A sabedoria de Santo Antão do Deserto

Aquele que pratica a hesequia no deserto está liberto de três castas de luta: a do ouvido, a da palavra e a da vista. Só lhe resta um combate a travar: o do coração” – Santo Antão.

Ícone copta, mostrando no canto inferior esquerdo, Santo Antão com Paulo de Tebas, o primeiro eremita.

Ícone copta, mostrando no canto inferior esquerdo, Santo Antão com Paulo de Tebas, o primeiro eremita.

Santo Antão do Deserto, também chamado de Santo Antão do Egito, Santo Antão, o Grande, Santo Antão, o Eremita, Santo Antão, o Anacoreta, ou ainda O Pai de todos os Monges, é considerado o fundador do monaquismo cristão posto que, conforme as narrativas de Santo Atanásio de Alenxandria (Vida e conduta de Santo Antão), o Santo do Deserto, uma vez tendo ouvido os textos do Evangelho <<Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres, e vem, segue-me, e terás um tesouro nos céus>> (Mt 19,21) e <<Não vos preocupe, portanto, com o dia de amanhã>> (Mt 6, 24), distribuiu todos os seus bens aos pobres, à sua irmã e às mulheres piedosas e se entregou à vida ascética inicialmente em quatro etapas: aproveitou-se dos conselhos dum ancião mais experimentado na ascese, em seguida, foi para um cemitério e se trancou dentro de uma sepulcra e, após quase vinte anos, fez o mesmo num forte abandonado para, por último, se entranhar no deserto, onde assim como Jesus Cristo, teria sofrido e superado a tentação do Diabo.

Eis então o preâmbulo da história de Santo Antão: o rompimento com todos os laços do mundo, a vida herma, a anachóresis, palavra que significa uma retirada, uma ruptura com o mundo cotidiano. É no deserto onde o anacoreta cristão foge “da comunidade temporal a que pertence, mas para juntar-se ali à comunidade espiritual, invisível, que reúne todos os cristãos, mortos ou vivos, os santos, os mártires. Ele só se isola de seus contemporâneos, das delícias ou dos horrores de seu tempo para encontrar a comunidade ideal e atemporal de seus irmãos de outros séculos, de outros lugares”[1].  Eis como o anacoreta Antão buscou a theôsis, a divinização, a forma de vida considerada como a única maneira de ascender à verdadeira sabedoria; Sabedoria esta que não é teorética nem exegética mas, antes, eminentemente prática, conciliando ao mesmo tempo o intelecto, a moral e a terapêutica. Por isso disse o Santo: “O meu livro, ó filósofo, é a natureza das coisas criadas, e sempre que quero posso tê-lo presente para nele ler as palavras de Deus” – e é esta sabedoria a verdadeira busca pela Verdade, impossível de ser anunciada unicamente pela razão. Para conhecê-la, tão-somente é necessária a purificação e a harmonia entre todas as faculdades do homem onde, assim, até os demônios são vencidos.

E decerto, conforme narra Santo Atanásio, as velhas táticas do Diabo não funcionaram contra Antão: “Primeiro, o demônio tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado de sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração (…) e jejum”[2]. Vendo que não o conquistaria por meio algum, o demônio apareceu-lhe como um moço preto; “e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos – pois o impostor tinha sido lançado fora – mas usando voz humana disse-lhe: ‘A muitos enganei e venci; mas agora que ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco’. ‘Quem és tu que me falas assim?’, perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: ‘Sou o amante da fornicação. Minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: ‘Foram enganados pelos espírito da fornicação’ (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúdo fui vencido por ti’. Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: ‘És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários’ (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro em espírito desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem”[3].

Depois disso, tendo passado quase vinte anos praticando a vida ascética, não saindo nunca e sendo raramente visto por outros, em virtude de que muitos homens o visitavam e aspiravam imitar sua santa vida, Santo Antão abandona a solidão e se converte em pai espiritual: “Por ele o Senhor curou muitos dos presentes que tinham enfermidades corporais, e a outros libertou de espíritos impuros. Concedeu também a Antão o encanto no falar; e assim confortou a muitos em suas penas e reconciliou a outros que brigavam. Exortou a todos a nada preferir neste mundo ao amor de Cristo (…) E induziu muitos a abraçar a vida monástica”[4].

Aos monges, ele alertava a necessidade de conhecer as astúcias dos demônios: – Em primeiro lugar, demo-nos conta disto: os demônios não foram criados como demônios, tal como entendemos este termo, porque Deus não fez o mal. Também eles foram criados puros, mas desviaram-se da sabedoria celestial. Desde então andam vagando sobre a terra. Por um lado, enganaram aos gregos com vãs fantasias e, invejosos de nós, cristãos, nada omitiram para nos impedir de entrar no céu; não querem que subamos ao lugar de onde caíram. Por isso é necessário muita oração e disciplina ascética para que alguém possa receber do Espírito Santo o dom do discernimento dos espíritos e ser capaz de conhecê-los; qual deles é menos mau, qual o pior; que interesse especial tem cada um e como hão-de ser repelidos e lançados fora; pois são numerosas suas astúcias e maquinações. Bem sabiam isto, o santo Apóstolo e seus discípulos quando diziam: ‘Conhecemos muito bem suas manhas’ (2 Cor 2,11). E nós, ensinados por nossas experiências, deveríamos guiar outros a apartarem-se deles. Por isso eu tenho feito em parte.[5]

Aos cristãos em geral, anunciava: – Toda a vida do homem é muito breve comparada ao tempo vindouro, de modo que todo o nosso tempo é nada comparado com a vida eterna. No mundo, tudo se vende; e cada coisa se comercia segundo seu valor por algo equivalente; mas a promessa da vida eterna pode comprar-se por muito pouco (…)Quando ouvirem falar da virtude, não se assustem nem a tratem como palavra estranha. Realmente não está longe de nós nem seu lugar está fora de nós; está dentro de nós, e sua realização é fácil contanto que tenhamos vontade (cf Dt 30, 11ss). Os gregos viajam e cruzam o mar para estudar as letras; nós, porém, não temos necessidade de nos por a caminho pelo reino dos céus nem de cruzar o mar para alcançar a virtude. O Senhor no-lo disse de antemão: ‘O Reino dos céus está dentro de vós’ (Lc 17,21). Por isso a virtude só necessita de nossa vontade, já que está dentro de nós e brota de nós. A virtude existe quando a alma se mantém em seu estado natural. É mantida nesse estado natural quando permanece como veio a ser. E veio a ser limpa e perfeitamente íntegra (cf Ecl 7,30). Por isso Josué, o filho de Nun, exortou ao povo com estas palavras: ‘Mantenham íntegros seus corações diante do Senhor, o Deus de Israel (Jos 24, 23); e João: ‘Endireitem seus caminhos’ (Mt 3,3). A alma é reta quando a mente se mantém no estado em que foi criada. Mas quando se desvia e se perverte de sua condição natural, isso se chama vício da alma. A tarefa não é difícil: se ficamos como fomos criados, estamos no estado de virtude; mas se entregamos nossa mente a coisas baixas, somos considerados perversos. Se esse trabalho tivesse de ser realizado de fora, seria em verdade difícil; mas estando dentro de nós, acautelemo-nos contra os pensamentos maus. E tendo recebido a alma como sendo confiada a nós, guardemo-la para o Senhor, a fim de que Ele possa reconhecer sua obra, tal qual a fez.[6]

Há uma narrativa contando que um grupo de cristãos, ao procurar Santo Antão, disse-lhe:

– Diz-nos uma palavra: como seremos salvos?
– Escutai a Escritura? – Perguntou o Santo  – Ela vos convém muitíssimo.
– Mas nós queremos ouvi-la de ti.
Então o velho disse-lhes: – O evangelho diz: se alguém te fere na face direita, oferece-lhe também a outra.
Eles disseram-lhe: – Nós não podemos fazer isso.
Disse-lhes o velho: – Se vocês não podem oferecer a outra, suportam ao menos que lhes batem numa face.
– Nem sequer isso podemos.
– Se nem sequer isso podem – disse – não devolvam o mal que receberam.
E eles responderam: – Nem isso nós podemos.
Então disse o velho aos seus seguidores: – Prepare-lhes um pouco de mingau porque eles estão doentes. Se não podem isto e não querem aquilo, que posso fazer por vocês? Precisam de orações.[7]

Quanto ao que disse àqueles que filosofam, conta-se que quando vivia na Montanha Exterior, Santo Antão recebeu em sua gruta dois filósofos gregos e lhes perguntou através de um intérprete:

– Por quê, ó filósofos, se deram a tanto trabalho para vir ter com um homem louco?
– Não és louco, mas muito sábio – disse um dos filósofos.
– Se vieram ver um louco, o trabalho que tiveram para vir até aqui não faz sentido; mas se pensam que sou sábio – respondeu-lhes –, então façam o que eu faço, porque hás de imitar o que é bom. Em verdade, se fosse eu a estar na vossa posição imitar-vos-ia; uma vez que sois vós a vir a mim, convertam-se no que sou; eu sou cristão.

Também outros filósofos pagãos o procuraram, dessa vez pensando que podiam zombar dele por não ter educação, quando tiveram a seguinte resposta:
– O que dizeis vós que vem primeiro? O sentido ou a letra? E qual é a origem de qual? O sentido da letra ou a letra do sentido? – Quando eles responderam que o sentido vem primeiro e é origem da letra, o Santo disse: – Por isso, quem tem uma mente sã não precisa das letras.[Opt. Cit.]

Conhecendo esta narrativa, observando o percurso espiritual de Santo Antão, podemos ver a história de um homem que, através do êxodo para o deserto, treinou com todas as suas forças o ideal de perseverança, de fidelidade e comunhão a Cristo. Santo Antão portanto, seja entre monges, leigos ou filósofos, traçou um modelo de existência, um modo de vida que saí do mundo, vai ao deserto e enfim volta ao mundo para, uma vez tendo sido curado, curar também os que nele habitam e têm necessidade de cura.


Notas

[1] Padres do Deserto: Homens embriagados de Deus; Jacques Lacarrière.

[2] Santo Atanásio, Vida de Santo Antão.

[3] Opt. Cit.

[4] Opt. Cit.

[5] ATANÁSIO DE ALEXANDRIA, Vida de Antão, 22, 1, (ed. G. J. M. BARTELIK), SCh, 400, 195.

[6] Santo Atanásio, Vida de Santo Antão.

[7] JEAN-CLAUDE GUY, Palavras dos antigos: Sentenças dos padres do deserto, 19.

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Categoria: Cristianismo, Filosofia Medieval

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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