Filosofia da natureza e crise ambiental

Estamos vivendo como se tivéssemos mais de um planeta à nossa disposição. Estamos usando 50% mais recursos do que a Terra é capaz de oferecer e, a não ser que mudemos de rumo, esse número irá disparar. Até 2030, mesmo dois planetas não seriam o suficiente. Temos, sim, capacidade para criar um futuro próspero que forneça alimentos, água e energia para as 9 ou 10 bilhões de pessoas que deverão compartilhar o planeta em 2050, mas somente se todos nós – governos, empresas, comunidades, cidadãos – assumirmos a responsabilidade por esse desafio.”(p.1); “…Porém, apesar do Protocolo [de Kyoto] e das manchetes, as emissões de CO2 continuam subindo. Hoje, estão 40% acima dos níveis de 1992 (PNUMA, 2011). Talvez o mais alarmante de tudo seja o fato de dois terços desse aumento terem ocorrido na segunda década (PNUMA, 2011). Em decorrência disso, os níveis de CO2 na atmosfera avançaram 9% desde a Rio 92, e as temperaturas médias subiram cerca de 0,4oC (PNUMA, 2011). A quantidade de gelo marinho no Ártico ao fim de cada verão caiu 35%, com os anos de 2007 e 2011 registrando as mínimas mais expressivas (PNUMA, 2011).”(p. 7); “Desde a década de 1970, a demanda anual da humanidade imposta sobre a natureza excede a capacidade de renovação anual da Terra. Assim como o saque acima do saldo de uma conta bancária, cedo ou tarde os recursos se esgotam. No ritmo atual de consumo, alguns ecossistemas entrarão em colapso antes mesmo do esgotamento completo do recurso. Já são visíveis as consequências do excesso de gases de efeito estufa que não pode ser absorvido pelos “sumidouros naturais”, com a escalada dos níveis do CO2 atmosférico causando a elevação das temperaturas globais, mudança do clima e acidificação dos oceanos. Esses impactos, por sua vez, ampliam as pressões sobre a biodiversidade e os ecossistemas, e sobre os mesmíssimos recursos dos quais os seres humanos dependem. (Segundo dados atualizados do “Relatório Planeta Vivo”, WWF, 2012, p. 20)

aldeia dos indios

Aldeia dos povos indígenas, que costumavam viver em harmonia com a natureza

Como entender as raízes desta situação crítica delineada? Povos e comunidades tradicionais, como, por exemplo, os diversos grupos indígenas da América, às vezes considerados “selvagens” e “inferiores” no lastro da ideologia colonialista e eurocêntrica, conseguiram durante muito tempo manter uma relação equilibrada e simbiótica com a natureza, sapientes ao minimizar os impactos da atuação antrópica sobre esta última. Já no mundo ocidental moderno, dito civilizado e desenvolvido, é notável uma tensão e impasse crescentes nessa relação, como os dados supracitados revelam. Por conseguinte, é necessário primeiramente vasculhar as origens e premissas teórico-ideológicas do modo de vida do homem “civilizado” e moderno, para entender ao menos parte da atual crise ecológica.

"The ocean anthropocentric"

O antropocentrismo: O homem no centro da natureza

De acordo com o filósofo alemão Max Scheler (COSTA, 1996: 122), podemos reconhecer no antropocentrismo judaico [1] o remoto antecedente da crise ambiental presente, ao favorecer um paradigma de cisão entre o homem e a natureza, considerando esta última serva legítima daquele. Mesmo não negando a presença ou imanência divina no mundo, através da Sabedoria divina ou Shekinah, o judaísmo é, sem sombra de dúvida, acentuadamente antropocêntrico. Herdeiro do judaísmo e incorporando o pensamento pagão [2], o cristianismo também perfilhou uma concepção antropocêntrica, ainda influente nos dias atuais, reservando para o homem um lugar central e privilegiado dentro da ordem cósmica e espiritual. O homem é imago Dei: feito à imagem e semelhança do seu criador, o Deus judaico-cristão, O qual criou o mundo e natureza para servir aos propósitos humanos (MAGNAVITA, 2012). Apesar disso, o cristianismo não deixou de manifestar amiúde uma atitude reverente diante da natureza, se não tanto na ciência e na teologia oficiais, ao menos no seio de movimentos espirituais como o franciscanismo (NASR, 1977: 61). A natureza, todas as criaturas e entes criados são concebidos como sagrados e dignos de reverência humana. O poema “Cântico do irmão Sol” de São Francisco de Assis ilustra bem tal atitude:

“(…) Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,/Especialmente o Senhor Irmão Sol, que clareia o dia, e com sua luz nos alumia/E ele é belo e radiante com grande esplendor: de ti, Altíssimo, é a imagem./Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas,/Que no céu formaste claras e preciosas e belas./Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento,/Pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo pelo qual às tuas criaturas dás sustento./Louvado sejas, meu Senhor pela irmã Água, que é mui útil e humilde e preciosa e casta./Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo pelo qual iluminas a noite./E ele é belo e jucundo e vigoroso e forte./Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos com coloridas flores e ervas….”

A física modena

Representação da física modena

Não tanto a tradição cristã medieval, mas a vertente hegemônica do pensamento filosófico-científico moderno foi se afastando de uma concepção sagrada da natureza; essa vertente foi marcadamente reducionista e instrumental, a despeito do progresso que representou em termos epistemológicos. Inspirada no matematismo e platonismo galilaicos, a física moderna acabaria por criar uma concepção “desencantada” da natureza e do mundo, cindindo sujeito e objeto e quantificando/abstraindo as noções de movimento, espaço e tempo; isso em oposição à física clássica ou aristotélica, a qual, apesar das suas possíveis incorreções, mantinha uma visão qualitativa da natureza. Nesta época o filósofo Francis Bacon, célebre pelo mote “saber é poder”, acabaria por inaugurar a ideia de que o homem, através da ciência e da técnica, deve dominar a natureza, subjugando-a em função dos seus interesses; é o antropocentrismo em sua forma mais radical e tecnicista. Diz Bacon:

O objetivo principal da parábola [de Prometeu] parece ser que o Homem, se atentarmos para as causas finais, pode ser visto como o centro do mundo, tanto que, se desaparecesse, o resto careceria de finalidade e propósito como uma vassoura descosida, sem a nada levar. De fato, o mundo inteiro opera de concerto a serviço do homem, e de tudo ele tira uso e proveito. As revoluções e movimentos dos astros servem-lhe tanto para determinar as estações quanto para distribuir os quadrantes do globo. Os meteoros, para prognosticar o tempo. Os ventos, para impelir-lhe os navios e girar- lhe os moinhos e as máquinas. Plantas e animais de todos os gêneros fornecem-lhe abrigo, vestuário, alimentos e remédios, ou aligeiram-lhe o trabalho, ou lhe dão prazer e conforto – a tal ponto que as coisas parecem obedecer às necessidades do homem e não às suas próprias. Não sem razão acrescentou-se que, para a composição do homem, partículas retiradas a diferentes animais foram misturadas com o barro, pois de todas as coisas do universo o homem é a mais compósita, donde chamarem-no os antigos com acerto de Mundus Minor [Pequeno Mundo]. Os alquimistas, ao sustentar que se encontram no homem todos os minerais, vegetais etc., ou algo que lhes corresponda, tomam a palavra microcosmo num sentido excessivamente amplo e literal, roubando sua elegância e distorcendo seu significado; ainda assim, o fato de o homem, entre todas as coisas existentes, ser ao mesmo tempo a mais mista e a mais orgânica permanece uma verdade sã e sólida. Na verdade, esse é o motivo dele ser dotado de tantos poderes e faculdades. Os poderes dos corpos simples, embora exatos e rápidos, são poucos, por que menos refratados, rompidos e contrabalançados pela mistura; já a abundância e a excelência de poder, essas residem na mistura e na composição. Não obstante, vemos que o homem se mostra nu e indefeso na primeira fase de sua existência, tardo em ajudar-se e cheio de necessidades. Por isso Prometeu apressou-se a inventar o fogo, o grande dispensador de alívio e amparo em todas as indigências e negócios humanos. Assim como a alma é a forma das formas e a mão a ferramenta das ferramentas, o fogo merece ser corretamente chamado de auxílio dos auxílios ou re curso dos recursos. Por meio dele se efetua a maioria das operações e, em infinita variedade de modos, dele se ser vem as artes mecânicas e as próprias ciências.” (In: A sabedoria dos antigos. São Paulo: Unesp, 2002, pp. 79-80)

Já o filósofo René Descartes (1596-1650), com seu dualismo metafísico entre extensão e pensamento, corpo e espírito, não identificaria na natureza e nos animais mais do que uma espécie de grande mecanismo artificial, explicado por relações de causalidade (GRÜN, 2005: 47-50).

O crescente derretimento das calotas polares

Mudanças climáticas: O crescente derretimento das calotas polares

É perceptível aí, ao menos no plano teórico, as raízes da crise ambiental: estavam lançadas as bases intelectuais para a formação de um modelo de desenvolvimento civilizatório fundado em uma relação senhorial e predatória com a natureza, com uma apropriação irresponsável e imediatista dos recursos naturais, a poluição desenfreada, a urbanização caótica, o consumismo etc.  Como sustenta Naomi Klein: “…As mudanças climáticas são, entre outras coisas, uma crise de narrativa. E essa narrativa nasceu nos anos 1600, sustentada pela visão de Francis Bacon e René Descartes. Eles tinham a ideia, revolucionária naquele tempo, de que a Terra não era um sistema vivo, uma mãe a ser reverenciada e temida, mas, ao contrário, uma coisa inerte que poderia ser inteiramente conhecida e da qual se poderia extrair riquezas indefinidamente. Mas a ideia de que poderíamos dominar a natureza e agir sem pensar nas consequências entrou em colapso com as mudanças climáticas.” [3]

a criação

Famoso quadro renascentista de Michelangelo: A criação de Adão.

A vertente hegemônica do pensamento filosófico-científico moderno não deixou de enfrentar tendências contrárias. Nos alquimistas e hermetistas do Renascimento (Paracelso, J. Boehme, G. Bruno), assim como nos adeptos ulteriores da chamada Teosofia (K. Eckartshausen, E. Swedenborg), encontra-se uma filosofia-da-natureza simbólica e organicista, procurando harmonizar sujeito e objeto e manter uma visão “nostálgica” da unidade primordial entre homem e natureza, em oposição ao mecanicismo e fisicalismo [4].

Goethe in the Roman Campagna (1786) de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

Goethe in the Roman Campagna (1786) de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

Os poetas e filósofos do Romantismo prolongam essa tendência de pensamento contra-hegemônica ao forjarem  — em oposição ao mundo mecanizado e cada vez mais tecnicista da sociedade moderna — um sentimento de valorização da natureza, o qual pode ser expresso tanto através de uma filosofia-da-natureza mais sistemática (F. Baader, F. Schubert, F. W. Schelling) quanto através de manifestações de caráter mais poético e existencial (J. Keats, J. Ruskin, W. Wordsworth, W. Blake, H. D. Thoreau), sem falar de um amálgama das duas coisas (J. Goethe, Novalis, R. W. Emerson, S. T. Coleridge).

A vida na natureza

A aproximação da natureza como escolha de alguns homens modernos

No filósofo J-.J. Rousseau (1712-1778) o sentimento romântico de retorno à natureza aparece a princípio sob a forma de um afastamento do mundo civilizado e artificializado: “Escolhia na floresta um local selvagem qualquer no qual nada fizesse lembrar a mão do homem ou expressasse a sua dominação coerciva, onde uma terceira pessoa não incomodasse interpondo-se entre mim e a natureza. Aí então revela-se aos meus olhos um esplendor sempre novo… a majestade das árvores que me cobriam com suas sombras; a delicadeza dos arbustos que me cercavam, a espantosa variedade de flores e ervas; isso tudo mantinha o meu espírito numa alternância constante entre observar e admirar.” (Carta a Malesherbes de Montmorency, 1762). Ademais, isso é complementado por uma concepção histórica, política e antropológica de valorização do homem natural. Livre da mácula deixada pelos artifícios e limitações da sociedade, ele teria gozado de uma vida plena de harmonia e liberdade tanto em relação à natureza quanto aos seus semelhante, inexistindo a noção de propriedade privada [5]. Contudo, em Rousseau trata-se menos de um “retorno ao passado” do que a constatação de que o homem, apesar da sociedade procurar corrompê-lo e aliená-lo, mantém ínsita e intacta sua “bondade natural”.

Já no poeta inglês William Blake (1757-1827) assume a forma de um protesto romântico veemente contra os efeitos nocivos da Revolução Industrial na Inglaterra, detectável, por exemplo, no seu poema “Londres”, ao problematizar as transformações e impactos sofridos pela cidade durante o processo de industrialização e urbanização caótica:

“Nas ruas por que passo, escrituradas,/Onde o Tâmisa corre, escriturado,/Vou reparando as faces maceradas,/Que a aflição e a moléstia têm marcado./Em cada grito de Homem ou no grito/Do Infante que de medo se lamente,/Em cada voz ou em cada interdito,/Ouço os grilhões forjados pela mente./Se grita o Limpador de chaminés,/Se assusta cada Igreja em seus escuros;/Quando suspira o Soldado, infeliz,/O sangue tinge do Palácio os muros./Mas o que à meia-noite escuto mais/É a meretriz lançar praga funesta,/Que do Recém-Nascido estanca os ais/E os funerais do Casamento empesta.” (In: “Canções da experiência”, trad. Renato Sutanna)

Georg W. F. Hegel (1770 – 1831)

Georg W. F. Hegel (1770 – 1831)

Mesmo em G. W. F. Hegel (1770-1831), que, apesar de buscar inspiração na filosofia-da-natureza e na Teosofia, nada tinha de romântico, é possível a extração de uma concepção “holística” e “sistêmica” da realidade, como uma totalidade formada de partes interconexas, uma rede de relações que se estrutura e reestrutura através de uma processualidade e de uma lógica dialéticas, ecoando hoje na teoria de sistemas e de auto-organização (CIRNE-LIMA, s/d). O sentido de totalidade e unidade com a natureza também é manifesto no amigo de juventude de Hegel e Schelling em Jena, o poeta F. Hölderlin (1770-1843). No poema “Hipérion” ele escreve:

“(…)Todo o meu ser cala e escuta quando as doces ondas do ar brincam à volta do meu peito. Perdido no imenso azul, levanto frequentemente os olhos ao Éter e inclino-os para o sagrado mar, e é como se um espírito familiar me abrisse os braços, como se se dissolvesse a dor da sociedade na vida da divindade. Estar unido a tudo, essa é a vida da divindade, esse é o céu do homem. Estar unido com tudo o que vive, voltar, num feliz esquecimento de si mesmo, ao todo da Natureza, este é o cume dos pensamentos e das alegrias, este é o sagrado cume da montanha, o lugar do repouso eterno onde a melodia perde o seu calor sufocante e o trono a sua voz, e o fervente mar se assemelha aos trigais ondulantes. Estar unido com tudo o que vive!”

Theodor Adorno (1903 – 1969)

Theodor Adorno (1903 – 1969)

Mais tarde, no século 20, teríamos muitos nomes importantes para mencionar. Contudo, vamos nos restringir a dois autores de calibre, cujas filosofias, apesar de muito diferentes em seus pressupostos e bases ideológicas, não obstante tinham inegáveis contornos românticos: M. Heidegger (1889-1976) [6] e T. W. Adorno (1903-1969). Em ambos os filósofos encontramos elementos frutíferos para uma crítica da crescente instrumentalização da razão, da ciência e da técnica, separando/alienando o homem da natureza, sobre a qual ele exerce sua vontade de poder cega e irrefreável.

Ecologia contemporânea

Modelo da ecologia contemporânea

Os autores citados acima podem ser considerados “precursores” menos ou mais distantes do pensamento ecológico contemporâneo; pensamento esse que se desenvolveria e tomaria delineamentos mais incisivos a partir dos anos 1950-1960, assim como ganharia maior adesão e respeito entre instituições internacionais, governos e sociedade civil, além da divulgação e debate dentro do espaço midiático. Evidentemente, não faz muito sentido pretender voltar às formas primitivas ou pré-modernas de modelo de desenvolvimento, como anseiam alguns ecologistas ultrarromânticos e tecnofóbicos, estigmatizando todo o avanço tecnológico, científico e econômico por causa da devastação ambiental que tem provocado, sem reconhecer suas contribuições positivas. Agora, possíveis soluções e propostas de intervenção político-social para a presente crise ecológica serão objeto de uma próxima análise, em breve.


Notas

1- Cf. La creacíon del mundo según Moisés (De opficio mundi), Fílon de Alejandria, In: Obras Completas, vol. I, Madrid: Editorial Trotta, 2009, pp. 107-158.

Também acerca do antropocentrismo, ver esta entrevista com o poeta e ecologista californiano Gary Snyder, em 30/05/2009:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,preciso-estar-pronto-para-a-poesia,379548

2- No âmbito da filosofia pagã antiga encontramos visões como a do filósofo estóico Marco Aurélio (121-180 EC), próximas do que hoje em dia chamaríamos de uma concepção ecológica e totalizante: “Penso sempre no liame que une todas as coisas no Universo e em sua mútua dependência. Todas as coisas estão interligadas umas como as outras, e por esta razão vinculam-se por laços de amizade, pois elas estão em relação umas com as outras devido à unidade de todas as substâncias. Harmoniza-te com as coisas que te foram dadas e ama sinceramente as pessoas que o destino te deu por companheiras.”

3- Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/naomi-klein-a-defesa-da-terra-e-pos-capitalista/

4- A respeito, indico meu pequeno texto sobre Jacob Boehme, panteísmo e Romantismo alemão: http://oantifilisteu.blogspot.com.br/2015/02/boehme-panteismo-e-romantismo-alemao.html

5- Sobre a relação entre Rousseau e o Romantismo, recomendo este texto do prof. Michael Löwy: http://www.esquerda.net/artigo/rousseau-e-o-romantismo/25638

6- Escreve Heidegger, em uma passagem que poderia ter sido escrito por um Wordsworth ou um Thoreau:

“…o apelo do caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que os cerca forem capazes de ouvi-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamentos procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seu ouvido retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entendiados só vêem monotonia a seu redor. O Simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se. O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente. Esses poucos, porém, serão, em toda a parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem engendraram para com ela entravar sua própria obra.O apelo do caminho do campo desperta um sentido que ama o espaço livre e que, em momento oportuno, transfigura a própria aflição na serenidade derradeira. Esta opõe-se à desordem do trabalho pelo trabalho: procurado apenas por si, o trabalho promove aquilo que nadifica.”(In: O problema do Ser/O caminho do campo. São Paulo: Livraria duas Cidades, 1969)


Referências bibliográficas

BOUTROUX, Émile. Aristóteles. RJ:  Record, 2001.

CIRNE-LIMA, Carlos Roberto Velho. Causalidade e auto-organização, s/d. Disponível In: http://www.cirnelima.org/beyond%20hegel-cirne-lima-causalidade.htm

COSTA, José Silveira. Max Scheler: o personalismo ético. SP: Moderna, 1996.

DUBOS, René Jules. O Despertar da Razão: por uma ciência mais humana. SP: Melhoramentos/Edusp, 1972.

GRÜN, Mauro. O conceito de holismo em ética ambiental e educação ambiental, pp. 45-50. In: Educação ambiental: pesquisa e desafios, Michèle Sato & Isabel Carvalho (orgs.). Porto Alegre: Artmed, 2005, Disponível In: http://www.institutoaf.org.br/Sato_artmed[1].pdf

LÖWY, Michael. Razões e estratégias do ecossocialismo, 2012. In: http://www.outubrovermelho.com.br/2012/11/01/razoes-e-estrategias-do-ecossocialismo-michael-lowy/)

MAGNAVITA, Alexey Dodsworth-. A filosofia para questões urgentes. In: Revista Filosofia: ciência & vida, Ano VI, edição 72, julho de 2002. Disponível In: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/72/artigo270960-1.asp

NASR, Seyyed Houssein. O Homem e Natureza. RJ: Zahar, 1977.

IdemO homem tradicional, o homem moderno e a crise ambiental,  julho de 2010, Disponível In: http://sabedoriaperene.blogspot.com.br/2010/07/o-homem-tradicional-o-homem-moderno-e.html

NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do & VIANNA, João Nildo. Dilemas e Desafios do Desenvolvimento Sustentável na Brasil. RJ: Garamond, 2007.

WILLER, Claudio. Alguns poetas da natureza e o sagrado. In: Revista Ecopolítica, São Paulo, n. 6, mai-ago, pp. 35-53, 2013.

Relatório Planeta Vivo 2012, WWF (Fundo Mundial para a Natureza), In:http://d3nehc6yl9qzo4.cloudfront.net/downloads/relatorio_planeta_vivo_sumario_rio20_final.pdf

Categoria: Ecologia, Filosofia, Filosofia da Natureza

Daniel Placido

Sobre o(a) Autor(a) ()

Sou Bacharel em Filosofia e especialista em História. Atuo como professor no ensino fundamental e médio. Sou membro do CEEO-UNASUR, centro dedicado ao estudo histórico-sociológico das tradições místicas e esotéricas. Minhas áreas de interesse: esoterologia, romantismo, gnosticismo, neoplatonismo e filosofia islâmica.

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