Eros e Psique

Eros e Psiquê (Museu do Louvre, Antônio Canova)

Eros e Psiquê (Museu do Louvre, Antônio Canova)

Existem muitos símbolos e mitos que representam o amor, dentre eles as mitologias grega e romana narram a história de Eros e Cupido respectivamente, deus comumente representado ora como um jovem belo e sensual ora como uma criança alada (FEITOSA, 2004). Uma de suas narrativas mais antigas é a história de Eros e Psique, mito conhecido principalmente pelas descrições do autor romano Apuleio (Eros e Psiquê. In: Metamorfose, livros IV, V e VI.), de Molière (Psyché, uma peça teatral) e de Jean de La Fontaine (Os Amores de Psique e Cupido).

Dentre as várias versões da história, conta-se que “Psique era uma linda princesa, adorada por todos como uma deusa e Afrodite, por ter inveja dela, mandou que a amarrassem em uma pedra no alto da montanha para esperar a morte, e ainda para se certificar de sua destruição mandou seu filho Eros para fazê-la se apaixonar por um monstro que viria buscá-la. Eros vai à montanha, mas, ao vislumbrar Psique, acidentalmente espeta o dedo em uma de suas flechas e apaixona-se por ela. Imediatamente decide tomar a jovem por esposa e pede ao Vento Oeste, seu amigo, que a transporte gentilmente do topo do rochedo ao vale do Paraíso, o que é feito”. (JOHNSON, 1987, p. 22 e (VENSON, 2011, p. 40). Notoriamente essa breve síntese carrega uma extensa e bela história. Aos que desejam conhecê-la integralmente, caminhemos a um de seus possíveis inícios.

Uma rainha deu luz a três filhas mortais. Embora as duas mais velhas fossem muito formosas, a beleza da mais jovem, Psique, era tão maravilhosa que palavras não poderiam expressá-las. Sua fama tornou-se grande, homens de todo lugar prestavam-lhe elogios incalculáveis, dignos apenas da própria Vênus/Afrodite, mãe de Eros/Cupido e deusa da beleza, do amor e da sexualidade. Tais honras ofenderam profundamente a deusa que, sem aceitar pleitear com uma jovem mortal, chamou seu filho alado Eros/Cupido para castiga-la com a seguinte vingança: brotaria em seu peito uma paixão por algum ser baixo de sorte que ela pudesse colher uma mortificação tão grande quanto o júbilo e o triunfo que andava por desfrutar. Eros/Cupido, em vista de obedecer às ordens maternas, dirigiu-se ao quarto de Psique, mas ao derramar-lhe algumas gostas de amargura sobre os lábios, feriu-se com a própria flecha que carregava. Foi assim que acidentalmente o próprio deus do Amor tornou-se apaixonado por Psique.

A jovem, desdenhada a mando de Vênus/Afrodite já que Eros/Cupido derramou-lhe a amargura, continuou bela, mas sua beleza não mais conseguia despertar o amor de homem algum. Essa razão preocupou seu pai quando o mesmo viu suas duas outras filhas, não tão belas quanto Psique, desfrutando do matrimonio. Foi quando decidiu consultar o oráculo que, induzido por um arquitetado plano de Eros/Cupido, respondeu: — Psique não se destina a ser esposa de um amante mortal. Seu futuro marido a espera no alto da montanha. É um monstro a quem nem os deuses nem os homens podem resistir.

Obedecendo o oráculo, Psique foi levada ao seu destino, e, casando-se com um marido desconhecido – era Eros/Cupido que preferiu apresentar-se como invisível e oculto – foi conduzida pelo vento Zéfiro a um palácio repleto dos mais belos tesouros e produtos da natureza e da arte. Psique, porém, pediu ao seu esposo para vê-lo, mas Eros/Cupido recusou a aparecer dizendo: – Prefiro que me ames como igual a que me adores como deus.

Psique enquanto Eros dorme.

Psique iluminando o rosto do desacordado Eros.

Surpreendida, Psique aceitou seu clamor e não mais pediu para vê-lo. No entanto a situação mudou quando encontrou suas duas irmãs, que perguntaram-na como se contentaria por nunca ter visto a face do marido com quem recebera do oráculo o alerta de ser uma horrenda criatura. As irmãs fizeram uma sugestão: – Quando ele dormir, toma de uma lâmpada e uma faca. Com uma ilumina o seu rosto, com a outra, se for mesmo um monstro, mata-o.

Ouvindo suas irmãs, enquanto Eros/Cupido dormia, Psique iluminou seu rosto e o viu pela primeira vez. Era um belo marido de rosto corado e cabelo loiro. Espantada e admirada, a jovem desastradamente o queimou. Eros/Cupido acordou com os ombros fervendo e Psique encontrou o Amor ferido. Ele enlouqueceu e sucessivamente voou para longe dizendo: – O amor não sobrevive sem confiança. Arrasada, a jovem Psique fez de tudo para reconquistar o Amor perdido, e, advertida a render-se a Vênus/Afrodite a fim de tentar restituir o marido, dirigiu-se ao templo da deusa.

Vênus/Afrodite, tendo a ciência de que fora enganada por seu filho, alegou que concederia o pedido de Psique somente se a jovem fosse capaz de cumprir uma série de tarefas. A deusa imaginou que durante sua execução a beleza de Psique seria desgastada e perdida ou mesmo que ela nunca as realizaria. Mas Psique sabiamente as foi realizando: separou dispersos grãos em uma montanha, trouxe uma lã de ouro dum velocino, encheu um pote com a suja água da nascente do Rio Estige… Quando só restava uma tarefa a ser cumprida, Afrodite, percebendo que teria de usar de meios mais poderosos para não ser vencida, inventou ter perdido um pouco de sua beleza por cuidar do ferimento de Eros, pedindo-lhe que fosse ao Reino dos Mortos implorar a sua rainha, Perséfone, por um pouco de sua beleza.

Psiquê sendo resgatada por Eros, William Bouguereau, "L'enlèvement de Psyché"

Psiquê sendo resgatada por Eros (William Bouguereau, L’enlèvement de Psyché).

Assim Psique colocou um pouco da beleza de Perséfone numa caixa, mas, ao abri-la, nada encontrou de beleza, viu apenas um infernal e verdadeiro sono que dela tomou posse e a fez cair como um cadáver. Eros/Cupido, restabelecido de seu ferimento, não suportou a ausência de Psique. Fechou então o corpo de sua amada na caixa e a acordou com uma de suas flechas. Imediatamente voou até Júpiter/Zeus suplicando-lhe que advogasse em sua causa. Por fim o deus deu a Psique uma taça de ambrosia tornando-a imortal.

Foi assim que Psique, unida a Eros/Cupido, tornou-se imortal e teve uma filha cujo nome foi Prazer. Psique junto do Amor tornou-se pura e pronta para gozar de uma plena e verdadeira felicidade.

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Categoria: Mitologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (3)

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  1. Ismar Dias disse:

    Como pude viver até agora desconhecendo esse mito?
    Ulisseu, Aquiles, Helena de Troia, as tragédias de Sófocles e Homero, porque o conto de Eros e a Psique não tem igual fama?

    Estamos acostumados a discutir sobre política, moral, ética, mas o amor, as vezes, é tão banal!

    Oh Lord Byron! Oh Goethe! Oh Álvares de Azevedo!
    Escutai as minhas preces que se erguem como um gemido grego:

    “Ai de mim! O amor ainda nos levará longe, tão longe o quanto as assas de Eros puder levar.”

    • Esse mito tem uma grande fama nas obras de arte, inúmeros artistas trabalharam em cima dele. Creio que seja mais desconhecido apenas em nossos dias.

      Mas é uma narrativa fantástica, não é? Se analisarmos suas partes com calma, extrairemos uma série de ensinamentos.

  2. Bruno Barreto Cordeiro Silva Bruno Barreto Cordeiro Silva disse:

    De fato Natalia, essa história é fantástica. Pensei o mesmo sobre os ensinamentos que têm total respaldo na psicologia moderna principalmente na psicanalise. Freud comenta em suas obras diferentes mitos e os explica, depois Jung faz o mesmo (e mesmo tendo aprendido a fazer interpretações psicossociais de mitos gregos com seu mestre, faz com mais maestria que ele. É extremamente profundo e imagético o conhecimento que está nos mitos, não só nos romanos e gregos mas todos antigos mitos da humanidade.

    Quanto a Ismar acho que a maioria não conhece nem os mitos mais comumente conhecidos por nós, como o de Édipo e Antígona; ninguém lembra dela, talvez mais importante socialmente hoje do que na época (pelas atuais ondas feministas), os cultos ditos “eruditos” só conhecem Eros, Psique, Vênus, Zéfiros e outros porque gostam de arte ou gostam de “posar com arte” ao comprar obras e replicas de esculturas do renascimento como também pinturas(como “O Nascimento de Vênus” de Sandro Botticelli em que até hoje se fazem estudos do quadro não só pela referencia mas por conta das implicações politicas e sociais das “idéias” expostas no quadro na época em que foi pintado).

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