Sobre o Empirismo e o Racionalismo de John Locke

John Locke (Reino Unido, 1632 — 1704)

John Locke (Reino Unido, 1632 — 1704)

Classificar um filósofo em específico seja como racionalista ou empirista seja com quaisquer outros termos já implica numa aspiração árdua e abundante – e nesse caso classificar especificamente John Locke (1632 – 1704) como um empirista mitigado ou por outro lado um racionalista que não despreza a experiência é de um designo muito mais sutil e complexo do que a classificação simplória de seus termos sugere. É ainda mais dificultoso entender uma filosofia de caráter transicional tal como a sua; vivenciada no século XVII, contornada por valores cristãos tradicionais, mas, ao mesmo tempo, vislumbrando um capitalismo nascente em direção aos valores burgueses ora promissores ora ameaçadores. Decerto Locke parte de um método empirista mas possui um realismo tal que é nominado por muitos como um racionalista político. Em verdade sua filosofia rejeita o inatismo e o racionalismo clássico, no entanto, tem esse último como ponto de partida – exemplo disso está no modo como dá continuidade ao método geométrico cartesiano – e ademais o filósofo não hesita em adotar a tese de dedução/intuição em relação ao conhecimento da existência de Deus. Tendo isso em vista, faz-se necessário perceber como consequência do pensamento lockeano que a distinção entre racionalismo e empirismo dificilmente se extenua em suas possíveis fontes de conhecimento. Na verdade, para melhor compreender o estudo dessa temática, deve-se reconduzir a discussão “racionalismo versus empirismo” para termos mais comedidos, a exemplo da ambivalência, do espaço que abarca e integra não “o racionalismo ou o empirismo” mas antes “a racionalidade e a experiência” em sua relação interna e própria.

O pensamento de Locke é sobremaneira delineado ao longo de suas vivências – e isso muito diz sobre o mesmo; sua educação foi calvinista, por conseguinte, o educando que nele havia se manteve acreditando em Deus e em valores universais, estava, pois, “distante do fenomenismo de Hume, do utilitarismo de Bentham ou do moderno pragmatismo americano” (CANDEIAS, 2014). Dessa maneira, o que o filósofo entendia por “leis naturais” era uma expressão da vontade d’um Deus criador cuja ordenação da lei expressa a vontade divina apreendida no homem pela luz natural e manifestada na racionalidade humana. A razão, portanto, não é a criadora dessa lei; a criação desta vem de Deus, a razão é a sua intérprete: “(…) para Locke, a lei natural não seria inata, nem estaria inscrita na mente dos homens, resultava sim, o seu conhecimento, das noções que a razão extraí, por via dedutiva, dos conhecimentos que lhe proporciona a experiência sensível” (MM. A. Candeias, 2014). Conforme o objeto do seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, não há nos homens ideias inatas, ao invés disso, as ideias se originam nas sensações – logo Locke passou a perceber que a moral e a própria religião se dão por noções do espírito experimentadas como fatos psicológicos e as verdades morais são atestadas pela educação, tradição e pelo hábito. Há culturas, por exemplo, disse o filósofo, que não concebem a existência de Deus. Mas ainda assim, preservando os cumes de sua tradição, a solução dada por ele

(…) ao problema do conhecimento ficou sepultada em considerações de psicologia, sem atingir a crítica das próprias funções do intelecto. O seu realismo ficou hesitante sobre o seu idealismo subjetivo. Os seus intelectualismo e racionalismo entraram em conflito com todos os momentos empiristas, utilitários e pragmatistas do seu pensamento. No fundo, toda a metafísica ficou esmagada sob a aluvião das suas preocupações nominalistas e positivistas, próprias de um britânico burguês, cauteloso e de bom-senso. Da sua obra transparece uma dialéctica constante entre por um lado, o empirismo e por outro lado, o racionalismo. De novo neste ponto, a mesma dualidade da sensação-reflexão, emerge sob a forma de uma combinação ou justaposição entre o conceito de lei natural e eterna, com certos conteúdos éticos, e os postulados do mais tenaz e radical individualismo. (Idem)

Sob esta herança transicional, a filosofia lockeana compreende que os indivíduos humanos se sentem solicitados pela lei natural porque são seres racionais e estão sujeitos aos ditames desta, a mesma que define e salienta a existência da família e da propriedade; os indivíduos humanos consentem em viver numa sociedade regulada pelo poder executivo comum da lei natural porque este poder reside em cada homem não pelo contrato histórico, mas antes pelo seu consentimento tácito e explícito – e ao fazer isso, numa simbiose entre estado de natureza e estado de sociedade, a argumentação do filósofo se torna “puramente racional e sem base histórica” (M. C. Henriques, 2008) – eis aqui senão a herança de um tempo, o seu tempo, o século XVII, que se reconfigura entre o pensamento do pretérito e o pensamento do porvir, que se permite pensar ser essa lei expressa pela razão e ensinada a todos os homens que tão-só a consultem, sendo todos iguais e independentes, que nenhum deles deve prejudicar a outrem na vida, na saúde, na liberdade ou nas posses (LOCKE, 1973, § 6), mas também um tempo que permite construir uma teoria do conhecimento ao sobreveio da empiria.

Desse modo, partindo d’um método empirista ao mesmo tempo em que se compromete com um projeto racionalista e, portanto, com a ideia do conhecimento como conhecimento certo e com a crença na existência de um método capaz de proporcionar decisões conclusivas a respeito da verdade e da falsidade das proposições do conhecimento (CHIAPPIN e LEISTER, 2009), tese essa apresentada pela primeira vez em Chiappin (1989), a investigação de Locke, tal como a de Descartes, procura examinar a extensão dos domínios da certeza mas se distanciando do cartesianismo a medida em que se distancia de pressupostos e recursos metafísicos. Ora, se o pensamento cartesiano engloba até mesmo a filosofia natural, o lockeano a demarca nos domínios dos graus da crença e de seus instrumentos – a probabilidade aparece então como um recurso para introduzir medida a esses graus. Locke, contudo, não estagna na probabilidade mesma, pelo contrário, conforme aqui foi dito, o filósofo busca o conhecimento certo; é certo, a título de exemplo, a existência inegável de um objeto e sujeito do conhecimento – que diferentemente de Descartes, não é um sujeito ideal, mas um sujeito concreto, particular e dotado de faculdades apropriadas para o conhecimento, muito embora ele não possa conhecer diretamente as essências reais das substâncias, quer dizer, o mundo tal como ele é. O sujeito conhece a composição das ideias construídas por sua mente pela sensação e experiência dessas ideias – uma alternativa e concepção empirista contra a doutrina inatista cartesiana uma vez que se faz sem fundamentos metafísicos. Locke chega à conclusão de que Descartes não teria razão: nem as leis da física, nem a metafísica, nem a mecânica preenchem as exigências do conhecimento certo pois, uma vez que o conhecimento das essências reais é inacessível aos sentidos, suas leis não podem ser consideradas proposições universais e necessárias (Cf. CHIAPPIN; LEISTER, 2009). Assim ele conclui que apenas a moral, que coincide essência nominal e real por construção de seus objetos, é conhecimento certo.

Assim a filosofia de Locke abarca, de maneira sui generis, admirável e moral, não o racionalismo em contraposição ao empirismo, mas a racionalidade seguindo um método empirista rígido, sensato e inovador.


Referências

CANDEIAS, MARIA. A genealogia dos Direitos Humanos e a influência do Liberalismo Político de John Locke na sua conformação. RIDB, Portugal, ano 3, n. 9, pp. 6538-6721, 2014.

CHIAPPIN, JOSÉ; LEISTER, CAROLINA. A reconstrução racional do programa de pesquisa do racionalismo clássico sob a perspectiva da abordagem de solução de problemas. Discurso, São Paulo, v. 39, pp. 107-154, 2009.

________________________________. A reconstrução racional do programa de pesquisa sobre o racionalismo clássico: Locke e a vertente empirista. Filosofia Usinos, Porto Alegre, v. 10, n. 2, pp. 125-147, maio/ago 2009.

HENRIQUES, MENDO. John Locke e a gênese das ideologias modernas. Disponível em: http://works.bepress.com/mch/2/. Acesso em: 17 de jun. 2016.

LOCKE, JOHN. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1999. 319 pags.

MARKIE, PETER. Rationalism vs. Empiricism. Disponível em: <http://plato.stanford.edu/archives/sum2015/entries/rationalism-empiricism/>. Acesso em: 15 de jun. 2016.

STUART, MATTHEW. A companion to Locke. Blackwell Publishing Ltd, Oxford (UK), 559 p., 2016.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia Moderna, Filosofia Social e Política, Metafísica e Ontologia, Política

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (2)

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  1. romero freitas disse:

    bom texto, mas veio sem a bibliografia

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