A busca do Inútil em Bergson

Da natureza da mudança à dilatação da percepção na Arte

William Hogarth, Il Tempo si fuma un quadro (1761)

William Hogarth, Il Tempo si fuma un quadro (1761)

Henri Bergson revigorou a importância da metafísica no início do século XX, reestruturando radicalmente sua comum compreensão. O filósofo compreende uma metafísica do devir, distinta da ciência dos primeiros princípios, da permanência, que essencialmente constituíam a tradição filosófica histórica. Desde o início, segundo Bergson, a tradição não contemplou rigorosamente o papel da mudança, rumando sentido a formulação de uma metafísica do imutável, de substância em uma exterioridade transcendente e eterna:

[A]ssim que as filosofias de Eléia, criticando a ideia de transformação, mostraram ou acreditaram mostrar a impossibilidade de se manter tão próximo dos dados dos sentidos, a filosofia embrenhou-se na via pela qual veio caminhando desde então, aquela que conduzia a um mundo do ‘supra-sensível’: por meio de puras ‘ideias[1]‘[…]”

A dificuldade de conceber o conhecimento, tendo em vista a existência da mudança, torna-se desde os primórdios da história da filosofia, problemática. Para Bergson, a atitude dos filósofos frente à dificuldade da transformação constante do mundo, sempre se direcionaram para as realidades ideais, e observaram a constante transformação e não perenidade da realidade sensível e imanente, como um enfraquecimento e decaimento das substâncias inteligíveis. O movimento, a mudança, são ignorados e deixados em segundo plano, não colocados em princípio para à análise filosófica. E é nisto que constitui para o autor, a característica que acarretou uma grande limitação na tradição filosófica que se constituiu até seus dias.

É que, normalmente, bem que olhamos a mudança, mas não a percebemos. Falamos da mudança, mas não pensamos nela. Dizemos que a mudança existe que tudo muda que a mudança é a própria lei das coisas: sim, dizemo-lo e repetimo-lo; mas temos aí apenas palavras, e raciocinamos como se a mudança não existisse. Para pensar a mudança e para vê-la, há todo um véu de prejuízos a que cabe afastar, alguns artificiais, criados pela especulação filosófica, outros naturais ao senso comum[2].

Bergson se propõe então, a fundamentar uma metafísica que contemple primordialmente a existência da mudança, identificando a “natureza” da mudança com a do Tempo, conceito este central para a compreensão do pensamento bergsoniano: o tempo como duração.

A Distinção de Natureza entre Espaço e Tempo

Buscando as origens da ignorância e desconsideração da percepção da mudança, e assim, o engano da tradição filosófica, Bergson reconhece uma confusão ao analisar a passagem, e a própria natureza, do tempo. Este, para o francês, foi conceituado viciosamente com as qualidades do Espaço, sendo abordado de forma quantitativa: sendo desmembrado e dilacerado em partes, transformado em horas, minutos e segundos, em que momentos e instantes somados quantitativamente, formam o que conhecemos como tempo. Porém a limitação desta abordagem, segundo Bergson, é não reconhecer o tempo como mudança e passagem, como um todo indivisível e uno que exclui a possibilidade de ser dividido e imobilizado para selecionar um determinado cenário. Ao contrário, a imobilização e o tratamento quantitativo são as características próprias da natureza do espaço, e imaginar o tempo com estas qualidades, é atribuir ao espaço a possibilidade de conter toda a realidade em si, excluindo a natureza distinta do tempo, que, sobretudo é essencialmente a duração, a mudança. Desta maneira, o tempo assume uma conceituação completamente qualitativa, em que a duração não pode ser compreendida como uma sucessão linear de quantidades, mas ao contrário, a natureza do tempo é ser essencialmente a passagem, a mudança: um contínuo que não é abarcado com as paralisações necessárias para a compreensão e desmembramento lógico, mas que é percebida através intuição e participação vivida do espírito na passagem do tempo.

A Metafísica por suas origens, tornou-se científica à medida que se fazia rigorosa, isto é, exprimida em termos estáticos. Em suma, a mudança pura, a duração real, é coisa espiritual e impregnada de espiritualidade. A intuição é aquilo que atinge o espírito, a duração, a mudança pura[3].

A Participação do Homem na Duração e as Duas Memórias

Em seu livro Matéria e Memória (1896), Henri Bergson se propõe a tratar da clássica relação entre corpo e espírito. Partindo dos pressupostos metafísicos já definidos, o autor busca compreender as relações entre a dimensão corporal-espacial com a do espírito e da duração. A distinção radical entre a natureza do Espaço e do Tempo levam Bergson a certa dualidade na constituição do homem, uma que participará mais ativamente na forma espacial, com as categorias do espaço e da matéria quantificada, e, portanto mais voltadas à utilidade prática; e outra à dimensão da mudança, do tempo interpenetrado e uno, como pura qualidade e passagem. Esta última, o francês define como característica pura do espírito, parte que é a interioridade profunda do homem a qual participa vividamente e experimentalmente da constante mudança e da passagem, de natureza semelhante ao tempo. Neste sentido que a experiência do homem na duração, para Bergson, pode ser dita como uma experiência metafísica (A Relação Entre o Misticismo e a Experiência Metafísica em Bergson, Prof. Dr. Adelmo José da Silva). Contudo, o filosofo não despreza a importância da análise espacial da realidade, com as deduções racionais de uma imobilização do tempo, ao contrário, encontra sua utilidade para o método das ciências naturais e para a vida prática, para a ação cotidiana e atuação na realidade. A própria sobrevivência e a tendência natural do pensamento racional levam a abordagem puramente espacializada do entendimento, porém para Bergson, a filosofia tem de contemplar mais que a praticidade, ela deve entender e tentar representar a dinâmica do movimento, do devir.

Ponto central em Matéria e Memória desenvolvido, sobretudo em seu segundo capítulo, é a distinção entre duas memórias: uma memória motora e uma lembrança-imagem, distinção essa que nos possibilitará compreender a importância do conhecimento “útil” e “inútil” em Bergson. Para demonstrar essa dualidade, o autor se utiliza de casos clínicos da psiquiatria e de exercícios mentais.

A memória motora segundo Bergson éa memória que acontece no corpo, se inscreve no nele, vinculada ao hábito e à repetição: o decorar de uma frase, de um caminho ou a aprendizagem de determinada atividade física e movimento, estes são reconhecidos pelo filósofo como uma aprendizagem da memória motora, de um “saber-fazer”. Esta memória não está ligada aos fatos e detalhes específicos do passado, não é a memória de fato, é antes o hábito esclarecido pela memória (Matéria e Memória, Pág 91), ele não se interessa pelas particularidades dos eventos que registrou,mas no decorar pela repetição e hábito, no agir.

A lembrança-memória, ao contrário, se identifica pela precisão e apreensão da totalidade do momento, é o passado, de fato, que se imprime e se torna lembrança-imagem, e que por consequência é impossível de ser repetido e recreado. Esta, sobretudo é ligada à substância do espírito, da mesma da natureza da mudança, não repetível e que não tem nenhuma característica da memória motora, não há distinção quantitativa, mas apenas qualidade. Esta memória é segundo o autor, caprichosa – ela não depende do esforço voluntário da mente para recrear ou relembrar o momento, como no caso da memória motora, que se apreende pela repetição e por determinado esforço da memória, mas sim,é contemplada e retomada por um relaxamento.

Bergson ressalta constantemente a distinção de qualidade e natureza entre as duas memórias, e não de grau. Estas são duas memórias, duas mecânicas distintas de agir, e que para sua retomada e atualização no presente são feitas também de formas distintas:

Dessas duas memórias, das quais uma imaginae outra repete, a segunda pode substituir a primeira e frequentemente até dar a ilusão dela. Quando o cão acolhe seu dono com festa e latidos alegres, ele o reconhece, sem dúvida nenhuma; mas esse reconhecimento implica a evocação de uma imagem passada e a reaproximação dessa imagemà percepção presente? Não consistirá antes na consciência que toma o animal de uma certa atitude especial adotada por seu corpo, atitude que suas relações familiares com seu dono foram  formando pouca a pouco, e que a simples  percepção do dono provoca agora mecanicamente? Não vamos tão longe! No próprio animal, vagas imagens do passado ultrapassam talvez a percepção presente; é concebível inclusive que seu passado inteiro esteja  virtualmente desenhado em sua consciência ; mas esse passado não o interessa o bastante para separá-lo do presente que o fascina, e seu reconhecimento deve ser antes vivido do que pensado. Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil. […] Talvez apenas o homem seja capaz de um esforço desse tipo.[4]

Este valor dado ao inútil,à fuga da praticidade corriqueira, é que irá caracterizar a função da arte no pensamento do filósofo francês, como um mergulho na natureza do espírito e do movimento, do devir, a arte funcionará como expressão do conhecimento e apreensão da ciência do espírito e da mudança.

O Inútil e a Dilatação da Percepção na Arte

bergson

Henri Bergson (1859 — 1941)

Como comentamos o conhecimento vinculado às categorias do espaço, à forma “espacializada” de pensar, é uma das formas de conhecimento para Bergson, porém não a única,esta não contempla a profunda interioridade do homem, que, como mostrado na distinção entre as duas memórias, são da natureza da mudança e da pura qualidade e distinção do espírito. Henri Bergson ao contrário de compreender a expressão do puro movimento, que é o espírito, em uma ciência rigorosa de categorias e quantificações, ele a reconhece na arte, no descolamento e distração da utilidade e que traduzem o contínuo e uno movimento que é a mudança.

O que visa à arte, a não ser nos mostrar, na natureza e no espírito, fora de nós e em nós, coisas que não impressionavam explicitamente nossos sentidos e nossa consciência? O poeta e o romancista que exprimem um estado da alma decerto não a criam peça por peça; não os compreenderíamos caso não observássemos em nós, até certo ponto, aquilo que dizem de outrem. À medida nos falam, aparecem-nos matizes de emoção que podiam estar representados em nós há muito tempo, mas que permaneciam invisíveis […] o poeta é esse revelador.[5]

Assim, essa revelação por parte do artista, é para o autor uma “representação”, uma cópia do eterno movimento e qualidade que é o espírito: o artista traduz os movimentos e emoções que cada indivíduo reconhece em si mesmo, e que o verdadeiro artista revelará os sentimos e emoções àqueles mesmos que sentem, fazendo por instrumento a sua arte, a poesia, a pintura, a música, o romance…

Porém, a revelação, tradução deste conhecimento não se dão da mesma forma que o conhecimento das ciências naturais, da forma de pensar partindo das categorias do espaço, nem do hábito da memória motora, mas sim do descolamento e distração de todos estes, e que Bergson entenderá como necessário para a dilatação da percepção, da “ciência” da mudança e do espírito.

Bastaria à arte, portanto, para nos mostrar, que uma extensão das faculdades de perceber é possível. Mas, como se efetua essa extensão? – Notemos que o artista sempre passou por um “idealista”. Entende-se com isso que ele está menos preocupado do que nós com o lado positivo e material da vida. É, no sentido próprio da palavra, um “distraído”. Por que consegue ele, sendo mais desprendido da realidade, ver nela mais coisas? Isso seria incompreensível, caso a visão que temos ordinariamente dos objetos exteriores e de nós mesmos não fosse uma visão que nosso apego à realidade, nossa necessidade, e de agir, nos levou a estreitar e esvaziar.[6]

Henri Bergson, reestruturando a compreensão metafísica também contribuiu vigorosamente para uma interpretação da estética e do papel da arte. A distinção radical entre a natureza do Espaço e do Tempo, tanto como uma meditação sobre a essência do espírito, o identificando com a da duração, do tempo uno e contínuo, sem as qualidades quantitativas do espaço, causaram uma inovadora abordagem sobre a natureza do conhecimento e da percepção, tanto como os instrumentos e mecânicas para utilização destes. O artista em Bergson é aquele que expõe, demonstra de alguma maneira, o movimento e devir constante do espírito, alcançado isso, sobretudo, pela busca pelo inútil.

De fato, não seria difícil mostrar que , quanto mais estamos preocupados em viver, tanto menos estamos inclinados a contemplar, e que as necessidades da ação tendem a limitar o campo da visão.


Notas

[1] A consciência, para Searle, é uma característica de nível sup

[1]O pensamento e o Movente, Introdução (segunda parte) pág. 31.

[2]Matéria e Memória, Pág. 89-90.

[3]O Pensamento e o Movente Pág. 155.

[4]O Pensamento e o Movente Pág. 157.

[5] A Percepção da Mudança, O Pensamento e o Movente pág. 152.

[6]O Pensamento e o Movente, A Percepção da Mudança pág. 150-151.

 

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Categoria: Artes e Letras, Filosofia, Filosofia da Arte, Metafísica e Ontologia

Gabriel Tossato da Silva

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