Consciência de criatura e consciência de estado em Rosenthal

David M. Rosenthal pensa que nenhum fenômeno mental é mais central que a consciência para uma adequada compreensão da mente e, senão por isso, nada lhe parece mais próprio a um tratamento teórico sofisticado do o que faz com que um estado consciente seja de fato consciente uma vez que, segundo ele, nem todos os estados mentais são conscientes. Na realidade, somente é consciente o estado mental acompanhado de um pensamento de segunda ordem (estado introspeccionável) e por consequência, senão sempre, quase sempre, ao lado de um pensamento de terceira ordem (introspecção do estado mental consciente), quer dizer, um pensamento sobre um pensamento que é sobre um pensamento.  Sua definição de consciência, a propósito, abrange dois âmbitos dos quais pode-se conhecer a chamada “consciência de criatura” e a “consciência de estado”, e são especialmente esses dois vocábulos que este escrito visa pormenorizar; respectivamente, pois, encontra-se de um lado a consciência enquanto propriedade de um organismo inteiro (ou algum outro tipo de sistema capaz de se tornar consciente), de outro, processos mentais particulares que ocorrem nesse organismo[1]. Diz ele:

Dois assuntos são frequentemente confundidos nas discussões sobre a consciência, uma questão é: o que é para um estado mental ser consciente. Supondo que nem todos os estados mentais são conscientes, nós queremos saber como os estados conscientes se diferenciam daqueles que não são. E ainda que todos os estados mentais fossem conscientes, nós ainda perguntaríamos em que consiste a sua consciência. Denominamos essa a questão da consciência de estado. Esse será meu principal tema no texto que segue. Mas nós não descrevemos apenas estados mentais como sendo conscientes ou não; nós também atribuímos consciência a criaturas. Assim, existe uma segunda questão, a questão sobre o que é para uma pessoa ou outra criatura ser consciente, ou seja, como criaturas conscientes se diferenciam daquelas que não são conscientes. Denominamos esta a questão da consciência de criatura.[2]

De modo geral, a literatura científica diz que as criaturas são conscientes em vários sentidos, como na acepção genérica de ser senciente (capaz de sentir e responder a seu mundo)[3], estar em vigília (no estado de poder exercer suas capacidades sem ser no sono) e em autoconsciência (a criatura que está consciente de que está consciente)[4] e, por fim, de ser como é [what it is like] de modo que, nesse último sentido, “um ser é consciente apenas se há ‘algo como é’ ser essa criatura, isto é, algum modo subjetivo com o qual o mundo pareça ou em que se apresente do ponto de vista mental ou experiencial da criatura”[5] ou de ser um sujeito que está consciente da posse de seus estados mentais. Rosenthal, por sua vez, além de analisar as criaturas como conscientes nesses vários sentidos, trata da chamada consciência transitiva, “em que criaturas são descritas como sendo conscientes de várias coisas (…) envolvendo algum objeto ao qual a consciência é dirigida”[6].

Já a consciência de estado trata que “um estado mental consciente é simplesmente um estado mental que se sabe estar nele”[7]. Estados conscientes, nesse sentido,

envolvem uma forma de meta-mentalidade ou meta-intencionalidade, na medida em que exigem estados mentais que são eles mesmos a respeito de estados mentais. Ter um desejo consciente de uma xícara de café é ter esse desejo e também estar simultaneamente e diretamente consciente de que se tem esse desejo. Pensamentos e desejos inconscientes, nesse sentido, são simplesmente aqueles que temos sem saber [without being aware] que temos, quer nossa falta de autoconhecimento resulte de simples falta de atenção ou de causas psicanalíticas mais profundas.[8]


Notas

[1] Cf. PRATA, 2010, p. 10

[2] ROSENTHAL, 1997, p. 792 / Cf. PRATA, 2016.

[3] ARMSTRONG, 1981 / Cf. GULICK, 2012, p. 5

[4] CARRUTHERS, 2000 / Cf. Id., p. 6

[5] NAGEL, 1974 / Cf. Id.

[6] ROSENTHAL, 1986 / Cf. Id.

[7] ROSENTHAL, 1986, 1996 / Cf. Id

[8] Id.

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Categoria: Filosofia Contemporânea, Filosofia da Mente, Psicologia e Neurociência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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