A Fábula de Ernesto Mata 

Molécula de espanto; uma festa de átomos. Ernesto, junto à fogueira, esperava pacientemente por aquela brecha. De todas as conversas, calhava-lhe agora a vez de tomar a candeia do discurso. Suspirou. Tomou do ar profundo e expirando lhes disse:

No princípio era o átomo. Meu calhou o nome de Ernesto. Não o pedi; mas não me incomodou. Ernesto, portanto, lá fui primeiro fazer-me universo fantástico encarcerando o todo de toda a natureza. Grande viagem!

Quanto tempo estive, não vos reporto; perdi a conta de tanto dar as voltas ao mundo. Se tudo cá dentro e dentro de cá tudo, que outras histórias esperavam vocês ouvir ao redor desta fogueira senão a história de Ernesto o átomo que como átomo se fez todo de espanto de conter em si todas as histórias?

Pauso para vos olhar em volta. Todos vós aqui reunidos. Eu, Ernesto, chamo por Cidália; ela clama por Alexandre. Quem participa, passa por cima de todos. Que rica comédia! Olho em volta e o que vejo? Todas as histórias; todos os nomes; todas as vidas, todas as possibilidades; todas as mensagens — tudo. Eu, Ernesto, tudo; tal qual cada um de vocês. Eu, átomo, em tudo sido, tudo fui, tudo sou. De certeza que querem que continue?

Que a partir de agora cada estrofe minha, cada parágrafo, seja toda uma biblioteca toda, aquela que contém tudo, todas as coisas, todos os livros: os sido, a ser e a vir a ser publicados.

Se tudo quanto é livro já aqui se contém, por força será que tudo o que que for dito já por força dito está. Que fique claro, que se saiba já que não me compete arrogar-me a novidade quando a novidade, em si mesma, nunca nova ser poderá. Seja isto, apenas e só, um que meu de mim a mim próprio desabafo. Um diálogo comigo mesmo que convosco outros vós mesmo sendo em diálogo partilho. Se por acidente vislumbre comum se tornar possível, que como prêmio se lhe ajunte, e enquanto prêmio tu mesmo o guardes: é teu. De avisos meus me basto; ponho fim à divagação; de novo ao cerne de meu discurso volto.

Eu, Ernesto, sei que vos confundo. Não sou nem temo do tanto que me falta. Sou quase que absurdo, e como absurdo em átomo me apresento, fazendo-me discurso diante de vós outros, vós outros que comigo outros formam esta tão nobre assembleia. Eis o meu discanto daquilo que canto: poesia fantástico, passagem — meu périplo pelo universo humano!”

Ouvindo de Ernesto esta última palavra, vários foram os átomos que se sentiram incomodados. Vários, não poucos, tiveram que sair da roda. Os ânimos ficaram logo ali exaltados. Outros muitos queriam que se parasse ali, ali já mesmo, a festa. Acusavam Ernesto de heresias — culpável, condenável, indigno de permanecer entre aquela que se ti se tomava por notabilíssima assembleia.

Cresce o ruído, cresce o pânico. Todos e ninguém, já que ninguém se atinava com os outros. Todos; e ninguém. Ferve a panela. Cresce a tensão. Chocam-se átomos. Cresce o ruído. Explodem os ânimos.

“Assim, assim mesmo, começou a tal história que vos propunha”, falou Ernesto, com voz de trovão.

Fez-se silêncio na mata.

A pausa que se seguiu foi longa. Ninguém ousava quebrar o silêncio. O ambiente pesava. Quem tomaria a palavra? Logo alguém, como que ao desafio, gritou por Ernesto; e em voz de chiste, acrescentou: “se começas, é bom que acabes!”. Riram-se todos.

Ernesto puxou para si sua pesada caneca com água. De um só trago a bebeu toda, quase que crendo que poderia assim, nesse tanto de exagero, apagar todas as mágoas, esquecer todas as tragédias. Com ar grave, pesado, e profundo, de forma pausada, acercou-se do centro das atenções e das atenções o centro se tornou.

Oportunamente se apropriando da réstia de riso que ainda sobrava no grêmio, subiu-se de ares e em tom de conselho retorquiu: “assim sendo, imploro para que se sentem todos. Contar tudo é coisa para demorar ainda um bocado…” A gargalhada foi geral.

Ao fim de alguns incitamentos, apontamentos, rigores; e depois dos com licença, façam-me o favor, pouco barulho na sala, na roda fez-se o silêncio e mais opaco se tornou o silêncio de fundo.

“Eis a fábula de Ernesto na mata. O conto por contar que ainda se conta. O de tu te seres tu mesmo e em ti te veres em ti mesmo te contando. Átomo. Ernesto. Tudo. O detalhe que te cabe e do qual só tu mesmo tu mesmo te sabes. A fábula de Ernesto mata! Mata porque mata mesmo. Porque essa é a história do mundo.

Quanto tempo? Quanto tempo me resta de tempo, quanto o tempo é teu e o teu tempo é tudo? Quanto tempo me resta de história? Havendo sido; sido havendo, a história é tudo. Se me ouves, ouves apenas o que sabes. Eu só ta conto. Ernesto história de tudo… Entendes?”, suspirou por fim o átomo.

Et Tu? Entendes?


Em homenagem a Tito Lucrécio Caro e Eça de Queirós. Uma viagem pelos tratados inacabados.

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Categoria: Crônicas e contos

Henrique Capeleiro Maia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Se publico tiro um retrato. Eis o meu registro público com que me publico, assim me tornando público. Dou assim parte parte de mim, a minha parte pública, a parte com que o público pode conversar, concordar ou discordar, refutar ou simplesmente ignorar. O público, na maior parte, nunca verá de mim mais que esta parte. Publicado o confirmo. É público este retrato — que tão mal me retrata.

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