Lana Del Rey, a poetisa da melancolia

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Lana Del Rey, a Nancy Sinatra Gansgster

Lana Del Rey, embora considerada por muitos uma das segmentações do mercado da indústria cultural, parece por outro lado realmente se preocupar com a arte que faz. Isso porque seu processo criativo, saltando por sobre o mercado pop americano comum, tem um teor subjetivo tal que clama pelo olhar perscrutador do público. Aliás, mesmo seu estilo vintage das décadas de 1950 e 1960 não é facilmente encontrado numa das pré-fabricadas canções da indústria pop atual. Basta ver seu teor nostálgico, cinematográfico e sobretudo poético para enxergar que Del Rey carrega consigo uma forte influência literária e musical oriunda das mais diversas fontes e, oportuno salientar, continuamente envolta de muita sensualidade – ela mesma se descreve como uma “Nancy Sinatra Gansgster” ou a “Lolita perdida na floresta” sob as influências sincréticas de Allen Ginsberg, Elvis Presley, Amy Winehouse, Nina Simone, Billie Holiday, Frank Sinatra, Jim Morrison, Leonard Cohen, Bob Dylan, Kurt Cobain e Eminem.

Ride (Paradise)

Em Ride, por exemplo, Lana poetiza os mais profundos desejos e princípios que nela permanecem desde a primeira adolescência, recita ela: “Eu sempre fui uma garota incomum. Minha mãe dizia que eu tinha uma alma de camaleão sem uma bússola de moral apontando para o norte, sem personalidade fixa, apenas uma indecisão interior tão ampla e ondulante como o oceano. E se eu dissesse que não planejei isso para ficar desse jeito eu estaria mentindo, porque nasci para ser a outra mulher. Eu não pertencia a ninguém, pertencia a todo mundo; não tinha nada e queria tudo, tinha um desejo ardente por cada experiência e uma obsessão pela liberdade”.

Body Eletric (Tropico)

Além desta íntima busca existencial de Ride, Lana acrescenta em sua arte um genuíno aspecto cósmico apresentado, i.g., em Tropico, seu primeiro (e até então único) curta-metragem dirigido por Anthony Mandler. O filme é “um conto épico baseado na história bíblica do pecado e da redenção” e, inspirado pelo poeta americano Walt Whitman, tem como trilha sonora Body Eletric, God & Monsters e Bel Air. Sua primeira canção, referência direta ao poema I sing the Body Eletric de Whitman, explora a ligação entre o corpo e a alma, traduzindo de maneira sui generis o Desejo como se fosse o Apocalipse. Quanto ao seu cenário, ele nos transporta ao Jardim do Éden sob os ecos de John Wayne que, interpretando o próprio Deus antropomórfico, cria Jesus, Elvis Presley e Marilyn Monroe. Terminada a música, Lana recita: “Eu canto o corpo elétrico; o exército das pessoas que amo cerca a mim, e eu o cerco. Elas não vão me deixar fora até eu ir com elas, responder a elas, e descarregá-las e carregá-las completamente com a carga da Alma. Feminilidade, e tudo o que é a mulher – e o homem que vem de mulher; o útero, as mamas, mamilos, o leite materno, lágrimas, risos, choro, visuais amorosos, perturbações amorosas e ascendência. A voz, articulação, língua; sussurrando, gritando em voz alta. Comida, bebida, pulso, a digestão, suor, sono; andar, nadar, controle nos quadris. Saltos, bamboleio, abranger, curvar os braços e apertar. As mudanças contínuas do cabo flexível da boca e ao redor dos olhos. A pele, a sombra queimada pelo sol, sardas, cabelos. A simpatia curiosa que ela sente com a mão na carne nua do corpo. O ciclo da respiração, inspira e expira. A beleza da cintura, daí o quadril, e então para baixo em direção aos joelhos. As gelatinas vermelhas finas dentro de você ou dentro de mim – os ossos, a medula nos ossos. A realização requintada da saúde; oh, eu digo: estas não são partes e poemas só do corpo, mas da alma. Oh, digo, agora esses são da alma!”. Em seguida, é explorado o pecado, a manipulação e a obstrução da liberdade de outrora – eis quando Adão e Eva são apresentados vivendo em Los Angeles proclamando que “Em uma terra de deuses e monstros, (…) [Del Rey] era um anjo vivendo no jardim do mal. Estragada, amedrontada, fazendo tudo o que precisava, brilhando como um farol de fogo”. Inclusive, é nesta música que ela diz: “A vida imita a arte” – incidindo assim na relação entre os mais profundos e líricos aspectos da existência humana. E, finalmente, canta sua última música, Bel Air, que apresenta a combinação perfeita entre ritmo e verso e faz com que o ouvinte seja tomado, gradativamente, por um estado de Graça.

Born To Die (Born To Die)

Deveras, muitas outras de suas músicas incidem em questões divinas e/ou da existência espiritual humana – em 24 ela mostra como um dia, que contém tão-só 24 horas, não dá ao homem tempo suficiente seja para mentir como se mente seja para amar como se ama, quer dizer, para viver como se deve viver; em All You Need, por sua vez, Lana sugere que cada um tem o direito de viver sua vida como ninguém mais vive nem poderia viver, tudo o que precisamos – canta – é de um pouco de paz enquanto estamos aqui; e eis que em Born to Die ela proclama que nós nascemos para morrer (somos um ser-para-a-morte) e, aos ecos de Disco, anuncia: “Eu sou o meu único deus”. Que isso quer dizer não sabemos ao certo, afinal, como esgotaríamos uma interpretação acerca de um escólio que apresenta tanto elementos da cultura new age quanto do Cristianismo?

Lana Del Rey e o Cristianismo

Retomando então seu aspecto cristico, além do curta Tropico, em Don’t Let Me Be Misunderstood Del Rey diz: “Deus – com D maiúsculo – por favor, não me deixe ser mal interpretada (…) Eu sou apenas uma alma com boas intenções (…) A vida tem seus problemas e eu tenho uma parte maior do que a que posso suportar, mas isso é algo que nunca foi minha intenção fazer porque eu o amo. Eu sou apenas humana. Você não sabe que eu tenho falhas como todo mundo? Às vezes eu me encontro sozinha, me arrependendo de coisinhas bobas e certa coisa que eu tenha feito, mas eu sou apenas uma alma com boas intenções. Eu tento tanto, não me deixe ser mal interpretada…”. E mais explicitamente em God Knows I Tried ela canta: “Deus sabe que eu vivo, Deus sabe que eu morri, Deus sabe que eu implorei, emprestei e chorei. Deus sabe que eu amei, Deus sabe que eu menti, Deus sabe que eu perdi, Deus me deu a vida, Deus sabe que eu tentei – Então que haja luz, ilumine a minha vida; Deus sabe que eu tentei”. Contudo, sua profundeza não se esgota em Cristo (tampouco em Wayne, Elvis e Monroe). Se é fato que suas músicas não recusam a simbologia do Cristianismo, por outro lado parece que elas estão atreladas sobretudo ao caráter mítico e existencial do mesmo.

Dark Paradise (Born to Die)

Dark Paradise (Born to Die)

Com efeito, a poética de Lana Del Rey é criada para a nova era que vive o rock and roll enquanto estilo de vida. Ela fala – conforme expressam suas próprias palavras (Cf. Brooklyn Baby) – para a sua geração, aquela nova geração que “mistura romances com a poesia da geração Beat sob o efeito de anfetaminas”. Assim Lana Del Rey canta em nome daqueles e daquelas que “preferem estar mortos”, mas de algum modo continuam fazendo algo, criando algo, como se fossem o último homem, a última mulher na Terra. Lana Del Rey canta em nome daqueles e daquelas que não sabem por que seus corações continuam batendo, por que seus olhos continuam chorando, por que o mundo continua existindo. Lana Del Rey é a artista que canta ao som do pânico e do medo, que “fica bonita mesmo quando chora”. Lana Del Rey escreve para os que conseguem ver através das lágrimas, para os que o coração se rompe a cada passo que se dá, para os que veem a crueldade do mundo, para os que sentem a ultraviolência da melancolia. Lana Del Rey é a artista que clama – “por favor, não me deixe triste, não me faça chorar”. Lana Del Rey é a poeta que versa – “toda vez que fecho meus olhos, é como um paraíso escuro”. Lana Del Rey é a garota que tem aquela tristeza de verão – por isso ela escreve para os que veem o abismo, para os que têm uma alma elétrica, um corpo elétrico mas, sobretudo, para os que encontram o paraíso em algum lugar da Terra ao lado de quem ama.

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Categoria: Artes e Letras, Música e Pintura

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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