A didática da filosofia nas escolas francesas

Philosophie

No livro Filosofia para crianças em debate, François Galichet[1], uma vez que avalia positivamente o ensino da filosofia na França, expõe debates e perspectivas da didática do seu país de origem.

Para o ensino da filosofia nas escolas do Ensino Médio, segundo as instruções oficiais francesas, o educando deve fazer uma síntese da totalidade dos saberes disciplinares (científicos e literários) dispersos. Tendo isso em vista, o papel da filosofia é estabelecer vínculos ou, no sentido hegeliano, “sintetizar o comprimento de toda cultura do conhecimento”, possibilitando assim uma coerência entre todos os ensinos oferecidos ao aluno desde o início de sua escolaridade. Além disso, ela é também uma aprendizagem questionadora, algo similar à dúvida metódica da tradição cartesiana, quer dizer, uma problematização das pseudo-evidências do senso comum e dos preconceitos culturais e sociais. Nesse sentido, a filosofia tem como finalidade uma educação de e para a liberdade, uma busca de equilíbrio pessoal para além das incertezas e variações dos adolescentes.

Contudo, a partir de 1968, o ensino filosófico tradicional começou a ser criticado na França, sobretudo no ano de 1974, quando surgiu o Greph, Grupo de pesquisa sobre o ensino da filosofia com base no filósofo franco-magrebino Jacques Derrida, que se opunha à ideia herdade de Hegel segundo a qual existe, ligada à maturidade do espírito e à de saberes prévios, uma idade certa para filosofar. Eis como o Greph, com base na filosofia para crianças de Matthew Lipman, defendia a tese de um início do ensino filosófico desde cedo. Além disso, o Grupo propunha a introdução de outras formas de avaliação que levassem em conta processos pessoais ao conhecimento dos educandos.

Já nos anos 90, com uma nova geração de professores franceses, dessa vez tendo por influência Piaget e Vygotsky, a discussão do ensino filosófico passa a propor o direito à filosofia para todos, direito este que deveria abranger não só a elite intelectual e social, mas todos os alunos sem exceção – o que Derrida chama de “direito à filosofia” (Du droit à la philosophie), que seria um elemento essencial à educação e à cidadania a fim de, além do que propunha Liman, quer dizer, do direito de desenvolver o pensamento crítico e criativo de se construir a turma numa “comunidade de investigação”, os educandos devem ter o direito de lançar as bases de uma sociedade republicana, onde os valores de tolerância, de justiça e de solidariedade possam estar fundados na razão. Portanto, além da perspectiva epistemológica, Derrida propõe o foco moral.

Tais metas, no entanto, não são nada simples. Michel Tozzi, um renomado analista didata da filosofia francesa, em seu escrito Apprendre à philosopher dans les lycées d’aujourd’hui, mostra alguns dos vários paradigmas ao objetivo de estruturar o ensino da filosofia. Exemplo disso, diz ele, é o paradigma histórico, cujo ensino se dá pela história das ideias (passado vs presente), o paradigma doutrinal, onde se ensina uma filosofia oficial (como o Tomismo na Escolástica ou o Marxismo nos antigos países comunistas), o paradigma positivista, que apóia essencialmente as regras da lógica formal, os dados da epistemologia e da história das ciências e, por fim, o paradigma praxiológico segundo o qual os alunos são levados a refletir principalmente sobre as questões éticas e as regras que devem guiar as condutas individuais e coletivas (como o método dos dilemas morais elaborados por Kohlberg).

Em oposição a isso, muito próxima à filosofia para crianças de Lipman, surge a corrente didatista pela qual o professor deve ligar de forma estreita a aprendizagem de competências, isto é, a problematização (o “colocar em questão” afirmações dadas como certas), a elaboração de problemas fundamentais (dando lugar a diferentes respostas), a conceitualização (definição e elaboração de conceitos precisos a partir de noções vagas) e o envolvimento ou argumentação pessoal do aluno (exposição das razões de duvidar e fundamentar). Exemplos de exercícios para essa abordagem são (1) a aproximação metafórica de conceitos, (2) o método da indução dirigido por contrastes, i.g., entre questões filosóficas e não filosóficas, (3) o pronunciamento acerca do filósofo que melhor se corresponde às concepções do aluno e (4) o debate entre grupos que defendem teses opostas.

Considerando estas reflexões, Galichet tem por conclusão que todo ensino filosófico é constituído pelo entrecruzamento, em diversos níveis, de quatro caminhos essenciais: uma lógica da instrução – que define a filosofia como acesso à racionalidade ou como uma “pedagogia da verdade” –, uma lógica da aprendizagem – cujo fim não é mais a aquisição de conhecimentos ou saberes, mas sobretudo o desenvolvimento de capacidades de problematizar, conceitualizar e argumentar –, uma lógica da explicação – em que o ensino filosófico é relacionado ao desenvolvimento das ciências – e, enfim, uma lógica de confrontação – onde o ensino do filosofar é o reencontro do outro, como princípio de uma normatividade diferente do eu.


[1] Professor da Universidade de Stransbourg, França.


Obra resumida: Publicação do vol. IV-cap. 16 da seguinte coleção: Kohan, W.O.; B., Leal (orgs.). Filosofia para crianças em debate. Petrópolis, Vozes, 1999, p. 159-173.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Social e Política, Pedagogia, Pedagogia e aprendizagem filosófica

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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