O que a Filosofia Primeira de Aristóteles estuda?

Metafísica Delta e Gama

Ἀριστοτέλης (384 a.C. — 322 a.C.)

Para Aristóteles, a filosofia primeira (ontologia) é a ciência que estuda o ente enquanto ente, isto é, a compreensão do ser em seu sentido primeiro e substancial. A filosofia não é uma ciência em particular que busca conhecer no ente um atributo por concomitância (que acompanha o ser, isto é, o ente enquanto “outro”, “ao lado de”), como estudam as demais ciências; por exemplo: a aritmética examina o ser enquanto número, a geometria o ser enquanto espaço, a física o ser enquanto elemento da natureza, etc., mas, à medida que a filosofia examina o universal do ente e suas causas primeiras, a filosofia investiga o ente enquanto é ente: o ser naquilo que é em essência dele.

Entretanto, para Aristóteles, ainda que o ser seja dito “ser enquanto tal”, “ser enquanto um”, ele não se diz de uma única maneira, como se tudo “que é” residisse exatamente no mesmo em definição. Isso caberia a um gênero único e geral que explicasse tudo incluído em si mesmo: como é o ser enquanto tal e aos demais (um caso de sinonímia do termo “ser”, que atribui uma única definição a tudo). Não obstante, a sinonímia, ao tratar em essência de apenas um ente, resulta numa única ciência; como se a extensão do ser e do um (que em tudo é a mesma, exemplo de “homem que é” e “um homem”) produzisse também a mesma intensão sobre tudo.

O que não é o caso, pois, para Aristóteles, o ser se predica de muitas maneiras, assim como há muitas ciências. Embora o ser se apresente em muitos, os muitos modos não são totalmente desconformes e segmentados uns dos outros (como homônimos: o termo “ser” que atribui significado independente para cada coisa); e se fossem assim, seriam ininteligíveis à medida que não fossem de alguma forma relacionáveis. Haveria tantas ciências para quantas realidades, no entanto, a ciência, como define Aristóteles, é o conhecimento das causas e do item que é primeiro (significado focal). Isto é, o que está relacionado em ordem com um segundo, terceiro, e assim por diante, quer dizer, da causa às suas derivações.

Assim, a ontologia, que estuda “o ser enquanto ser”, é a ciência que estuda o ser em seu sentido primeiro (a substância), exemplo do indivíduo Sócrates, do qual as categorias (tipos gerais de ser) dependem dele como substância: como a qualidade (é branco), quantidade (cinco pés de altura), relação (é amigo de Platão), lugar (na ágora), tempo (ao meio-dia), ação (conversando), estado (mal vestido), posição (de pé), paixão (sendo insultado). Um exemplo análogo de sentido primeiro (significado focal) e seus derivados é o da saúde: o sentido mais primitivo de saúde é a própria saúde, que é o equilíbrio dos elementos corporais, portanto, a saúde é saudável em si (1), se define por si. Enquanto que “Sócrates é saudável” (2), Sócrates é o objeto que exibe saúde, mas ele não é a saúde em sentido primeiro; nem para “a camomila é saudável” (3), porque ela produz saúde e não é a saúde por definição; ou o bisturi é saudável (4), que é o meio para se produzir saúde. Os enunciados (2), (3) e (4) só significam “algo que é saudável”, porque dependem de outro algo “que é”, no caso de (1), o foco de tudo que é saudável.

Em suma, a filosofia primeira é o estudo das causas, que busca como as coisas estão relacionadas através do “é” pelo seu sentido primeiro, na linguagem pelo significado focal, e no mundo pela substância. Por essa ciência se tratar do estudo geral dos vários gêneros de ser e como se relacionam entre si, é papel dela também estudar o mesmo, o semelhante, os opostos e os contrários, como também o primeiro e o último, sendo que tais noções são produtos das várias relações de predicamentos do ser. Ao estudar o ente enquanto ente, o filósofo investiga todas as relações possíveis entre as coisas, portanto, de um certo modo estuda tudo. Como Aristóteles diz: “se não fosse o próprio filósofo, quem haveria de investigar se Sócrates e Sócrates sentado são o mesmo, ou se há um único contrário para cada contrário, ou o que é o contrário e de quantos modos se diz”. Assim, a investigação do ente enquanto ente, leva à investigação dos muitos sentidos do ser, que são dependentes de um sentido primeiro, de um “foco” que confere existência aos demais, e para Aristóteles, tratando-se da realidade material, tal é a substância.


Referências bibliográficas

ANGIONI, Lucas. Introdução à teoria da predicação em Aristóteles. ISBN 85-268-0716-1. Editora da UNICAMP.

STUDTMANN, Paul, “Aristotle’s Categories”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/sum2014/entries/aristotle-categories/>.

ARISTOTLE. Metaphysics. Translated By W. D. Ross

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Categoria: Filosofia, Filosofia Antiga, Filosofia da Linguagem, Metafísica e Ontologia

Marcelo Monteiro

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estuda filosofia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e é um entusiasta das ciências naturais.

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