“Moio!”¹

Texto produzido e apresentado na cadeira de Tópicos de Filosofia Contemporânea IV. O programa da cadeira aborda o debate entre realistas e anti-realistas na história da filosofia da ciência. Exigência: 2 parágrafos sobre uma citação de Kuhn, tendo como roteiro os tópicos como foram abordados em aula.


Se, aproveitando meu engenho humilde,
Bem te penetras das razões que exponho,
Visto que um pensamento outro esclarece,
Não mais a escuridão de espessa noite
Há de roubar-te a estrada onde consigas
Em todo o arcano entrar da natureza:
As coisas uma vez conhecidas
Dão luz para outras conhecidas serem.

Tito Lucrécio Caro, De Rerum Natura

Thomas Samuel Kuhn (1922 — 1996)

Thomas Samuel Kuhn (1922 — 1996)

Para Kuhn, o mundo é como uma bicicleta — funciona. Não importa discutir os como’s dos porquês. Ding-an-sich: a coisa em si mesma — não nos compete. Sem acesso a ela, à coisa, o mundo dado é um dado adquirido; e como adquirido, não é passível de discussão — transcende a lógica. Ou seja, não está no domínio da linguagem. Kuhn coloca a discussão a este nível — e a este nível compreende o fenômeno. Não sendo filósofo por formação, e sim fisicista, para Kuhn o comportamental é o mais óbvio. Numa rede de relações, o ser, enquanto ele próprio, é ser que se revela numa rede de relações — um ser-no-mundo num mundo que já era mundo antes mesmo d’ele, o ser, o ser. Assim posto fica muito claro. “Embora o mundo não mude”, o tal mundo a que não temos acesso, em “uma mudança de paradigma” o que muda é a forma como se opera com o mundo² nesse mundo de relações a que ele denomina de “paradigma” no texto que estamos a tratar. O cientista, o teórico, é o prático: “trabalha” agora num “mundo diferente” (KUHN, 1962); diferente doutro daqueles onde habitavam outros vivos, herdeiros de outras histórias³.

Como se vê, o problema tem de ser debatido a este nível — ao nível da história. Porque o que nos compete é a história que recebemos, a história que nos permite operar sobre um mundo indeterminado. Naves, aviões, computadores e satélites, mundo de informações: neste mundo importa o que dele se faz enquanto possibilidade e enquanto possibilidade apenas se o compreende. Kuhn — realista ou anti-realista? Não importa — não encaixa. A bicicleta kuhniana funciona; e explica o que se passa. Isso basta.

Creio, dadas as limitações do texto; ciente de que qualquer tentativa estava fadada ao insucesso — assim, e desta forma, respondo ao problema que nos foi colocado em sala de aula. Agora discutam-no vocês. Esta é a minha resposta.

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¹ “Vida”, em bashilangen, língua da tribo africana. Cf. https://en.wikisource.org/wiki/1911_Encyclop%C3%A6dia_Britannica/Africa

² O mundo não como mundo-em-si (Ding-an-sich), mas a forma como o concebemos enquanto instrumento.

³ Enquanto ciência.

 

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Categoria: Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Ciência

Henrique Capeleiro Maia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Se publico tiro um retrato. Eis o meu registro público com que me publico, assim me tornando público. Dou assim parte parte de mim, a minha parte pública, a parte com que o público pode conversar, concordar ou discordar, refutar ou simplesmente ignorar. O público, na maior parte, nunca verá de mim mais que esta parte. Publicado o confirmo. É público este retrato — que tão mal me retrata.

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