A Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg

Marshall Rosenberg (1934 - 2015)

Marshall Rosenberg (1934 – 2015)

Seria um feito atípico discordar da importância da linguagem no que diz respeito a Filosofia ou a qualquer investigação acerca da humanidade, quer seja sobre uma possível natureza humana quer seja sobre a teknè. Isso porque a linguagem traduz uma característica peculiar a nossa espécie, sendo esta para muitos exatamente o nosso diferencial diante dos entes que nos circundam, ademais, dentre todas as coisas a linguagem não só permite como constitui o fato de sermos zoon politikon, isto é, animais políticos. Contudo, para além de questões epistêmicas ou quiçá ontológicas acerca da linguagem humana, há em sua genuína práxis um debate essencial: sua aplicabilidade ética na comunicação entre nós mesmos e por nós mesmos.

Parece-me então que Marshall Rosenberg ao fundar a CNV [Comunicação Não Violenta] trouxe uma importante contribuição ao debate que circunda não só a linguagem, como também a ética aplicada tal como a subjetividade humana e suas propriedades. A princípio o conjunto de ideais que formam a CNV tem como base a noção de que a Vida se expressa através de Valores ou também dito como Necessidade/Princípios, Valores estes que jamais são (ou não são) de forma mecânica, mas, ao contrário, vem a ser, isto é, Valores que estão sempre em processo de construção ou ainda em desconstrução.

Então, estar em conformidade com a expressão dos Valores é viver a vida em seu sentido mais profundo. Segundo o próprio Marshall a linguagem a qual estamos habituados (denominada por ele de linguagem chacal) é uma linguagem desenvolvida a fim de uma naturalização da violência, uma linguagem que traduz a violência como algo não só acessível como também agradável, havendo uma série de motivos políticos e teológicos que justificam a predominância da linguagem chacal entre nós. Marshall, por exemplo, aponta que a noção segundo a qual o homem é inatamente mau resulta em uma linguagem punitiva, controladora e dominadora – isto é, as noções de bem e mal, certo e errado, etc, quando enraizadas culturalmente em nossa linguagem, são o pivô para uma linguagem agressiva, isso porque essas noções implicam em ações punitivas e desconsideram o contrário do elemento chave para a CNV: a empatia – diz Marshall: “O que almejo em minha vida é a compaixão, um fluxo entre mim e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração”.

Dentre outros efeitos, um dos malefícios da linguagem chacal consiste em isentar nossa responsabilidade sobre o que sentimos ou sobre como agimos através de uma linguagem agressiva, isto é, se explicito a ti que és um “idiota” porque não lavastes o prato, quero dizer não que és estupido por não lavar os pratos, mas que eu nutri expectativas para tal e portanto me frustrei com isto, em suma (e não somente em tese mas também em prática), a CNV tem um resultado absolutamente mais positivo do que uma comunicação violenta, esta a qual dificilmente causa reflexão e compreensividade, mas, ao contrário, traz à tona sentimentos negativos como raiva, frustração e nenhum estímulo para a mudança.

Portanto, tal como não é possível dissociar a linguagem da comunicação, a comunicação da subjetividade, a subjetividade da cultura, a cultura da ética etc, é necessário uma severa análise sobre a maneira como nos comunicamos uns com outros, sobre a maneira em que a Vida se expressa através de nossos Valores, e sobre como expressamos nossos Valores através de nossas estratégias – o que brilhantemente faz Marshall com a sua Comunicação Não Violenta.

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Categoria: Filosofia Contemporânea, Filosofia da Linguagem, Filosofia Social e Política, Política, Psicologia e Neurociência

Iana Cavalcanti

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, fascinada por boa parte da produção de conhecimento humano, com ênfase na atividade filosófica em uma gama um tanto quanto variada de assuntos.

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