O Mestre: Linguagem e Conhecimento na Filosofia Agostiniana

Agositnho1. BREVE HISTÓRICO: CONCEPÇÃO LINGUÍSTICA ANTERIOR E CONCOMITANTE A PLATÃO

Apresentada desde antes dos gregos, a linguagem tinha uma relação mágica ou mítica com o universo, falar era participar do mesmo. As sociedades primitivas vêem a palavra como uma substância e uma força material, como um elemento cósmico do corpo e da natureza. Praticamente não havia diferença entre ser e nomear nem separação entre referente e signo ou significante e significado.

Somente na filosofia grega houve a separação entre a linguagem e o real. Um exemplar claro disso é a filosofia platônica, que vê a linguagem como uma imitação pela palavra. É exatamente por ser cópia que os nomes não são os originais que imitam e mesmo que sejam aplicados corretamente, nunca serão exatamente iguais ao que imitam, ou seja, a palavra não é a coisa. Isso nos leva a concluir que o significado – colocado por Platão no plano das idéias – precede o significante.

O discurso, desde que ele é, é necessariamente um discurso sobre alguma coisa; pois sobre o nada é impossível haver um discurso.[1]

Exatamente por ser sobre algo, o discurso na visão platônica deve ser pautado em algo tal como é na realidade. Sua veracidade consiste na correspondência do nome com algo na realidade.

Tal consideração de Platão sobre o tema será de suma importância para a desenvoltura da linguagem agostiniana. Tanto na teoria de Platão quanto na do filósofo de Hipona, as palavras, como nomes, são as substâncias ou essência dos objetos a que representam. Para Agostinho a referência ao real se encontra a partir do pensamento e a significação assentada na capacidade que a palavra tem de evocar na mente do ouvinte um pensamento, o qual faz referência à coisa. O que há no pensamento é o signo. Este é a possibilidade de conhecimento do objeto, mesmo não estando o signo (a própria palavra) na significação, mas no objeto apontado por ele. Dado que a palavra substitui o objeto, Agostinho conclui que conhecer o nome é conhecer a coisa.

2. A LINGUAGEM AGOSTINIANA EM O MESTRE

A linguagem agostiniana contém um ensinamento muito rico a respeito da correspondência de cada palavra a um objeto. Melhor dizendo: Agostinho indica que a palavra substitui o objeto, e também que a mesma se refere à mente: o critério para a significação da palavra é o espírito que traz em si a imagem do objeto. Eis o processo cognitivo: o início do conhecimento – futuramente proferido pela linguagem – se dá a partir da coisa significada e primeiramente apreendida pelos sentidos. Só após o conhecimento da coisa é possível associá-la a uma palavra e seu respectivo som. Tendo isso em vista, é notável ver em sua filosofia a utilidade das palavras apenas enquanto serviço do conhecimento, ou seja, quando funcionam como sinais. A função da razão presente nas palavras é significar algo na realidade. Através delas o ouvinte associa seu som como aquilo presente em sua memória. As palavras são os significantes dos nomes.

Um marco para o início de O Mestre é o tema da linguagem verbal. A obra explica o longo processo que a fala sofre até ser finalmente soletrada pelo homem na infância. Também nas Confissões, Agostinho já havia citado como começou, ainda quando garoto, a falar. Diz o filósofo que aprendeu a falar a partir de si mesmo. Os mais velhos serviam apenas como referência de apreensão por meio de gestos, reações e movimentos de reconhecimento. A razão motriz para o seu desenvolvimento linguístico foi a partir de si mesmo, por seu “desejo de algo”. A criança, então, não suporta a incapacidade de transmitir desejo aos outros e, a uma mente previamente concebida por Deus, aprende a falar. Essa mente é o centro de tudo, é o que assimila os sons e os transforma em conhecimento.

Com efeito, eu já não era a criança que não sabia falar, mas um menino que falava. E lembro-me disto, dando-me conta mais tarde de como aprendera a falar. Não eram as pessoas mais velhas que me ensinavam, facultando-me as palavras pela ordem formal daquilo que me ensinavam,como sucedeu pouco depois com as letras, mas eu próprio, com a mente que me deste, meu Deus, com gemidos e vários sons e vários gestos, queria exprimir os sentimentos do meu coração, para que obedecessem à minha vontade, e não conseguia manifestar tudo aquilo que queria nem com os meios que queria. Fixava na memória quando eles nomeavam um objecto, e quando, consoante a palavra, moviam o corpo em direcção a alguma coisa, eu via e registava que designavam essa coisa como som que proferiam quando queriam mostra-la.

(Santo Agostinho, Confissões, Imprensa nacional Casa da Moeda, Lisboa, 2004, p. 23)

Retomando o diálogo O Mestre, Agostinho começa a investigar as palavras como signos, concluindo assim que o homem fala para ensinar ou para “suscitar recordações nos outros ou em nós mesmos”[2] e “quem fala expressa exteriormente o sinal de sua vontade por intermédio do som articulado; mas deve buscar Deus e suplicar-lhe no íntimo da alma racional, que se chama homem interior”[3]. O soberano Mestre, diz Agostinho, quando ensinou os seus discípulos a rezar, “não lhes ensinou palavras, mas, por meio das palavras, ensinou-lhes as próprias coisas” “no interior da mente”[4]. Por isso “o conhecimento das coisas tem maior valor que os sinais das próprias coisas”[5].

É importante apontar que para Agostinho a linguagem transmitida para o exterior tem sempre origem numa linguagem interior, e a isso esse filósofo chama de Verbo interior. Este é o conhecimento e o pensamento ou muito mais que isso. De todo modo, o Verbo interior é o princípio, a origem da linguagem. O conhecimento do significante da palavra e o conhecimento da realidade significada da palavra condicionam a eficácia comunicativa, porque desconhecendo ambos a palavra não tem sentido, é apena ruído.

Mesmo sem emitir som algum, falamos em nosso interior ao pensarmos as próprias palavras. Assim, com a linguagem nada mais fazemos do que recordar, uma vez que a memória, na qual estão gravadas as palavras, resolvendo-as faz com que venham à mente as próprias coisas das quais as palavras são sinais[6].

Agostinho concordaria, dado que as palavras enquanto signos significam alguma coisa, com o Sofista de Platão no início deste trabalho[7]: “o que não existe não pode de modo algum significar alguma coisa”[8]. Por isso, “quando não temos com que significar algo, seria totalmente uma tolice proferirmos alguma palavra”[9] – mais que isso “as palavras não são outra coisa senão sinais” e “as coisas que não significam algo não podem ser sinais”[10].

Porém, a respeito das coisas que se conhecem pela inteligência, consultamos a verdade interior por meio da razão; como se pode dizer com clareza que com as palavras aprendemos algo além do próprio som que repercute nos ouvidos? Pois todas as coisas que percebemos, percebemo-las pelos sentidos do corpo ou pela mente. Aquelas denominamos sensíveis e estas inteligíveis ou, para falar conforme o costume de nossos autores,[11] aquelas denominamos carnais e estas espirituais.[12]

Pela linguagem é possível inclusive transmitir os sensíveis passados recordados a partir de imagens mnemônicas.

Quando, porém, é-nos perguntado não acerca das coisas que sentimos e que estão diante de nós, mas a respeito das coisas que outrora sentimos, então expressamos não as próprias coisas, e sim as imagens por elas impressas e gravadas na memória; ignoro inteiramente como as chamamos verdadeiras quando vemos que são falsas,[13] a não ser porque narramos não que as estamos vendo e sentindo, mas que as vimos e sentimos no passado. Assim, levamos no âmago da memória essas imagens como documentos das coisas anteriormente sentidas.[14]

Haveria, dentro do símbolo, quatro expressões: nome, coisa, conhecimento do nome e conhecimento da coisa[15]. Agostinho destaca duas regras importantes de linguagem determinantes da relação de valor existente entre as palavras e as coisas: a nominação (que nos denomina em função do pensamento e da conservação) e a comunicação (que valoriza as coisas mais que valoriza as palavras, ou seja, o objeto em si tem mais valor que a palavra que o identifica). E é claro que na comunicação, quando um sinal é apresentado ao ouvinte e este não sabe de que coisa ele é sinal, o signo nada pode ensinar-lhe – “pois a palavra não me mostra a coisa que ela significa”[16]. Por esta razão as palavras não podem fazer ao ouvinte conhecer nem mesmo o verdadeiro pensamento de quem fala[17].

Ainda assim, existe para Agostinho o verdadeiro discurso. Ele é pautado no conjunto de palavras que expressem uma verdade; na palavra proferida por aquele que pode enxergar interiormente e é discípulo da verdade e, exteriormente, é juiz de quem fala ou, antes, de suas próprias palavras[18]. Entretanto, se no que se discursa não houver um conhecimento previamente adquirido, existirá apenas a fé, a dúvida ou a opinião (que não acrescenta nada ao conhecimento). O verdadeiro conhecimento se pauta numa ostensão (amostra, exposição) inteligível consignada no Mestre interior. Ele parte de um domínio real provido de inteligência e racionalidade, faculdades adequadas para a contemplação do mundo inteligível e para a consulta da verdade interior.

O Mestre é a verdade e “Um só é o mestre de todos”[19]. Esta verdade é o que origina a luz interior, a própria ostensão. Analisando-o melhor – examinado sobre o Mestre interior pautado na obra –, se vê que Ele é uma espécie de metáfora para a introdução de Deus na linguagem. O mestre é a mediação entre homem-Deus, é o centro da linguagem humana e por isso para a verdadeira comunicação faz-se necessário, em Agostinho, a ligação entre o humano e o divino.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dado que a razão do desenvolvimento linguístico (aprendizado da fala) no homem é a partir de si mesmo, Agostinho vê a origem da linguagem como o Verbo. Este Verbo é compreendido por ser linguagem transmitida para o exterior a partir d’uma outra linguagem (a interior), e é isso que ele chama de Verbo interior. Este é o conhecimento e o pensamento ou muito mais que isso. O conhecimento do significante da palavra e o conhecimento da realidade significada da palavra condicionam a eficácia comunicativa, porque desconhecendo ambos a palavra não tem sentido, é apenas um ruído.

Isso quer dizer que não adianta falar, por exemplo, de como uma árvore é sem conhecer de fato uma árvore, pois a ignorância do significante faria da palavra “árvore” apenas uma palavra vazia, um falatório. Acredito que isso se estende a quando falamos de Deus – ou qualquer significado de divindade, magia, origem – sem conhecê-lo. Quando não conhecemos sentimos nada disso não há conhecimento, e essas coisas se tornam um murmurar, um vazio sem substância.

Por essa razão é necessário falar a mesma língua interior (Verbo) de um filósofo para compreendê-lo, e isso se estende até mesmo a um amigo (ou quem quer que seja) para se entender a sua comunicação. Que isso significa? Conhecer o que o outro conhece. Conhecer a partir de sentimento, afecção. Essa é a verdadeira relação filosófica, e também amiga, amorosa, familiar, pedagógica. Essa é a relação que Agostinho fala a Adeodato, seu filho, em O Mestre: a relação existente entre ensinar (dever do mestre/falante) e aprender (responsabilidade do ouvinte). Só há verdadeira comunicação com compreensão interior.

Assim, através de Agostinho é possível compreender, relacionando-o até mesmo com Platão, o nascimento da filosofia também a partir de Eros: por meio desses filósofos o sentimento da Filosofia é presentemente manifestado. Dado que a palavra transcende o significante e substitui a coisa, conectamo-nos à significação verbal assim como amamos as coisas. Isso justifica aquilo que se chama de prazer intelectual, o prazer da descoberta do ser das coisas a partir de algo tão próprio do homem, que é a linguagem.

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, S. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. São Paulo: Paulus, 2008. (Coleção Patrística).

CARDOSO, J. S. A visão agostiniana da linguagem segundo Wittgenstein.

DA SILVEIRA, M. O. Wittgenstein: Para Além da Linguagem Agostiniana. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2012. 109 p.

FURTADO, ALEX CAMPOS. A Metafísica da Linguagem no De Magistro de Santo Agostinho. Rio de Janeiro: 2015.

MINGHETTI, A. A. Tradução Comentada de De Magistro Liber VNVS de Sancti Averelii Avgvstini. Florianópolis: 2009.

SACRAMENTO, CARLOS. Um Problema de Linguagem em Santo Agostinho e Santo Anselmo. Uma conexão entre os dois filósofos à luz das obras De Magistro, Proslogion, Pro Insipiente e Responsio Editoris.

SANTOS, J. T. C. Da Linguagem Agostiniana: Em busca do Mestre Interior. Covilhã: LusoSofia: Press. 2010. 24 p.

SOUZA, L. D. O. Wittgenstein e a Concepção Agostiniana da Linguagem. PUC-PR: 2007.

NOTAS

[1] Sofista, 262e

[2] O Mestre, I,1.

[3] O Mestre, I,2.

[4] Idem.

[5] O Mestre, 27.

[6] Idem.

[7] “O discurso, desde que ele é, é necessariamente um discurso sobre alguma coisa; pois sobre o nada é impossível haver um discurso” (Sofista, 262e).

[8] O Mestre, II,3.

[9] Idem.

[10] O Mestre, VII, 19.

[11] Cf. Rm 15,27; 1Cor 9,11.

[12] O Mestre, XII, 39.

[13] Cf. AGOSTINHO, Solíquios, II, IX, 10-11; II, IX, 17.

[14] O Mestre, XII, 39.

[15] O Mestre, 27.

[16] O Mestre, 33.

[17] O Mestre, XIII, 41.

[18] Idem.

[19] O Mestre, XIX.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Filosofia, Filosofia Antiga, Filosofia da Linguagem, Filosofia Medieval

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas