A Caixa de Pandora do Século XXI

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Uma nova caixa de Pandora foi aberta.

Como consequência dos séculos e séculos da política intervencionista norte-americana (a exemplo das doutrinas Monroe, do Destino Manifesto e do Big Stick), imprevistamente os Estados Unidos ajudou na fomentação da ditadura na América Latina, na África e na Ásia; eis que suas decorrências paradoxalmente garantiram e colocaram em risco a Pax Estadunidense.

Ora, a origem da intervenção dos Estados Unidos em outras nações ocorre desde o início do século XIX. Nesta época a parte ocidental do Mediterrâneo era repleta de corsários berberes (que cobravam tributos das grandes potências para estas não terem os navios saqueados) financiados pelos governos locais. No início, os EUA até pagavam tal tributo, no entanto, em maio de 1801, os norte-americanos se recusaram à crescente demanda do Paxá (nome dado aos governadores das províncias do Império Otomano) que, devido a tal recusa, acabou por declarar guerra duas vezes. Logo após a segunda, o presidente James Monroe anunciou o que veio a ser chamado de Doutrina Monroe, uma política que pode ser resumida na frase “América para os americanos”, quer dizer, no completo afastamento das potências europeias nos países americanos.

E engana-se quem pensou que a sentença de Monroe incidiria somente nos EUA; o presidente não pareceu anunciar a América somente para os americanos-do-norte. Outrossim seu país se transformou numa espécie de tutor de todos os países do continente americano. Sem qualquer interferência europeia no mesmo, os estado-unidenses puderam expandir seus territórios e áreas de influência no continente, e eis que pareceu verídica a sua doutrina do Destino Manifesto, isto é, que os norte-americanos foram o povo eleito por Deus para colonizar a área entre os oceanos pacífico e atlântico. Segue-se que este pensamento teve consequências impactantes, a exemplo da emergência da terra do Tio Sam como grande potência e o extermínio dos povos indígenas (que reduziu uma população estimada em 25 milhões para 2 milhões). Nas palavras do etnólogo Ward Churchill, este foi um “enorme genocídio” e “o mais prolongado que a humanidade registra”.

Com isso, se por um lado houve o impulsionamento da economia dos EUA, por outro, as diferenças socioeconômicas entre o norte e o sul do país se tornaram ainda mais evidentes. Segundo o historiador Phil Landon “os Estados Unidos formavam um único país, mas esse país pensava, trabalhava e vivia diferente, abrigando na realidade duas nações: o Norte-Nordeste, industrial e abolicionista, de um lado, e o Sul-Sudeste, rural e escravista, de outro”. Além de divergências alfandegárias e a manutenção da escravidão por parte do Sul, a diferença entre as duas regiões levou à Guerra de Secessão e com ela o saldo de 620 mil mortos. Contudo, entre mortos e feridos sempre há “vencedores”. Neste caso, a vitória foi do Norte, que logo partiu para a corrida imperialista própria do então chamado Capitalismo Monopolista.

A mentalidade dos EUA no Imperialismo era a chamada Portas Abertas: cada país poderia ter a forma de governo que lhe aprouvesse, contanto que os interesses comerciais não fossem afetados. Quando isso não acontecia, eles tinham que “arrombar as portas”, como as do Império Japonês, que se opuseram durante 15 anos à tentativa estadunidense de manter os portos japoneses livres para o comércio exterior. Como isso não foi feito, os estado-unidenses mandaram quatro navios de guerra à baía de Tóquio e ameaçaram bombardear a cidade caso os portos não fossem abertos. Algo semelhante ocorreu também na China, que acabou por estender aos EUA privilégios que já haviam sido concedidos aos europeus.

No fim do século XIX porém, o cenário econômico nos Estados Unidos mudou. O país passava por uma grave recessão (iniciada em 1893) e tensão social. Por conseguinte, entre a elite econômica o pensamento era de que a única saída para a crise seria a expansão do mercado para o além-mar. No mesmo período Alfred Thayer Mahan, o capitão da marinha americana, publicou A Influência do Poder Marítimo na História, obra que teve como leitor o futuro presidente Theodore Roosevelt que, quando eleito, aplicou aquilo que aprendeu no livro: a abertura de um canal que ligasse os oceanos pelo Panamá e a instalação de bases navais no Pacífico e no Caribe.

Assim, no início do século XX, Roosevelt criou uma nova política intervencionista (Big Stick) inspirada num provérbio africano: “Fale com suavidade, e carregue um grande porrete, assim irás longe”. Essa frase sintetiza a diplomacia de Roosevelt: amistosa nas negociações mas ao mesmo tempo, caso não conseguisse o que queria, certamente idônea em recorrer a armas. Na realidade, foi sua política intervencionista que levou à guerra entre a potência emergente norte-americana e a decadente espanhola uma vez que certas pessoas, como o magnata da imprensa William Randolph Hearst, achavam que o Destino Manifesto deveria se estender além da América do Norte.

Enquanto isso, ocorria em Cuba revoltas contra o domínio espanhol. A situação da época, conforme descreve a historiadora Sophia Rosenfeld, era de forte tensão: “A Espanha, em plena decadência, enfrentava rebeliões anticoloniais em Cuba e nas Filipinas, e os partidários da guerra diziam que os Estados Unidos tinham o dever de ajudar os rebeldes em luta pela liberdade”. Apesar disso, para que a guerra fosse declarada não bastava os partidários bélicos desejarem, era preciso também da opinião pública (que deveria ser manipulada para compreender a guerra como algo benéfico e libertário). Eis que surgiu no país uma forte propaganda anti-espanhola com base no “yellow journalism” a fim de criticar a administração espanhola de Cuba.

Com o apoio do povo, em 18 de fevereiro de 1898, enfim o encouraçado Maine explodiu no porto de Havana; o que pode ser considerado como o casus belli da guerra Hispano-Americana, pois logo em seguida alguns industriais e o Partido Democrata pressionaram o presidente William McKinley que em 25 de Abril declarou guerra à Espanha. A guerra durou menos de quatro meses e teve como resultado a ascensão dos Estados Unidos como uma das maiores potências mundiais, a anexação das Filipinas, Guam e Porto Rico além de libertarem os cubanos do jugo espanhol, porém a ilha passou a ser administrada pela nação vencedora deixando os líderes rebeldes descontentes, além da criação da Emenda Platt que era um dispositivo legal colocado na Carta Constitucional de Cuba que autorizava os Estados Unidos a intervir nesse país a qualquer momento que os interesses dos dois fossem ameaçados (mais dos EUA do que de Cuba, diga-se de passagem). Os Estados Unidos só iria intervir em assuntos europeus de novo a partir do primeiro decênio do século XX.

Com a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos se torna a maior potência do globo e seu status é ainda mais consolidado no fim da Segunda, que eleva também o socialismo da União Soviética. Por consequência, os EUA passa a temer que outros países se tornem socialistas e logo passa a financiar grupos contrários ao movimento. Eis que surge a Guerra Fria onde quase todos os países da América Latina que estavam sobre a égide da democracia se transformaram em ditaduras militares (pois os governos locais eram vistos como simpatizantes ao comunismo). Deste modo, a democracia que antes estava se consolidando nestes países foi adiada para um futuro distante. As intervenções empreendidas no Oriente Médio merecem destaque; pois são elas a caixa de Pandora do século XXI aberta pelos norte-americanos que, após derrotarem nazistas e soviéticos, elegeram os países islâmicos como inimigos da democracia e da liberdade.

No Afeganistão, por exemplo, a intervenção dos EUA começou quando tropas soviéticas invadiram a região para proteger seu governo. Os Estados Unidos não aceitaram isso e iniciaram um financiamento através da CIA que repassava bilhões de dólares em armas para militantes conhecidos como mujahedins (guerreiros santos, em português) e um programa chamado Operação Ciclone, que destinou entre US $ 2 bilhões e US $ 20 bilhões para treinar e equipar tropas rebeldes no país. O conflito deixou um saldo de dois milhões de afegãos mortos e lançou as bases de grupos terroristas como a Al-Qaeda (o alicerce ou A base) e o Talibã (estudantes).

No Irã a interferência da CIA começou em 1953, quando esta passou a cooperar com o Reino Unido para derrubar o governo do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, que tentou nacionalizar a indústria petrolífera iraniana, o que ameaçava os lucros da Anglo-Persian Oil Company. Quando o parlamento iraniano aprovou a nacionalização dos campos de petróleo um plano para derrubar Mossadegh começou a ser orquestrado. Nos meses seguintes um boicote ao Irã foi feito por parte dos Estados Unidos e Reino Unido, enquanto isto uma forte propaganda era feita para destruir a imagem do governo de Mossadegh e agentes provocadores do Irã eram contratados pela CIA para espalhar o caos e se passarem por comunistas além de perseguir líderes religiosos como forma de colocar a comunidade religiosa muçulmana contra o governo. A tática subversiva surtiu efeito e o Xá Reza Pahlavi retornou ao país, mas teve que enfrentar certa oposição das forças de Mossadegh que foram derrotadas e no lugar foi implantado uma monarquia autocrática em torno de Pahlavi. O governo dele foi marcado por forte corrupção política e repressão aos opositores do regime, a cultura ocidental estava entrando no país na mesma proporção das torturas de dissidentes e assassinatos. O Irã era um país rico devido à exportação de aço e principalmente de petróleo, porém a inflação crescia e o padrão de vida das classes mais pobres não melhorava. Surgiu então a oposição do Aiatolá Khomeini que liderando um movimento islâmico pôs fim ao regime do Xá e instalou no lugar uma república islâmica teocrática hostil aos interesses do Ocidente (especialmente os EUA).

Khomeini desejava espalhar a revolução por todo o Oriente Médio o que não agradou nem aos Estados Unidos e muito menos a Saddam Hussein, pois o Irã é de maioria xiita assim como o Iraque, e Hussein era da minoria sunita que governava o país. Ronald Reagan via no ditador iraquiano uma forma de barrar o fundamentalismo islâmico vindo do Irã e de equilibrar as forças geopolíticas no Oriente Médio. Saddam então invadiu a zona ocidental do Irã de surpresa, entretanto a guerra acabou sem nenhum vencedor, as fronteiras continuaram as mesmas de antes do conflito, os EUA retiraram o apoio financeiro e logístico que davam ao regime iraquiano, pois deixaram juntamente com os países árabes de ver o regime do Aiatolá como uma ameaça, então depois da guerra Saddam continuou com uma política externa agressiva que culminou na invasão do Kuwait ocasionando a Guerra do Golfo em 1990, mas Saddam não foi deposto, pois ainda era visto como peça importante para o equilíbrio na região.

Com o a derrocada do socialismo real em quase todo o mundo, muitos teóricos passaram a defender a ideia de que neste momento o capitalismo seria o ápice da existência humana como afirmava Francis Fukuyama no livro O Fim da História. Todavia, o que se viu foi que a História não para e o que destruiu a ilusão de que a democracia e o capitalismo seriam perpétuos foram os atentados de 11/09 e a consequente invasão do Afeganistão e Iraque por parte dos EUA e outras potências ocidentais. A invasão da pátria governada pelos Talibãs foi motivada não para achar e capturar Osama Bin Laden, mas para se apoderar das reservas de lítio avaliadas em mais de US$ 1 trilhão de dólares. Já o Iraque não foi invadido por causa das armas de destruição em massa que supostamente estavam em posse de Saddam Hussein e que depois se descobriu que não havia arma alguma, mas sim porque Saddam estava querendo vender petróleo em euro e isto significava uma ameaça aos petrodólares, já que estas divisas consistem em que os países produtores de petróleo vendam o óleo em dólares. Caso o Iraque vendesse o petróleo em euro e isto fosse seguido pelos outros países, então o dólar viraria um simples pedaço de papel.

Séculos de intervenção norte-americana em diversos países do mundo resultaram em ódio, aversão à cultura ocidental e um profundo ressentimento pelas dores causadas por derrubadas de governos democraticamente eleitos. Na verdade, a caixa de Pandora do século XXI foi aberta quando os Estados Unidos tentou acabar com o terrorismo através de uma intervenção militar em dois países asiáticos e alguns grupos decidiram dar um basta aos séculos em que os EUA se comportou como o xerife do mundo. O terrorismo foi o que saiu da caixa e se alastrou por todo o planeta, uma ameaça sem pátria e sem rosto. A invasão, que propunha tornar a Terra mais segura, acarretou em seu contrário: o aumento da insegurança. Assim, a caixa de Pandora do século XXI liberou males que ainda hoje atormentam os seres humanos; mas assim como a caixinha da mitologia grega, a deste século guarda em seu interior aquilo que impulsiona a humanidade para frente: a esperança.


Referências bibliográficas

Livros

BROWN, Dee. Enterrem Meu Coração na Curva do Rio. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

HOBSBAWM, E. J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914–1991. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOURANI, Albert H. Uma História dos povos árabes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006.

KARNAL, Leandro. Estados Unidos: a formação da nação. São Paulo: Editora Contexto, 2001.

_____________________, et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Editora Contexto, 2007.

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Categoria: Ética e Cidadania, História

Mario Pereira Gomes

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de História (UFPE), tenho um grande interesse em estudar a humanidade e suas diversas facetas. Sou um ser mutável e busco não a perfeição, mas ser melhor a cada dia.

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