Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco

Antes da escolarização moderna, nossa educação focava nos ensinamentos espirituais. Mas agora a ênfase é no sucesso material. Pessoas vão à escola para que possam ganhar muito dinheiro, ter uma grande casa, dirigir um bom carro… Toda a ideia de aprendizagem foi transformada para significar: “Como eu posso ganhar muito dinheiro”? – Fala uma das mulheres indianas do Documentário Escolarizando o Mundo.

© 2015 Schooling the World

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Schooling the World: The Whithe Man’s Last Burden (Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco) é um documentário que apresenta o advento do ensino aos moldes ocidentais modernos. Em primeira análise, além de denunciar uma das muitas maneiras de dominação e agressão social suscitada quando uma cultura se sobrepõe à outra especialmente a partir de suas estruturas de base, como é sobremaneira o caso da Educação, o documentário possibilita ao espectador uma reflexão profunda acerca do quão esse processo é agressivo à dignidade e à identidade cultural dos indivíduos que se subordinam a essa estrutura, quer dizer, ao chamado “fenômeno social da homogeneização da cultura” cujos danos muitas vezes são irreversíveis. Exemplo disso é quando a lei da língua inglesa, a lei da matemática ou mais propriamente a lei do dominador é colocada sobre o dominado que, na maioria das vezes, é conduzido à pobreza extrema. Além do mais, essa narrativa permite refletir criticamente acerca da educação e da sua relação com a forma como se dá a existência humana, sobretudo denunciando a perspectiva ocidental socioeconômica do capitalismo.

[É possível observar que] A educação institucional cria o aparente paradoxo da formação escolar que desqualifica o homem para o trabalho assalariado dentro de um modelo de sociedade. Por outro lado, a não formação escolar pode vir a assegurar, pelo relativo isolamento cultural, a sobrevivência do homem não escolarizado, mesmo que este se encontre em condição subalterna em relação a uma classe que detém os meios de produção. No entanto, a escolarização se apresenta como alternativa de superação dos condicionantes socioeconômicos impostos pelo sistema hegemônico capitalista global.[1]

escolarizando

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Seja pela imposição opressiva do dominador, seja pela crença de que a instituição escolar ajuda as pessoas a se livrarem da pobreza em que vivem com base na humanização, muitos dos povos embarcam numa educação descontextualizada histórica e geograficamente focalizando-se então na razão, no progresso e nas “verdades” de ciências que não lhe são próprias – tudo isso em nome de uma promessa: o ideal moderno de construir uma sociedade racional, progressiva e democrática. Contudo, a formação prometida como mais perfeita e autônoma não abarca a todos – no que diz respeito aos indivíduos que permanecem no novo mundo onde passaram a se instruir, como é o caso de muitos dos “estudantes [que] saem de suas casas buscando a inclusão na sociedade do consumo mediante a educação escolarizada”[2], uma vasta gama deles não encontra oportunidades de trabalho e moradia plenas, quanto aos que voltam a suas sociedades de origem, o mais comum é que o conteúdo aprendido nas escolas não esteja conectado com as necessidades de suas famílias; assim eles se sentem sem pertencer a lugar nenhum, isto é, nem às suas comunidades originais nem ao universo do capital e da competitividade.

De mais em mais, o Documentário ainda tem o mérito de mostrar o quanto a escolarização pode ser prejudicial e alienadora até mesmo para os indivíduos que já nascem dentro de sua própria estrutura:

Com o (…) Schooling the World somos levados a pensar o quanto a escolarização é planejada para atuar como um dispositivo que planifica e extrai as singularidades dos sujeitos em prol de uma uniformização (…) Este controle sobre o corpo e a mente parece ser um dos artifícios utilizados pela escolarização em massa utilizada pelo Estado. As crianças e jovens são retiradas da “natureza” para serem colocadas em um espaço fechado por oito horas (Manish Jain). A ideia nos remete a associar as escolas como fábricas, que visam moldar os sujeitos para se tornarem iguais e também controlar o seu tempo de aprendizagem na busca de um padrão de qualidade. Além disso, os jovens são vistos pelo Estado como o futuro ou a “juventude da nação”.[3]

© 2015 Schooling the World

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Tendo isso em vista, conforme mostra o Documentário e os aspectos expostos ao longo deste texto, a escolarização impede, por se tratar de um ambiente hegemônico onde muitas vezes o professor tem papel de “ditador da verdade”, que as descobertas das crianças, dos adolescentes e demais estudantes aconteçam com naturalidade, segundo o próprio interesse, necessidade e ritmo do educando enquanto ser humano particular. Assim, a educação escolarizada propõe uma espécie de “formação continuada” baseada na instrumentalização e “adestramento” – correntemente prejudicial não só aos povos que a ela se submetem mas também aos que a ela já se encontram submetidos desde o nascimento.


[1] CAMOZZATO & BALLERINI, p. 9.

[2] THEES, 2015.

[3] Idem.


Referências:

BLACK, CAROL. Schooling the World: The Whithe Man’s Last Burden [Filme]. 64 min.

CAMOZZATO, VIVIANE; BALLERINI, DAMIANA. Educação ociedental e a escolarização do mundo. 6º SBECE 3º SIECE Educação, Transgressões, Narcisismo.

SCHOOLING THE WORLD. Site do Documentário. Disponível em: <http://schoolingtheworld.org/>. Acesso em: 02 de jul. de 2016.

THEES, ANDRÉA. O audiovisual na formação de professores: O documentário “Escolarizando o Mundo”. VIII Seminário Internacional As Redes Educativas e as Tecnologias: Movimentos Sociais e Educação (Jun. de 2015).

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Categoria: Ética e Cidadania, Literatura e Cinema, Pedagogia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (2)

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  1. Cecília disse:

    Seu texto me levou a refletir coisas que estão além dele… Fiquei pensando sobre nós, estudantes da filosofia na América Latina, que “herdamos” uma filosofia européia e no entanto mal estudamos o pensamento brasileiro/latino-americano (quando o estudamos, em geral o fazemos com o título de “pensamento”, raramente com o de “filosofia”). O que acham? Nossas universidades devem/podem focar no pensamento brasileiro? E que dirão de chamá-lo de filosofia?

  2. Leandro de Andrade Moura Leandro de Andrade Moura disse:

    Uma geração inteira cresceu aprendendo que a educação é a chave para um futuro melhor. Mas de que educação estamos falando? Da formal certamente não é, porque tudo o que é demais se desvaloriza.

    Temos uma verdadeira massa mão de obra intelectualizada, que faz trabalho escravo sem saber. Ganha alguns mil mas rende alguns milhares, não tem tempo pra nada além de trabalhar.

    Essa educação formal, que cada vez mais consome a vida das pessoas em troca de um futuro melhor, está tirando a nossa capacidade de aprender a ser humanos.

    Mas, ainda sim, acredito que a solução não seja ignorá-la, mas sim se impor a ela, negociar, não baixar a cabeça pro trabalho escravo e fazer o mercado se regular com uma cultura saudável.

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