Tradicionalismo, Liberalismo e Feminismo

Recentemente fui convidada para palestrar sobre a Cosmovisão Judaica, matéria muito importante para o desenvolvimento tradicional de todos os indivíduos. Muitos dos meus queridos amigos, interessados em ouvir-me, pediram para que eu começasse a veicular meus aprendizados dentro do Judaísmo, Cristianismo e Tradicionalismo. Decidi então, como leitora do FiloVida, me integrar ativamente ao Portal fazendo de início uma formulação sobre um texto que li no mesmo, qual seja, o Feminismo e Ideologia de Gênero numa perspectiva Tradicional.

Antes de qualquer comentário externo, vale destacar que concordo integralmente que:

  1. o papel e a vivência do feminino não pode ser resgatado pela Modernidade uma vez que ela é a verdadeira causa de sua destruição;
  2. o retorno do feminino proposto pelo feminismo é meramente exterior à feminilidade, pois mantém a estrutura racionalista da sociedade moderna que impede sua efetivação;
  3. por parte do projeto político e da revolução feminista como fato social, a mulher deixa de ser um “sujeito a libertar-se” e se torna um “objeto a ser destruído” por ela mesma;
  4. tanto o feminismo quanto o machismo são lados da mesma modernidade anti-tradicional.
liceu

Filosofia grega

No que tange a outros de meus aprendizados, este problema decorre antes mesmo do projeto moderno consolidado com a Revolução Industrial e o desenvolvimento do Capitalismo. Sua problemática, na realidade, está fraccionada por diversos tempos históricos do Ocidente, a começar pelo surgimento da Filosofia por si. Toda filosofia não-religiosa, em certo sentido, é uma atividade de convencimento, de auto-pistis (literalmente, fé em si mesmo), mesmo aquela que critica qualquer forma de sofisma. Não é preciso ser nenhum Protágoras para tomar a si como a medida de todas as coisas. Por desvelo do óbvio, basta ser um platônico para por si mesmo – “alegoricamente” – inventar mitos exteriores à revelação, advindos da sua própria cabeça.

Vejam que o filósofo que fala por mitos não mais precisa se apoiar numa tradição, ele se autoproclama (ou simplesmente o faz) com o direito de aurir ideias particulares e com elas a muitos homens convencer, persuadir, dominar. Mesmo o filósofo que fala por outras vias pode inventar fundamentos, pressupostos, tomar o provável como o verdadeiro a partir de nada menos que seus sentidos, suas intuições, suas fantasias. Nesse sentido, seja em Platão, nos sofistas ou nos modernos, com a supervalorização da razão ocidental o homem passa a “‘compreender para crer’ em filhos de homens”.

Notem, porém, que não estou dizendo que o valor da razão é vicioso ou equivocado. Quero mostrar apenas como a razão, que em si é uma perfeita faculdade da alma humana, ao ser regida por valores hierarquicamente maiores que os que tem, perde a sua função original, qual seja: compreender a Natureza a partir do que nos foi revelado ou nos cabe saber. Sabe-se lá com qual coragem, com a filosofia clássica e mais tarde com a ciência moderna, a razão se tornou oposta e exterior à racionalidade no que tange a sua função. A razão se tornou a criadora dos princípios que lhe criaram e com isso, ela deixou de se sustentar em qualquer categoria real; é por isso que a Filosofia foi, por assim dizer, a modernização clássica da mitologia e do hiperreal.

Dito isto podemos chegar à questão da mulher, especialmente tomando como base os textos do Rabino Joel H. Kahan, quem com êxito observou como a tradição do deserto do Médio Oriente, mais tarde, recebeu forte influência do seguinte ditado helênico citado por Platão e Sócrates:

Há três bênçãos para agradecer o destino:
A primeira – que nasci ser humano e não animal;
A segunda – que nasci homem e não mulher;
A terceira – que nasci grego e não bárbaro.

Assim, a partir de Kahan, podemos observar o seguinte: o grego desejava ser humano (não-animal) não em virtude da sua faculdade noética, mas por causa de sua racionalidade. O mesmo podemos dizer sobre ser homem e não mulher. Ele queria ser homem por causa do acidental (empírico) caráter masculino de participação exclusiva na cidadania da pólis, e não devido ao simbolismo metafísico do sexo masculino.

Por tal razão basta retornar às raízes judaicas para ver como o sincretismo (modernização clássica) com o mundo grego devastou o verdadeiro papel da mulher (e também do homem). Na época bíblica as mulheres dos Patriarcas eram as Matriarcas, mulheres que tinham voz no campo privado e público, que participavam ativamente das celebrações religiosas e sociais, dos atos políticos e do plano econômico. Com o passar do tempo, tendo sofrido influência dos gregos no período talmúdico, os judeus excluíram as mulheres da atividade pública resguardando-as ao lar. A educação então passou a ser voltada ao homem, o que afastou ainda mais o feminino da racionalidade em sentido estrito.

Com o passar do tempo, entre diversas culturas, sobretudo aquelas que herdaram hereticamente a tradição abraâmica, o pior tipo de erro foi incentivado entre os homens: a auto-pistis. Pela auto-pistis o individualismo foi supervalorizado e a Tradição original foi reformada, adulterada, distorcida. Entre os não-religiosos o quadro se tornou ainda mais drástico: passou a ser comum a ideologia segundo a qual o homem não pode ser submetido a ninguém (nem mesmo a Deus ou a Natureza), sendo as regras pessoais que movem a existência, a fé, o conhecimento. Desde então o direito natural deixou de se referir ao conjunto humano segundo a ordem divina e veio a ser o direito individual do homem depositário da razão.

Liberalismo Político e Econômico

Liberalismo Político e Econômico

Sucessivamente, com o advento do Liberalismo em oposição à Monarquia, segundo Dumont, as justificativas da fomentação do Estado foram extraídas, ou deduzidas, das propriedades e qualidades inerentes no homem, considerando-o como um ser autônomo, independentemente de todo e qualquer vínculo social ou político. Ao lado do “homem independente de tudo e de todos”, inclusive da própria Natureza, apareceu a ideia de que a primeira absoluta propriedade humana é o corpo. Mas como é possível pensar o homem em absoluta autonomia, senão distanciando-o da realidade e por conseguinte da verdade? Para muitos não há uma resposta certa, contudo, para o feminismo, que sem dúvidas se alicerça no liberalismo, decerto há.

Associado ao “pilar da emancipação” e ao testemunho de outros modos de ser e compreender o mundo com base em si mesmo, o feminismo moderno se torna “a antítese de tudo o que tradicionalmente simboliza o feminino”. No entanto, sem a “natureza da mulher”, como é possível “ser mulher”? Sem o retorno à Tradição, a mulher provém do vazio, permanece no vazio, não tem sustentação teórica nem prática, se torna a possibilidade de ser qualquer coisa. Todavia, qualquer coisa é coisa alguma; tudo o que é geral demais deixa de ter identidade, logo, com o feminismo, com a ausência simbólica tradicional do feminino, a mulher perde a sua identidade – e isso é o oposto de qualquer emancipação ou de qualquer supressão do machismo.

Para finalizar, no plano concreto das escolhas reais (já que não pretendo conduzir a questão apenas teoricamente), tomando como eixo o que disse Luiz Gonzaga  (2014), enquanto o experimentalismo moderno só teve por efeito nos obrigar a conviver com multidões de viciadas e viciados em pornografia, pílulas, brinquedos e dietas, as doutrinas tradicionais trouxeram para as mulheres (e para os homens) a companhia de multidões de santas e santos.

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Categoria: Cotidiano, Filosofia, Filosofia Social e Política, Judaísmo

Maria Warshawiak

Sobre o(a) Autor(a) ()

Criada numa família judaica, fui abençoada por ter um tio judeu messiânico. Através dele cresci ouvindo as histórias de Yeshua. Hoje além de seguir o Cristianismo, me dedico a estudar o Tradicionalismo e as Letras Clássicas.

Comentários (5)

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  1. A educação sexual no seio da família cristã : FiloVida | 24/10/2016
  1. Maria, seu texto está muito bom! Parabéns! Gostaria que você lesse um texto que escrevi sobre um dos temas abordados (o problema da absoluta propriedade do corpo), segue o link: http://filovida.org/meu-corpo-minhas-regras/

  2. Douglas Zílio Coutinho disse:

    “Vejam que o filósofo que fala por mitos não mais precisa se apoiar numa tradição, ele se autoproclama (ou simplesmente o faz) com o direito de aurir ideias particulares e com elas a muitos homens convencer, persuadir, dominar.”

    Bastante interessante, Maria. Torço para que, em breve, publique mais textos.

  3. Ana Elizabeth Ana Elizabeth disse:

    Como feminista eu discordo do viés que o texto toma para sair do problema da Modernidade. A grande maioria das feministas é contra a Modernidade principalmente as que fazem filosofia. Nós sabemos que a filosofia Moderna é machista, assim como a filosofia clássica é machista e o departamento de filosofia das universidades de hoje é machista. Tentamos fazer uma nova filosofia a partir do pensar mulher e não a partir do pensar moderno. Sabemos como o mundo ocidental é machista e o modelo socio-econômico liberal é problemático. O movimento feminista pode ter emergido com o liberalismo econômico mas isso não quer dizer que as feministas de hoje são liberais ou neoliberais. Agora certamente o que não defendemos é um retorno para o pensar das tradições antigas. Além disso ser impossível, a “tradição” também tem uma linguagem infundada. Esse é um problema epistemológico seríssimo (do conhecimento e da linguagem). A linguagem é primeiramente (e não secundariamente) um fenômeno social, por isso assim como no texto a autora defendeu que o filósofo tira ideias/mitos de sua própria cabeça, as tradições não-filosóficas fazem o mesmo. As religiões são diversas (logo os fundamentos são diversos) e não existe uma tradição homogeneamente fundada. Os judeus eram um povo puro? Não. Os hebreus têm origem a partir de um sincretismo entre povos ainda mais primitivos, então antropologicamente vamos sempre ter esse movimento de mistura entre povos e ritos. Portanto, a maneira como o homem e a mulher interpreta o mundo não é homogênea nem direta e não é possível fugir disso. No mundo humano tudo é linguagem e linguagem alguma das mais tradicionais às mais pós-modernas é pura, logo a perspectiva tradicionalista é infundada e utópica. Todavia, a partir do dogma da “revelação”, até entendo que você vai discordar disso, mas esse debate é intransponível entre nós, não-religiosos e religiosos, por isso não vou entrar nele, mas vou pensar socialmente. Do ponto de vista social não há como retornar aos fundamentos de determinada tradição porque a pluralidade de tradições “originais” é imensa e a pluralidade de religiões também. Dessa forma só nos resta viver numa sociedade laica, caso contrário nunca vamos abranger a todas e a todos, mulheres e homens. Assim sendo temos que sair dos problemas modernos não olhando para trás, mas olhando para frente num mundo novo onde as mulheres são iguais aos homens a partir da pluralidade de ideias, religiões e não religiões; e é isso que o feminismo defende.

    • Comentarei sobre o que disse Ana Elizabeth acima. Em primeiro lugar, reconhecendo sua posição segundo a qual é inexequível debater aqui a questão pela ótica puramente religiosa, tomo, então, a problemática de modo filosófico que, tal como disse ela, é um problema epistemológico seríssimo.

      E é exatamente devido a sua seriedade que não podemos esgotar sua solução no “fato” de que a linguagem “é um fenômeno social”. Se seguíssemos sua linha de pensamento, como poderíamos tirar daí um “fato”, um resultado acabado, um dado objetivo (e não uma interpretação)? Há aí controvérsias: por exemplo, vejam Agostinho; nas Confissões o Santo diz que ainda quando era garoto aprendeu a falar a partir de si mesmo (e não dos outros, da sociedade). Os mais velhos serviam apenas como referência de apreensão por meio de gestos, reações e movimentos de reconhecimento; mas a razão motriz e o fundamento para o seu desenvolvimento linguístico foi a partir de um princípio interno seu (sumamente relacionado com o “desejo de algo”). De acordo com ele, a criança, que não suporta a incapacidade de transmitir desejo aos outros, aprende a falar. Nesse sentido, não é a fala que é “primeiramente (e não secundariamente) um fenômeno social”, mas o modo como se fala (por ex. uma língua x e não y).

      Adiante, sugerir que “tudo é linguagem no mundo humano”, se uma linguagem isolada, puramente subjetiva, isso ressoa, diria Hegel, em quando “o saber recai ao nível da opinião”. Sobre isso diz ele (In: Ciência da Lógica): “O entendimento humano comum, voltado contra o logos, faz valer a opinião de que a verdade repousa sobre a realidade sensível, que os pensamentos são apenas pensamentos, no sentido de que primeiramente a percepção sensível lhes dá conteúdo e realidade, que a razão, ao permanecer em si e para si, apenas produz quimeras. Nessa renúncia da razão a si mesma perde-se o conceito da verdade; a razão fica restrita a reconhecer somente a ‘verdade’ subjetiva, apenas o fenômeno, apenas aquilo a que não corresponde a natureza da questão mesma” – e sem a questão mesma não é possível fazer filosofia – quem dirá uma “nova” filosofia, e em particular, a levantada pela Ana, uma “nova filosofia feminista”. Penso, aliás, que não é preciso de uma “nova” filosofia para que as mulheres pensem filosoficamente ou sejam filosofas; isso nem mesmo possível. A filosofia é uma continuidade do que iniciou Tales lá em Mileto; e não uma ruptura, uma novidade.

      Voltando a natureza da questão segunda, realmente fico pensando na absurdidade da proposta de tudo ser linguagem. Como é possível? A linguagem humana surge do nada? Ou melhor, não tem relação com nada? É ignorada possibilidade de uma lógica objetiva? De uma lógica do ser? Da essência? Do conceito puro? De uma razão transcendental? Ou mais simplesmente (“ceticamente”) de um apontamento às coisas do mundo?

      A formulação linguística, ao contrário, não deve ignorar as coisas muito menos a possibilidade de conhecer. O conhecimento mesmo deve ser o início. Por isso devemos tomar, diz Hegel (opt. cit), o puro Ser como início: “O ser é o que inicia, exposto como surgido por meio da mediação e, na verdade, por meio da mediação que é ao mesmo tempo a superação de si mesma; com a pressuposição do saber puro como resultado do saber finito, da consciência. Mas se não deve ser feita nenhuma pressuposição, o início mesmo deve ser tomado de modo imediato, então ele apenas se determina pelo fato de que tem de ser o início da lógica, do pensamento por si mesmo. Apenas está presente a decisão, que também pode ser vista como uma arbitrariedade, a saber, que se quer considerar o pensamento como tal. Assim, o início tem der ser início absoluto ou, o que aqui significa a mesma coisa, início abstrato; assim, ele não pode pressupor nada, ele não pode ser mediado por meio de nada, nem possuir um fundamento; ele deve antes ser ele mesmo o fundamento da ciência inteira. Ele tem de ser, por conseguinte, pura e simplesmente um imediato ou antes apenas o imediato mesmo. Assim como ele não pode ter uma determinação diante de outra coisa, do mesmo odo ele não pode também conter nenhuma nele mesmo, nenhum conteúdo, pois o mesmo seria a diferença e a relação do que é distinto um para com o outro, ou seja, uma mediação. O início é, portanto, o ser puro”. Ora, é desse modo, e não de outro, que se deve começar uma ciência formal – e assim é possível pensar no que não é “social”/”opinião”, ainda que se enuncie segundo o social. Por ex, a variação gramatical sendo o social, o “como é”, e a estrutura lógica formal sendo “o que é”, o objetivo. Decerto o “como é” (português e não inglês, por ex) poderia ser de outro modo, mas “o que é” não (que “x=x”, por ex).

      As tradições originais partiam bastante desses princípios, lógicas, de ciências tradicionais – e não de um fator puramente subjetivo ou opinativo. Os tradicionalistas, ademais, sugerem que as sociedades e os “eventos sociais” não resultam tão-só da vontade pessoal ou de uma imposição deliberada de um grupo, mas antes, de uma criação. Nesse sentido, eles têm fundamentos que, se considerados, não são infundados nem intangíveis tal como o subjetivismo da linguagem pós-moderna.

      É por isso que as coisas e o modo como delas se fala não pode ser reduzível à razão do homem. Há princípios superiores e conectivos, a exemplo do citado (acredito) princípio noético, o nous, que a cristandade patrística considerou como pertencente ao homem. Assim sendo concordo com Maria no seguinte: “Sem o retorno à Tradição, a mulher [e tudo o mais] provém do vazio, permanece no vazio, não tem sustentação teórica nem prática, se torna a possibilidade de ser qualquer coisa. Todavia, qualquer coisa é coisa alguma; tudo o que é geral demais deixa de ter identidade”.

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