O naturalismo biológico e a consciência em Searle

Mente e CorpoJohn Searle (1932), uma vez que acredita serem os problemas neurobiológicos da consciência[1] passíveis de reflexão filosófica, se propõe a resolver o impasse da relação entre a mente e o corpo (de que modo os problemas cerebrais causam a consciência e de que modo a consciência se realiza no cérebro?[2]), sendo isso o que ele chama de “naturalismo biológico”[3]. Todavia, considerando vários aspectos dos fenômenos conscientes, o filósofo leva em conta que as descrições de estados mentais e processos cerebrais se referem à mesma coisa mas em diferentes níveis[4]. Senão por isso, parece-lhe estranho que “os neurocientistas se [recusem] (…) a tratar do problema da consciência, já que uma das principais funções do cérebro é causar e manter os estados conscientes”[5]. Adiante, são nestes estados que Searle encontra na mente humana uma qualidade particular, quer dizer, uma característica tal, a subjetividade, “que distingue os fenômenos mentais de tudo o que mais existe”[6]. Eis então que lhe aparece um ponto no mínimo supostamente contraditório, isso porque ele afirma, ao mesmo tempo, a redutibilidade causal e a irredutibilidade ontológica, isto é, duas teses até então contraditórias acerca dos processos cerebrais e suas relações causais, são elas:

 (1) A consciência é causalmente eficaz sobre o comportamento humano (cf. Searle, 2004, p. 207);

(2) As capacidades causais da consciência são as mesmas dos processos cerebrais (cf. Searle, 2004, p. 127);

(3) Processos cerebrais causam o comportamento humano (cf. Searle, 1983, p. 269-70);

(4) A consciência e os processos cerebrais não são idênticos (cf. Searle, 1992, p. 117; Searle, 2004, p. 119)[7];

(5) O comportamento humano tem apenas um tipo de causa, não é sobredeterminado (cf. Searle, 2002b, p. 62).[8]

Embora, por um lado, parte de sua teoria indique um tipo identidade física (reducionismo) e, ao contrário, quando leva em conta as propriedades subjetivas da consciência, por outro, Searle recua à irredutibilidade ontológica, a totalidade de sua visão, nesse sentido, não se contradiz se compreendermos que, de fato, i.g., a ocorrência de um processo de dor é uma ocorrência de um processo neurobiológico no cérebro, mas disso não se segue que a consciência da sensação dolorosa em primeira pessoa é a mesma coisa que o processo neurobiológico de terceira pessoa[9] donde se entende que no nível subjetivo temos a consciência, e no nível objetivo, os sistemas cerebrais; logo, os comportamentos humanos possuem simultaneamente duas causas grosseiramente similares ao dualismo de propriedades[10]: os processos cerebrais e os estados de consciência[11]. No entanto, isso não significa que a consciência seja algo “acima e além” dos processos cerebrais, já que ela é causalmente redutível a esses processos[12].

Mas o que exatamente é a consciência para Searle? Ora, o filósofo recorre a uma visão holística, sendo ela uma totalidade articulada segundo a qual, em conformidade com o senso comum[13], a consciência engloba e articula uma multiplicidade de fenômenos mentais. Além disso, seus estados e processos abarcam a sensibilidade ou a ciência e são “internos, qualitativos e subjetivos”[14]. Portanto, ela integra todas as características que o indivíduo possui em estado de vigília (das afecções às opiniões e/ou crenças) que se dão pela combinação de qualidade, subjetividade e unidade, isto é, as três facetas de seu aspecto fundamental. Em primeiro lugar, o caráter qualitativo faz com que a experiência de cada fenômeno seja particularmente diferente, em decorrência da subjetividade que, por sua vez, corresponde ao fato de que os estados conscientes têm o que Searle chama de uma ontologia de primeira pessoa pois, diferentemente da ontologia de terceira pessoa, i.g., das montanhas e das moléculas, as quais podem existir mesmo que não haja nenhuma criatura viva, elas somente existem quando são experimentadas por algum indivíduo humano ou animal[15]. Ao lado de ambas, qualidade e subjetividade, está necessariamente a unidade[16], pois todas as experiências de um indivíduo fazem parte de um campo consciente unificado[17].

São também características da consciência a intencionalidade, a distinção entre o centro e a periferia da atenção, a implicação das experiências humanas conscientes em determinado humor e na dimensão prazer e desprazer, a estrutura gestáltica e a familiaridade, das quais só explanaremos as duas primeiras[18]. A intencionalidade é a propriedade que os estados mentais possuem de se dirigir a objetos e estados de coisas do mundo exterior. Searle exemplifica que todas as crenças, esperanças, intenções, desejos e percepções são intencionais, logo possuem conteúdo referencial. No entanto, apesar desta exterioridade, a consciência já existe antes do estado das coisas, dos eventos ou mesmo dos processos mentais, por isso Searle a chama de consciência pré-reflexiva. Quanto à distinção entre o centro e a periferia da ação, o filósofo argumenta que todo indivíduo é capaz de mudar a qualquer momento o foco de sua atenção de um aspecto para outro.

No que diz respeito a uma aproximação com a linguagem da ciência, Searle recorre ao uso da consciência como propriedade emergente, segundo a qual o cérebro é a sede da mentalidade, isto é, uma propriedade que surge das interações entre elementos de um sistema. Sua tentativa, portanto, é de preservar as características especificas dos fenômenos mentais e, ao mesmo, mostrar como elas são perfeitamente compatíveis com as características do mundo físico e não possuem natureza espiritual alguma, donde se segue que o aspecto consciente em sua totalidade pertence ao reino da natureza.

Levando em consideração todos estes aspectos, a percepção de Searle sobre a consciência pode até se mostrar aparentemente contraditória e confusa, no entanto, uma vez analisada globalmente, ou melhor, compreendida que a consciência não é a soma das partes físicas de um sistema, mas algo maior ainda que tenha uma relação inteligível com suas partes, percebe-se como o filósofo não se contradiz com as teses iniciais (1), (2), (3), (4) e (5). Na realidade, sua teoria, inteiramente nova, à medida que rejeita tanto o reducionismo quanto o dualismo, é mui proveitosa para o debate mente e corpo – eis como, segundo suas próprias palavras,

Essas categorias [reducionistas e dualistas] devem ser completamente rejeitadas. Sabemos o suficiente sobre como o mundo funciona para entender que a consciência é um fenômeno biológico causado por processos cerebrais e realizado na estrutura do cérebro. Ela é irredutível não porque seja inefável ou misteriosa, mas porque tem uma ontologia de primeira pessoa e, portanto, não pode ser reduzida a fenômenos com ontologia de terceira pessoa. O erro que mais se comete, tanto na ciência como na filosofia, é supor que, se rejeitarmos o dualismo, como acredito que devemos fazer, teremos de adotar o materialismo. Mas, segundo minha concepção, o materialismo é tão confuso quanto o dualismo porque nega de antemão a existência da consciência ontologicamente subjetiva.[19]

Uma vez fundamentado isto, Searle acabar por atribuir à consciência o naturalismo biológico que é, finalmente, uma concepção que nega, ao mesmo tempo, o dualismo e o materialismo. Assim, concebendo tanto o aspecto subjetivo quanto o objetivo, o filósofo mostra que a subjetividade ontológica não impede a filosofia de ter objetividade epistêmica[20].


Notas

[1] A consciência, para Searle, é uma característica de nível superior do cérebro.

[2] Cf. SEARLE, 2010, p. 69.

[3] Cf. SEARLE, op. cit., p. 54-55; “No final das contas, acho que essa é a maneira correta de pensar a forma da consciência – trata-se de um problema biológico como qualquer outro, porque a consciência é um fenômeno biológico da mesma forma que a digestão, o crescimento ou a fotossíntese. No entanto, diferentemente de outros problemas da biologia, há problemas filosóficos recorrentes em torno do problema da consciência”.

[4] Cf. PRATA, 2011.

[5] SEARLE, op. cit., p. 52.

[6] Cf. PRATA, 2011.

[7] Esta citação expressa um dualismo ontológico pouco promissor atualmente.

[8] Apud. PRATA, 2011.

[9] Cf. SEARLE, 2004, p. 125; PRATA, 2011.

[10] Segundo Abbagnano (Dicionário de Filosofia, 2014), de acordo com Christian Wolff, “’dualistas são aqueles que admitem a existência de substâncias materiais e de substâncias espirituais’ (Log., § 39). Esse foi o significado que se tornou mais comum e difundido na tradição filosófica. Segundo ele, o fundador do dualismo seria Descartes, que reconheceu a existência de duas espécies diferentes de substâncias: a corporal e a espiritual (…)”.Contudo, com o passar do tempo, o dualismo cartesiano se tornou muito criticado na filosofia da mente, por conseguinte, se na atualidade ainda há teóricos que defendam a dualidade, é a partir do dualismo de propriedades, que diz que o mundo é constituído por apenas um tipo físico de substancia, e a partir dele existem as propriedades físicas e as propriedades não-físicas ou mentais.

[11] PRATA, 2011.

[12] PRATA, op. cit.

[13] A definição de consciência é constituída por Searle com base no senso comum porque segundo ele não é possível defini-la somente analiticamente sem que com isso se exclua seu aspecto qualitativo, assim ele acaba por delimitar apenas empiricamente o fenômeno consciente.

[14] Cf. SEARLE, 2010, p. 55.

[15] Cf. SEARLE, op. cit. p. 58-59.

[16] A unidade pode ser sincrônica ou diacrônica – se por um lado a sincrônica integra todos os estados mentais vivenciados pelo individuo num dado momento, diacrônica, por outro, realiza um processo semelhante tendo por base o tempo, quer dizer, o passado (podendo ele ser preservado na memória ou esquecido) e os fenômenos subsequentes (futuro).

[17] Cf. SEARLE, op. cit.

[18] Para saber mais consultar a obra Consciência e Linguagem de John Searle (Outras características, Característica 4, 5, 6 e 7.

[19] SEARLE, 2010, p. 70.

[20] Cf. SEARLE, op. cit., p. 73.

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Categoria: Biofilia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Mente, Psicologia e Neurociência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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