Etimologia, caracterizações e tipos de Misticismo

Etimologia

As influências do Misticismo grego

As influências do Misticismo grego.

Segundo António de Macedo [1], o substantivo “misticismo”, de cunhagem mais recente, tem sua origem em um adjetivo antigo, “mystikos”, o qual remetia aos mistérios, sobretudo os eleusinos. Por sua vez, a palavra “mistério” se originou da raiz my- (ou –mu), da qual derivaram verbos gregos como myeô (iniciar nos mistérios, sagrar, instruir) e myô (fechar a boca ou os olhos, guardar silêncio); dessa mesma raiz deriva o termo latino “mutus” (mudo) e deriva também o termo grego “mythos”, revelando-se aqui uma associação interessante, para alguns, entre silêncio e mito. Segundo ele (ibidem), na terminologia mistérica da Antiguidade os adjetivos “mystikos”(em grego) e “mysticus” (em latim) eram usados por remissão aos mistérios das religiões pagãs, de natureza iniciática; e o adjetivo “mysticus” passou, doravante, a significar o que era secreto ou misterioso, em sentido amplo. Apenas em um contexto já cristão, paulatinamente, “místico” e “mística” passaram a designar tanto o estado contemplativo das realidades espirituais superiores quanto a doutrina teológica correspondente.

Caracterização geral

O sufismo, conhecida como a corrente mística e contemplativa do Islão.

O sufismo, conhecida como a corrente mística e contemplativa do Islão.

Para designar tanto a prática em si quanto os suportes teóricos e metafísicos correlatos, falaremos de mística ou misticismo como uma forma de união direta, de contemplação, de contato íntimo da alma (e/ou do espírito) com Deus ou o Divino, ultrapassando a mera crença e as mediações puramente institucionais entre o homem e o transcendente (ao menos em determinado aspecto, sem necessariamente prescindir delas). O místico não obtém contentamento em ter unicamente fé no Divino ou em falar Dele, não aceita que outro faça o papel de mediador ou delegado exclusivo entre seu ser e o reino transcendente, tampouco fica satisfeito em participar dos ritos e atos da religião formalista, ainda que nada o impeça de participar disso tudo. Na realidade, até mesmo nos ritos e prescrições da religião formal o místico percebe um aspecto interior, mais sutil e profundo, como aponta um poeta sufi: “Para se aproximar de Deus, há algum caminho mais curto que a oração?” Ele respondeu: ‘A oração. Mas a oração não é somente essa forma exterior. Isso é o ‘corpo’ da oração; a oração formal comporta um começo e um fim, e tudo o que implica um começo e um fim é um corpo. […]. Portanto, a alma da oração não é somente sua forma: ela abre caminho para a absorção em Deus e para a perda da consciência. Assim, todas as formas são exteriores’”(Rûmî, “Fihi-Ma-Fihi”).

São Dionísio, o Areopagita ou Pseudo-Dionísio, uma forte influência em toda a mística cristã ocidental na Idade Média.

São Dionísio, o Areopagita, ou Pseudo-Dionísio, uma forte influência em toda a mística cristã na Idade Média.

Dessa maneira, o místico não pode prescindir de experimentar, saborear, vivenciar, conhecer o Divino direta e intimamente, em “primeira mão”, até sofrer uma transformação e virar um exemplar vivo desse “conhecimento”. Conhecer, querer e ser não se dissociam nesse domínio. Mesmo quando está inserido dentro de uma tradição regular, o místico procura algo “além”: explorar e atingir os fundamentos últimos desta tradição, até mesmo para reforçar sua confiança nela depositada. Isso é possível a partir da pressuposição de que o Divino não é apenas transcendente: ele é ao mesmo tempo imanente, reside no âmago ou centro do ser humano; teologia e antropologia são solidárias aqui. Essa experimentação, contato ou união mística com o Divino nem sempre é agradável (ou compreensível) aos olhos dos religiosos não-místicos, parecendo-lhes com frequência uma espécie de soberba e até mesmo megalomania; já o místico, por sua vez, não vê nisso nada além do seu direito e meta legítimas, pois parte da concepção de ter sido feito à imagem e semelhança divinas.

Goethe in the Roman Campagna (1786) de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

Goethe, uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu.

Não podemos nos esquecer da habitual incapacidade dos não-místicos de compreenderem a linguagem bastante peculiar, sibilina e simbólica a perpassar as obras e manifestações ligadas ao misticismo. O místico utiliza a linguagem para superá-la, e visa assinalar algo além da rede ordinária de sentidos e significações: “O nome é ruído e fumaça, e obscurece a claridade dos céus” (Goethe, “Fausto” I). Em aparente paradoxo, o místico acaba por tematizar o Silêncio e o Inefável através da linguagem, com uma riqueza imensa de metáforas e requintes verbais, uma verdadeira explosão de significados e sentidos. Ele busca provocar uma espécie de revelação, de teofania, compreendida além das palavras, ao mesmo tempo velando e protegendo o “mistério” dos “não-iniciados”. Não por acaso, muitos grandes místicos estão situados entre os grandes poetas (Rûmî, São João da Cruz, A. Silesius, Blake, Novalis, entre tantos outros), e mesmo quando o místico não pode ser considerado um poeta no sentido mais estrito da palavra, ainda assim sua linguagem se aproxima bastante do poético, como é o caso de um Jakob Boehme.

Formas da mística

Mestre Eckhart, um frade dominicano considerado como um dos grandes símbolos do misticismo intelectual.

Mestre Eckhart, um frade dominicano considerado como um dos grandes símbolos do misticismo intelectual.

Ora, é possível encontrarmos vários “tipos”, “modos” ou “formas” dentro da mística (ou das místicas). Elas correspondem aos “temperamentos” e “idiossincrasias” dos mais diversos místicos, assim como aos mundos culturais e religiosos distintos, nos quais esses indivíduos estão inseridos enquanto indivíduos e dos quais são ecos ou reflexos. Além disso, é forçoso admitir que o acesso direto e experimental ao Divino admite mais de um caminho ou método. A rigor, mesmo dentro de uma única e mesma religião/tradição mística encontramos, às vezes, enorme heterogeneidade. Por exemplo, no caso do cristianismo, basta fazermos o estudo comparado das vidas e obras de Agostinho, Mestre Eckhart, Hildegard von Bingen, Francisco de Assis, Bernardo de Claraval e João da Cruz, entre muitos outros, para notarmos um verdadeiro vitral de possibilidades de expressão e compreensão. Por conseguinte, podemos tentar delinear algumas formas básicas e mais recorrentes de mística, a partir de um estudo comparativo, inclusive atravessando limites e fronteiras culturais, entretanto sem a pretensão de esgotar o assunto ou considerar tais divisões algo além de um recurso teórico e exegético. Para tal, vamos citar alguns estudiosos e intérpretes das tradições místicas.

Com o enfoque apenas na tradição mística ocidental, Henrique C. de Lima Vaz [2] diferencia as seguintes formas, sem deixar de frisar quão precárias são estas divisões, não sendo estanques e absolutas, pois existem “comunicações” inter-categoriais:

  1. Mística especulativa: Platão, neoplatônicos pagãos, neoplatonismo cristão e suas variantes, J. Boehme (exemplos);
  2. Mística mistérica: mistérios gregos e mistérios cristãos (Paulo, João, Orígenes, como exemplos);
  3. Mística profética: textos neo-testamentários (como o Apocalipse joanino), S. João da Cruz.
Plotino, um forte nome da mística neoplatônica.

Plotino, um forte nome da mística neoplatônica.

Não é difícil notar a possível conexão simbólica, como o próprio Lima Vaz reconhece, a partir das várias alusões feitas, entre a mística especulativa (indissociável da filosofia) de um Platão ou um Plotino com os mistérios gregos. E tampouco precisamos ir tão longe para perceber que, por exemplo, um místico cristão como J. Boehme na realidade não era tão especulativo assim, sendo, a rigor, muito mais voluntarista e devocional, com a presença de uma alta dose de profetismo e do papel mediador da Graça divina em suas obras místico-teosóficas.

Por sua vez, Francisco G. Bazán [3], o qual leva em conta tanto a tradição mística do Ocidente quanto a do Oriente, propõe as seguintes distinções:

  1. Mística da transcendência divina: teísta e devocional, exemplificada por figuras como S. João da Cruz, Al Ghazzâlî, Râmânuja, Teresa de Ávila, Catarina de Siena;
  2. Mística da imanência: transpessoal e especulativa, exemplificada por figuras como Valentino, Shankara, Plotino e Mestre Eckhart;
  3. Mística voluntarista: voltada para a ação voluntariosa, exemplos: Jesus, Mani, Paulo, Bernardo de Claraval, H. Bergson.
Adi Shankara com os discípulos, em pintura de Raji Ravi Varma (1848-1906)

Adi Shankara com os discípulos, em pintura de Raji Ravi Varma (1848-1906)

Tais divisões, apesar de úteis e orientadoras para o trabalho crítico-histórico, têm suas evidentes limitações. Um exemplo: existe muito da mística devocional até mesmo em um místico especulativo como Shankara, ao compor (segundo a tradição) diversos hinos religiosos e devocionais de inspiração shivaísta.

Já o filósofo Ken Wilber [4] estabelece uma correlação entre as formas de misticismo e os “estados de consciência” (não se trata aqui de uma “hierarquia” exatamente):

  1. Misticismo da natureza: ocorre no estado de vigília, quando se tem um “êxtase” de comunhão com a natureza;
  2. Misticismo da divindade: ocorre no estado de sono, quando é possível sentir uma espécie de fusão com, por exemplo, uma chama de luz de amor radiante;
  3. Misticismo sem forma ou causal: acontece no estado de sono profundo, sem sonhos, quando ocorrem experiências descritas como vazias, sem formas, não-manifestas (Ayn Sof Aur, Brahman, Ungrund);
  4. Misticismo não-dual: tratam-se de experiências de “fruição”, em que a pessoa se sente em comunhão com tudo que está surgindo, em qualquer estado.
Gravura de Novalis, da autoria de Friedrich Eduard Eichens (1845).

Gravura de Novalis, da autoria de Friedrich Eduard Eichens (1845).

Acrescentamos de nossa parte e responsabilidade, a primeira forma (misticismo da natureza) é muito comum em vários poetas com propensão panteísta, por exemplo, Whitman ou Novalis. A segunda (misticismo da divindade), em místicos com uma tendência mais teísta ou “bhakti”, como, por exemplo, São João da Cruz ou A. K. Emerich. E a terceira (misticismo causal), em místicos especulativos como Plotino, Eckhart ou Shankara. Cabe notar, todavia, que podemos encontrar essas três primeiras formas (e mesmo a quarta, misticismo não-dual), ao mesmo tempo, em um J. Boehme, desde que ele não seja tomado por um “panteísta”, porquanto reconhecia na Natureza apenas um reflexo de Deus, e não uma parte do próprio.

Para concluir, por tudo que vimos até aqui, podemos assumir quão complexa e heterogênea é a mística (ou místicas), e é forçoso relativizar essas categorias ou formas propostas, apesar do seu valor “didático” e comparativo. É preciso reconhecer sempre a singularidade de cada autor e de cada obra, mesmo quando ele tem em comum com outros uma mesma tradição e mesmo quando a mística pode apresentar elementos universais e transculturais.


Notas

1. In: Cristianismo iniciático. Lisboa: Ésquilo, 2011, pp. 27 ss; Cf. Francisco G. Bazán, In: Aspectos inusuales de lo sagrado, pp. 93-97, pp. 79-100, Madri: Editorial Trotta, 2000
2. In: Experiência mística e filosofia na tradição ocidental, SP: Loyola, 2000, pp. 29-75
3. Ibidem, pp. 93-97, pp. 79-100; Idem, La religíon y lo sagrado, pp. 36-37, In: El estúdio de la religíon, Francisco Velasco y Francisco G. Bazán, Madrid: Editorial Trotta, 2002.
4. In: A visão integral. SP: Cultrix, 2008, p. 139


Bibliografia complementar

AGOSTINHO, SANTO. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2001.
BERDIAEFF, NICOLAS. Esprit et réalité. Paris: Editions Aubier Montaigne, 1950.
BOEHME, J. Aurora nascente. SP: Paulus, 1998.
BURKERT, WALTER. Antigos cultos de mistério. SP: Edusp, 1992.
ECKHART, MESTRE. Sermões alemães. Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/Editora Universitária São Francisco, volume I (2006) e volume II (2008).
NASR, S. H. Sufismo vivo: ensayos sobre la dimensión esotérica del Islam. Barcelona: Herder, 1985.
REALE, GIOVANNI. Plotino e neoplatonismo. SP: Edições Loyola, 2008.
SCHOLEM, GERSHOM. A Cabala e seu simbolismo. São Paulo: Perspectiva, 2006.

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Categoria: Espiritualidade, Filosofia da Religião, Misticismo

Daniel Placido

Sobre o(a) Autor(a) ()

Sou Bacharel em Filosofia e especialista em História. Atuo como professor no ensino fundamental e médio. Sou membro do CEEO-UNASUR, centro dedicado ao estudo histórico-sociológico das tradições místicas e esotéricas. Minhas áreas de interesse: esoterologia, romantismo, gnosticismo, neoplatonismo e filosofia islâmica.

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