“Idade das Trevas”: Fato ou Preconceito?

| 02/07/2016 | 0 Comentários

idade media“Idade Média”, expressão que até assusta alguns, fazendo-os bambearem as pernas, outros cerram os punhos tamanha avulsa, antipatia e repulsa que sentem de tal período. Ainda há aqueles que sentem um certo friozinho na barriga e expressam visível desconforto ao se falar sobre o assunto. O irônico é que todas estas reações são produtos de uma concepção equivocada e preconceituosa do período medieval, preconceito este, oriundo do iluminismo no século XVIII, época, talvez, ainda mais cruel que boa parte da dita “idade das trevas”…

Ontem, 01/07/2016, aproximadamente as 16h: 50m, finalzinho de expediente de trabalho, tive de atender um usuário cujo atendimento era bastante simples: A liberação de seu documento do veículo (CRLV). Apresentado os documentos necessários para a liberação de seu CRLV, o cidadão à minha frente iniciou um pequeno desabafo, sobre um mau que infligia-lhe a vida. Contudo, adepto da religião espírita, falou-me que “nada é por acaso” e que tudo o que vivenciava, naquele momento, era “produto de suas ações em vidas passadas”, de modo que, segundo sua crença, outrora (noutra encarnação) havia sido uma pessoa má, ao passo em que hoje apenas respondia por suas “dívidas com o passado”.

Aprofundando-se na temática citou Auschwitz, um dos grandes campos de concentração alemão durante o período da II Guerra Mundial, e posteriormente, mencionou a Inquisição espanhola (também conhecida como Tribunal do Santo Ofício, instituição fundada no século XV e que se estende até o século XIX). A razão? Acerca da primeira menção, informou que cada uma das pessoas que morreram nos campos de concentração, noutras vidas, haviam sido pessoas terríveis e que lá pagavam por seus erros do passado.

Quanto a segunda menção, utilizou-a para justificar que os tempos antigos foram obscuros e que jamais a humanidade havia sido tão cruel o quanto o fora na Idade Média, i.e., segundo ele, no período que se estende das cruzadas ao Santo Ofício. Querendo, com isso, “justificar” a tese de que, em razão da maldade de outrora, o mal de hoje é tão-somente consequência desta. Como prova do que dizia, lembrou-me os instrumentos de torturas da Inquisição espanhola.

Pois bem, ao contrário de meu diálogo com o mototaxista, o qual se deu fora do ambiente de trabalho, neste caso eu estava dentro do ambiente de trabalho, de modo que só me restava ouvir o que o rapaz tinha a dizer, sem poder expressar uma opinião de valor ou abrir portas para questionamentos, por uma questão “ético-profissional”, além do que, se por acaso outro usuário chegasse para o atendimento, teria de dar prioridade antes a este, do aquele, o qual estava a ouvir.

Em vista do fato ocorrido, assim como também, da recordação de que outrora já nutri o mesmo preconceito, decidi escrever uma nota pequena sobre o assunto, a qual se segue:

Em primeiro lugar, “Idade Média” é um termo por si só equivocado, uma vez que pressupõe um continuum temporal baseado num referencial histórico absoluto, quando na verdade, o termo tem por referência o calendário cristão, de modo que falar no período medieval não é o mesmo que falar, por exemplo, da periodização árabe-muçulmano, cujo referencial é o calendário Hégira.

Em segundo lugar, tendo por referencial a periodização cristã, a Idade Média tem seu início, não com as cruzadas (que se dá no século X), antes no século V, i.e., com a queda do Império Romano, assim como não termina no século XIX, final da Inquisição Espanhola, antes com a transição para o Renascimento, que se inicia, segundo Franklin Oliveira (1990) com Francisco de Assis (1182-1226), grosso modo, frade católico responsável por inverter o olhar tradicional da época com relação ao profano, i.e., com relação as emoções e sentimentos próprias do homem, tendo o seu ápice (portanto “rompimento” com a Idade Média) no século XV.

Em terceiro lugar, simplesmente não é verdadeiro que antes do século XIX o mundo vivia sob uma nuvem de obscuridade. Pensar tal coisa é simplesmente atestar a si próprio o título de ignorante, uma vez que se esquece (ou se ignora) o valor e grande importância da Antiguidade Clássica, com os filósofos helenistas, o desenvolvimento científico do mundo oriental, em especial a China, o Japão e o Egito, assim como também a contribuição literária, artística e filosófica de figuras como Boécio, Agostinho de Hipona, Pseudo-Dionísio, Averróis, Mestre Eckhart, Dante Alighieri, Erasmo de Rotterdam etc. Isto, sem mencionar que a dita cuja “Idade das Trevas” foi aquela que promoveu, talvez a maior criação humana do período: a Universidade.

Em quarto lugar, também é falso que o “período medieval” foi o mais cruel e violento dentre todos os demais. Para que se constate isto, basta recordar-se de que as duas grandes guerras do século XX matou muito mais pessoas de que toda a Inquisição Espanhola e as cruzadas, juntas. Isto, sem mencionar os regimes totalitários do século passado.

Portanto, duas coisas ficam claras: i) A “Idade Média” não se refere a um período de trevas, exceto dentro do preconceito das “trevas do iluminismo” e ii) a ideia de progressão exponencial histórica é simplesmente falsa e absurda, uma vez pressupor que o passado é sempre caótico, ao passo em que o presente é sempre melhor. A história é a prova viva de que as coisas não acontecem bem assim.

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Categoria: História

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