em que se vê o que diz a palavra” (NIEMEYER, 1971). Assim sendo, a primeira tradução (a filosofia do filósofo) já carrega consigo um empecilho, que é o próprio ato de traduzir, a segunda, ainda mais, como “o traduzir do traduzir”, enfrenta uma póstuma dificuldade: encontrar, em duas línguas distintas, palavras que tenham i) uma mesma categoria formal e ii) sensibilidades e ânimos iguais.

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Categoria: Artes e Letras, Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Linguagem

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. O Derrida em sua obra Força de Lei, ele aponta esta problemática partindo de “to enforce the law”, que traduzido para o francês, língua do autor e também para nós brasileiros, na doutrina jurídica pátria, ficaria “por aplicar a lei, aplicar a lei”, abstraindo desta forma o caráter da força existente na expressão, que de certo significa “para forçar a lei”; problema este que em parte atrapalha o conhecimento geral do direito que tem em seu seio claramente a coercibilidade. Um problema de “tradução”.

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