Estragos

| 05/10/2016 | 2 Comentários

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Ela veio, fez um pequeno estrago e foi embora. E então começa a tragédia prosaica, quando se torna perceptível a manifestação desenfreada do ódio reivindicando o amor, ou melhor, da falta dele, da procura dele. Quando o temos sentimos-nos completos, a vida passa a ter um roteiro cinematográfico e toda monotonia alienante do cotidiano perde sua influência, se ausenta calada, amargurada e triste – ao passo que a existência se torna, nem que por um segundo, digna de ser vivida. Em contrapartida, na sua ausência, somos verdadeiros zumbis; potenciais suicidas sem nexo com a afetividade; emaranhados de artérias e dum sistema nervoso cuja única finalidade é a de continuar vivo, friamente vivo, patologicamente vivo, mecanicamente vivo.

Vita

Ela, por isso, me disse que sem paixão a vida não tem graça. Ora, vejam só! É claro que não! Onde mais conseguiríamos apoiar nossas indecisões? Como poderíamos enfrentar o cotidiano sem a consciência de que “alguém antecede por nós”? Fazemos isso com pessoas, fazemos isso com deuses! Fomos criados para a dependência alheia! O homem é o único animal que não sobrevive sem o cuidado; de início precisamos dos pais, depois das paixões, depois dos filhos e por último de uma cadeira de rodas e seringas nas veias…

Mas voltemos ao amor! Ao contrato de duas pessoas promovido pelo libido de ambas! A necessidade é humana; sua efetividade é imensa, e então, me dou conta de que, por um momento, por um milésimo de segundo, estou vivo e ainda posso amar, posso gostar de pessoas, posso me relacionar, posso depender, e isso é reconfortante. Mas não se apresse em dizer que estou errado! Eu sei que vocês já sofreram muito por isso, sei que já foram traídos, que depositar confiança em pessoas é dar oportunidade pra se frustar… Mas acalmem-se! Parem por um segundo e reflitam comigo…

Nem sempre chove no inverno, não é todo dia que pegamos ônibus, nem todo feriado é para descanso (assim como nem todo sábado a gente enche a cara). E é nesse ponto onde quero chegar, onde a exceção é via de regra; pois nem sempre, meu amigo, nem sempre amar pode gerar consequências desastrosas, e sempre, sempre, sempre poderemos extrair lições de tudo, principalmente daquelas pessoas que vem, fazem um pequeno estrago e vão embora.

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Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos

Ismar Dias

Sobre o(a) Autor(a) ()

Eu acredito na vida, por conseguinte; na morte, acredito em espíritos, na inexistência da existência de Deus, acredito que existem monstros no armário, eu acredito na beleza, e choro diante dela. Quanto a definição de quem sou, que importa dizer o que faço sem antes denunciar o que penso? Dedico aqui uma boa parte de mim; pois eu acredito no que escrevo.

Comentários (2)

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  1. Fico aqui, após seu escrito, com a pergunta: Quem é ela? Ela ressoa.

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